Por Eça de Queirós (1900)
- E do estômago, andas melhor? Continuam as ceias com o Titó?
- Oh! esse animal! - exclamou Gonçalo. - Há dias prometeu jantar na Torre, até a Rosa assouum cabrito no espeto, magnífico... Depois falhou: creio que teve uma orgia infame, com bichas de rabear. Ele vem esta semana a Oliveira... E é verdade! vocês sabiam da intimidade do Titó com o Sanches Lucena?
Historiou então, com exagero alegre, o encontro da Bica-Santa, o horror que lhe causara a bela D. Ana, a descoberta inesperada dessa familiaridade do Titó na Feitosa.
Barrolo recordou que uma tarde, antes do S. João, avistara o Titó, diante do portão da Feitosa, a passear pela trela um cãozinho branco de regaço...
- Mas o que eu não compreendo, menino, é esse teu "horror" pela D.Ana... Caramba! Mulhersoberba! Um quebrado de quadris, uns olhões, um peitoril...
- Cale essa boca impura, devasso! - gritou Gonçalo. - Pois aqui ao lado da sua mulher, que é aflor das Graças, ousa louvar semelhante peça de carne!
Gracinha rindo, sem ciúmes, compreendia "a admiração do José". Realmente, a Ana Lucena, que vistosa, que bela!...
- Sim - concedeu Gonçalo -, bela como uma bela égua... Mas aquela voz gorda, papuda... E aluneta, os modos... E "o cavalheiro pode fumar, o cavalheiro está enganado..." Oh! senhores, pavorosa!
Barrolo gingava, diante do sofá, com as mãos nos bolsos da rabona:
- Uvas verdes, Sr. D. Gonçalo, uvas verdes!
O Fidalgo dardejou sobre o cunhado uns olhos ferozes:
- Nem que ela se me oferecesse, de joelhos, em camisa, com os duzentos contos do Sanchesnuma salva de ouro!
Sorrindo, vermelha como uma peônia, com um "oh" escandalizado, Gracinha bateu no ombro de Gonçalo - que puxou por ela, galhofeiramente:
- Venha lá essa bochecha, e outra beijoca, para purificar! Com efeito, só pensar na D. Anaarrasta a gente às imagens brutais... Dizias então do estômago... Sim, filha, combalido. E há dias mais pesado, desde o tal cabrito no espeto e da companhia beberrona do Manuel Duarte. Tu tens cá água de Vidago?... Então, Barrolinho, sê angélico. Manda trazer já uma garrafinha bem fresca. E olha! pergunta se subiram um açafate e uma caixa de papelão que eu deixei na caleche? Que ponham no meu quarto. E não desembrulhes, que é surpresa... Escuta! Que me levem água bem quente. Preciso mudar toda a roupa... Estava uma poeirada por esse caminho!
E quando o Barrolo abalou, a rebolar e a assobiar, Gonçalo, esfregando as mãos:
- Pois vocês ambos estão esplêndidos! E na harmonia que convém. Tu positivamente maisforte, mais cheia. Até pensei que fosse sobrinho. E o Barrolo mais delgado, mais leve...
- Oh, agora o José passeia, monta a cavalo, já não adormece tanto depois de jantar...
- E a outra família? A tia Arminda, o rancho Mendonça? Bem?... Padre Soeiro, que é feito dessesanto?
- Teve um ataquezito de reumatismo, muito ligeiro. Agora bom, sempre no Paço do Bispo, naBiblioteca... Parece que se entretém a fazer um livro sobre os Bispos.
- Bem sei, a História da Sé de Oliveira... Pois eu também tenho trabalhado muito, Gracinha! Ando a escrever um Romance.
- Ah!
- Um Romance pequeno, uma Novela, para os Anais de Literatura e de História, uma Revista que fundou um rapaz meu amigo, o Castanheiro... É sobre um fato histórico da nossa gente... Sobre um avô nosso, muito antigo, Tructesindo.
- Tem graça, que fez ele?
- Horrores. Mas é pitoresco... E depois o Paço de Santa Irenéia, no século XII, em todo o seuesplendor! Enfim uma bela reconstrução do velho Portugal e sobretudo dos velhos Ramires. Hás de gostar... Não há amores, tudo guerras. Apenas, muito remotamente, uma das nossas antepassadas, uma D. Menda, que eu nem sei se realmente existiu. Tem seu chic, bem?... E tu compreendes, como eu desejo tentar a Política, preciso primeiramente aparecer, espalhar o meu nome...
Gracinha sorria docemente para o irmão, no costumado enlevo:
- E agora tens alguma idéia? A tia Arminda lá continua sempre com a teima que devias entrar naDiplomacia. Ainda há dias... "Ai, o Gonçalinho, assim galante, e com aquele nome, só numa grande embaixada!"
Gonçalo despegara lentamente do vasto canapé, reabotoando o jaquetão claro:
- Com efeito ando com uma idéia, há dias... Talvez me viesse dum romance inglês, muitointeressante, e que te recomendo, sobre as antigas Minas de Ofir, King Solomon's Mines... Ando com idéias de ir para a África.
- Oh Gonçalo, credo! Para a África?
O escudeiro entrara com duas garrafas de água de Vidago, ambas desarrolhadas, numa salva. Precipitadamente, para aproveitar o "piquezinho", Gonçalo encheu um copo enorme de cristal lavrado. Ah! que delícia de água! - E como o Barrolo voltava, anunciando que cumprira as ordens de S. Exa.:
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A ilustre casa de Ramires. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7529 . Acesso em: 28 jun. 2026.