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#Romances#Literatura Portuguesa

O crime do Padre Amaro

Por Eça de Queirós (1875)

Amaro achava aquelas unhas admiráveis, porque tudo que era ela ou vinha dela lhe parecia perfeito: gostava da cor dos seus vestidos, do seu andar, do modo de passar os dedos pelos cabelos, e olhava até com ternura para as saias brancas que ela punha a secar à janela do seu quarto, enfiadas numa cana. Nunca estivera assim na intimidade duma mulher. Quando percebia a porta do quarto dela entreaberta, ia resvalar para dentro olhares gulosos, como para perspectivas dum paraíso: um saiote pendurado, uma meia estendida, uma liga que ficara sobre o baú, eram como revelações da sua nudez, que lhe faziam cerrar os dentes, todo pálido. E não se saciava de a ver falar, rir, andar com as saias muito engomadas que batiam as ombreiras das portas estreitas. Ao pé dela, muito fraco, muito langoroso, não lhe lembrava que era padre; o Sacerdócio, Deus, a Sé, o Pecado ficavam embaixo, longe, via-os muito esbatidos do alto do seu enlevo, como de um monte se vêem as casas desaparecer no nevoeiro dos vales; e só pensava então na doçura infinita de lhe dar um beijo na brancura do pescoço, ou mordicar-lhe a orelhinha.

Às vezes revoltava-se contra estes desfalecimentos, batia o pé:

- Que diabo, é necessário ter juízo! É necessário ser homem!

Descia, ia folhear o seu Breviário; mas a voz de Amélia falava em cima, o tique-tique das suas botinas batia o soalho... Adeus! a devoção caia como uma vela a que falta o vento; as boas resoluções fugiam, e lá voltavam as tentações em bando a apoderar-se do seu cérebro, frementes, arrulhando, roçando-se umas pelas outras como um bando de pombas que recolhem ao pombal. Ficava todo subjugado, sofria. E lamentava então a sua liberdade perdida: como desejaria não a ver, estar longe de Leiria, numa aldeia solitária, entre gente pacifica, com uma criada velha cheia de provérbios e de economia, e passear pela sua horta quando as alfaces verdejam e os galos cacarejam ao sol! Mas Amélia, de cima, chamava-o - e o encanto recomeçava, mais penetrante.

A hora do jantar, sobretudo, era a sua hora perigosa e feliz, a melhor do dia. A S. Joaneira trinchava, enquanto Amaro conversava cuspindo os caroços das azeitonas na palma da mão e enfileirando-os sobre a toalha. A Ruça, cada dia mais ética, servia mal, sempre a tossir; Amélia às vezes erguia-se para ir buscar uma faca, um prato ao aparador. Amaro queria levantar-se logo, atencioso.

- Deixe-se estar, deixe-se estar, senhor pároco! dizia ela. E punha- lhe a mão no ombro, e os seus olhos encontravam-se.

Amaro, com as pernas estendidas e o guardanapo sobre o estômago, sentia-se regalado, gozava muito no bom calor da sala; depois do segundo copo da Bairrada tornava-se expansivo, tinha gracinhas; às vezes mesmo, com um brilho terno no olho, tocava fugitivamente o pé de Amélia debaixo da mesa; ou, fazendo um ar sentido, dizia "que muito lhe pesava não ter uma irmãzinha assim" !

Amélia gostava de ensopar o miolo do pão no molho do guisado: a mãe dizia-lhe sempre: - Embirro que faças isso diante do senhor pároco.

E ele então rindo:

- Pois olhe, também eu gosto. Simpatia! magnetismo!

E molhavam ambos o pão, e sem razão davam grandes risadas. Mas o crepúsculo crescia, a Ruça trazia o candeeiro. O brilho dos copos e das louças alegrava Amaro, enternecia-o mais; chamava à S. Joaneira mamã; Amélia sorria, de olhos baixos, trincando com a ponta dos dentes cascas de tangerina. Daí a pouco vinha o café; e o padre Amaro ficava muito tempo partindo nozes com as costas da faca, e quebrando a cinza do cigarro na borda do pires.

Àquela hora aparecia sempre o cônego Dias; sentiam-no subir pesadamente, dizendo da escada: - Licença para dois!

Era ele e a cadela, a Trigueira.

- Ora Nosso Senhor vos dê muito boas-noites! dizia assomando à porta.

- Vai a gotinha de café, senhor cônego? perguntava logo a S. Joaneira.

Ele sentava-se, exalando um profundo uff! Vá lá a gotinha do café! E batendo no ombro do pároco, olhando para a S. Joaneira:

- Então, como vai cá o seu menino?

Riam; vinham as histórias do dia. O cônego costumava trazer no bolso o Diário Popular; Amélia interessava-se pelo romance, a S. Joaneira pelas correspondências amorosas nos anúncios.

- Ora vejam que pouca-vergonha!... dizia ela, deliciando-se.

Amaro então falava de Lisboa, de escândalos que lhe contara a tia: dos fidalgos que conhecera "em casa do Sr, conde de Ribamar". Amélia, enlevada, escutava-o com os cotovelos sobre a mesa, roendo vagarosamente a ponta do palito.

Depois do jantar iam visitar a entrevada. A lamparina esmorecia à cabeceira da cama: e a pobre velha, com uma medonha touca de rendas negras que tornava mais lívida a sua carinha engelhada como uma maçã reineta, fazendo debaixo da roupa uma saliência quase imperceptível, fixava em todos, com susto, os seus olhinhos côncavos e chorosos.

- É o senhor pároco, tia Gertrudes! gritava-lhe Amélia ao ouvido. Vem ver como está. A velha fazia um esforço, e com uma voz gemida:

- Ah! é o menino!

- É o menino, é, diziam rindo.

E a velha ficava a murmurar, espantada:

- É o menino, é o menino!

- Pobre de Cristo! dizia Amaro. Pobre de Cristo! Deus lhe dê uma boa morte!

E voltavam para a sala de jantar onde o cônego Dias, todo enterrado na velha poltrona de chita verde, com as mãos cruzadas sobre o ventre, dizia logo:

- Ora vá um bocadinho de música, pequena!

Amélia ia sentar-se ao piano.

- Ó filha, toca o Adeus! recomendava a S. Joaneira começando a sua meia. E Amélia, ferindo o teclado:

Ai! adeus! acabaram-se os dias

Que ditoso vivi a teu lado...

A sua voz arrastava-se com melancolia; e Amaro soprando o fumo do cigarro, sentia-se todo enleado num sentimentalismo agradável.

(continua...)

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