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#Romances#Literatura Portuguesa

A Capital

Por Eça de Queirós (1925)

— Não ha como Lisboa para se apanhar do bom, do alto ! Tudo sêdas e velludos ! — E repoltreavase, retorcendo as guias, significando qüe se rolara no leito de condessas. — F, as hespanholas, ó amigo, hein E as hespanholas

O olho chammejava-lhe. Para elle, não havia como uma rica andaluza, cheia de salero e de chic, de cinta d'annel, pézinho catita Oh ! menino ! Deu um puxão ás calças, bufou de concupiscencia.

— Agora aqui é chupar no dedo ! — concluiu sombriamente, — Que choldra de vida ! Até um homem aqui ganha mofo . . ,

A mim, paraJysam-se-me as faculdades , , .

— E eu estou a perder a tacada . . .

Estes gostos baixos, as locuções incultas de Rabecaz, revelaram a Arthur um brutal que o dinheiro, a petulancia, ti.nham misturado casualmente ás existencias desordenadas das almas ardentes. E, preoceapado só do mundo da Arte e da Litteratura, interrogou-o ainda sobre os theatros, as dançarinas. Devia ser uma vida deliciosa nos bastidores . . . ceias com os jornalistas

— Um delirio, meu caro senhor ! De tremer ! De vir tudo abaixo !

Arthur entrevia orgias sonoras, o estalar do Champagne, can-cang, em que cabellos soltos perfu- mam o ar calido . . .

— E vive a gente aqui ! — suspirou.

— Na estrumeira ! — echoou Rabecaz.

E azedados á idéa das felicidades i.naccessiveis, uniam-se n'nma sympathia nascente.

A Arthur, o que lhe valia eram os livros. Recolhia cedo para casa, tomava o seu Victor Hugo

Rabeoaz arregalou os olhos.

— Victor Hugo . — rosnou com uma voz cava — Um mundo !

Aquella admiração, precisada n'u-ma palavra profunda, enthusiasmou Arthur. -E com a pupüla accesa, os cotovellos na mesa :

— Pois não é verdade ? 48 Contemplações ! 08 Miseraveis! E Lamartine ?

O Rabecaz alargou os braços, como para designar um seio de proporções mais que humanas e soltou :

-— Lamartine ? Um mundo !

— O typo d'Elvi:a, hein ? E o typo divino de Graziella ? Mas Alfred de Musset ? Oh ! Alfred de

O Rabecaz reflectiu, com um vinco na testa :

— D'esse não estou ao facto Mas Guizot ! Um mundo ! De tremer tudo ! Mais dous quartilhos, belia Maria

Eram onze horas quando sahiram da Corcovada. Ao passar deante da egreja de S, José, Rabecaz, excitado, insultou os padres, disse pilherias sobre os dogmas.

— P 'ra que serve isto, este covil ? —E brandia o bengalão para a fachada da egreja negra e muda.

— Deviam ser convertidas em escolas — disse

Arthur.

O Rabecaz, indifferente á instrucgão, encolheu os hombros :

— Devia ser tudo arrasado !

Depois, a casa do Carneiro, o rico logista de pannos, coberta d'azulejos, com as suas tres varandas de sacada, exasperou-o.

— Grandissimo burro ! Se nós lh'apanhassemos o dinheiro, hein ? Era logo comboio p'ra Lisboa, e bater p'ro Dafun.do, com um par de pequenas. Enterrou as mãos nos bolsos e tornou-se sombrio.

A chuva cessara : um vento frio ia rolando espessuras de nuvens, espaços azues estrellavam-se.

— Pois tivemos uma bella cavaqueira — disse o Rabecaz quando Arthur parou á porta de casa. — Eu gosto de conversar com quem me entenda e cá o amigo é dos meus. Appareça pela Corcovada. Não se passa mal.

E avistando um gato, atirou-lhe uma bengalada. Aquella brutalidade escandalisou Arthur. Deitou-se; convencido que o Rabecaz era um grosseiro, sem educação litteraria, d'uma lubricidade de bode.

Mas vivera em Lisboa, bebera o Champagne das orgias litterarias ; sobretudo, era republicano— e, d'ahi a dias, Arthur voltou á Corcovada, com o pretexto de pagar a ceia ao Rabecaz — realmente para lhe mostrar a sua Ode á Liberdade.

O Rabecaz enthusiasmou-se logo, sobretudo qüando Althur, afogueado, soltava este final da sua estrophe amada :

A hora Já soou, a Aurora vem a Baqueia a realeza :

E 'á se ouve na cidade além,

Rugir a Marselheza

Rabecaz atirou uma punhada á mesa:

— Caramba! Isso é d'artista ! Você o que deve é ir para Lisboa, que em Lisboa desbanca-os a todos ! Arthur não o duvidava— e essa palavra cimen-



(continua...)

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