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#Contos#Literatura Portuguesa

São Cristóvão

Por Eça de Queirós (1912)

Cristóvão seguiu, caminhando à beira do regato. Grandes prados verdejavam, cobertos de botões-de-ouro. As ramas dos salgueiros mergulhavam na água fugidia e clara. Os pássaros chalravam na frescura; E no meio desta paz, um moinho com a porta arrombada, e pendente dos gonzos, os grandes paus das velas partidos, as paredes chamuscadas do lume, jazia com a tristeza de um cadáver num prado de Primavera. Cristóvão dirigiu-se para o moinho. De uma árvore meio partida, que se erguia por trás, junto às escadas, pendia um velho enforcado, com uma pedra amarrada aos pés. Ao lado negrejavam os tições apagados de uma fogueira, e junto dela uma lança esquecida.

Cristóvão foi seguindo. Por todo o caminho havia as confusas pegadas de cavaleiros em marcha; todas as sebes estavam rotas; uma ponte rústica fora partida a machadadas; outros casebres apareciam devastados, nus, com o colmo queimado: - e nem uma criatura se via, entre aquelas ruínas.

Ao fim de um longo dia, porém, tendo-se sentado junto de um casebre em ruínas, sentiu um ruído entre as árvores: - e um homem apareceu em farrapos, lívido, escaveirado, e logo se sumiu entre a espessura das árvores. Para o deixar livre de medo, Cristóvão ergueu-se e foi mais adiante, onde havia uma colina com rochas. Um grande roble crescia à boca de uma caverna. E ao ruído dos seus passos, uma cabeça de velha apareceu à boca da caverna, e logo se sumiu assustada. Cristóvão pensava com dor por que se esconderiam esses homens. Por que seria aquela terra povoada por gente que se escondia nos bosques, nas tocas dos bichos, debaixo das penedias?... Por quê? Uma grande piedade já o ia tomando. Se ouvia um rugir de ramagens afastadas, gritava: Paz! Paz! para tranqüilizar aqueles corações aterrados, mas logo as ramagens se fechavam e tudo ficava mudo.

Ia caminhando. Bebia nos regatos, comia a bolota das árvores e as ervas dos prados. Um dia avistou uma aldeia e casebres de colmo juntos em torno de uma igreja, cuja torre estava em obras. Um caminho seguia entre filas de plátanos. Ao penetrar nele, uma mulher que, agachada com uma criança, procurava ervas, fugiu tão tontamente que deixou a criança no chão. Cristóvão apanhou a criança, tão magrinha que se palpavam os seus pobres ossinhos, sob a pele cheia de feridas: e nem chorava, com a mãozinha sobre a testa, onde as chagas eram maiores. Todo o coração de Cristóvão se enchia de dor. Lançou um grande brado pela mulher. Ninguém respondeu. Então, tomando a criança ao colo, seguiu sob os plátanos mas sentia, através das folhagens, alguém que o seguia. Pousou no chão a criança, afastou os passos. E voltando-se bruscamente, viu a mulher que saltava entre o tojo, arrebatava a criança e de novo sumia no mato.

Ao fim do caminho era a aldeia. As primeiras casas, junto de uma paliçada de estaca, estavam desertas, nuas por dentro, como saqueadas. Num uma rês de gado se via nos aidos. Nem uma foice pendia sobre a lareira. A uma porta, uma velha, mais magra que um esqueleto, olhava com os olhos fixos cavados no vago, e como deslumbrados de espanto. Um cadáver abandonado, que ninguém enterrara, tinha as mãos decepadas. Por vezes uma figura passava correndo, com os cabelos ao vento. Uma figura de mulher, de bruços, com os cabelos soltos, estava agarrada a um berço vazio.

Mas ao fim da aldeia, junto de um calvário, viu correr gente em magote. Um frade meio descalço, sem capuz, de olhos ardentes, erguia uma cruz, chamava a justiça de Deus. Como podiam os homens sofrer mais sobre a terra? Os senhores andavam em guerra, e daí vinha o mal dos pobres. Os barões corriam as suas terras, e tudo saqueavam. tudo roubavam para adestrar soldados, ter hostes brilhantes. Se outros, mais fortes, os faziam prisioneiros, de novo voltavam nos seus grandes corcéis, a saquear, roubar, tirar ao pobre a última acha, a última mão-cheia de favas, para reunir o preço do resgate. Se ficavam vencedores, eis que voltavam a saquear os restos, a arrancar a seara ainda mal madura, para celebrar festas, e erguer solares ricos. Depois, atrás passavam ainda as companhias de mercenários, que. nada encontrando, queimavam os muros, destruíam os arvoredos, e matavam as crianças nos berços. Quanto tempo mais consentiria o Senhor este mal que ia na terra? Por toda a parte ele andara, só vira a fome. As mulheres comiam os cadáveres dos filhos. Os homens em breve seriam como feras. E aí dos que se encontrassem no caminhos da turba esfaimada!

A sua mão tremia no ar cheia de ameaças. E em torno dele os moços lívidos apertavam os punhos, com olhares que procuram uma arma. Mas outros baixavam a cabeça. Que podia o pobre, só, na sua terra estéril? A justiça devia vir de Deus. Uma mulher gritou: “Ou antes do Demônio!...” Um murmúrio e terror passou entre a gente.

Cristóvão saiu da aldeia com o coração esmagado. Os seus olhos erguiam-se para o Céu. Ali, por trás do azul, estava o Senhor! Decerto ele via tantos sofrimentos, as guerras, as fomes, as pestes.



(continua...)

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