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#Romances#Literatura Brasileira

Ressurreição

Por Machado de Assis (1872)

Como benefício celeste, entraram-lhe a correr as lágrimas, até então retidas pela presença de estranhos. Ninguém lhas viu, que a noite era fechada e o sítio ermo; mas a aura estiva, que começava a bafejar a folhagem ressequida do sol, acaso lhe ouviu os soluços acaso lhos levou ao seio de Deus. Veio então, de influxo divino uma doce consolação às suas mágoas solitárias.

Não ousando voltar para dentro, determinou esperar ali o irmão da viúva, que fora acompanhar um amigo da vizinhança. Pedir-lhe-ia então para a levar no dia seguinte à casa de seus pais. Não hesitava entre a ternura deles e o ódio de Lívia. Assim refletia ela, quando sentiu passos no jardim. Voltou-se era a viúva.

— Ah! exclamou Raquel levantando-se, trêmula e assustada; pelo amor de Deus! eu não lhe fiz mal nenhum!

Lívia acercou-se de Raquel; travou-lhe brandamente das mãos apesar do esforço com que ela buscava esquivar-se, e disse:

— Que mal me farias tu, criança? A culpada sou eu sou eu que te peço perdão, porque fui cruel e injusta, e cedi ao egoísmo do meu coração . . . Perdoa-me !

— Perdôo-lhe tudo ! respondeu Raquel.

Caíram nos braços uma da outra. Jamais duas rivais se estreitaram mais sinceramente amigas do que essas duas. Largos minutos correram sem que nenhuma delas falasse; refletiam talvez, talvez não pudessem vencer o acanhamento da sua posição. Lívia foi a primeira que rompeu o silêncio:

— Como é que vieste a amá-lo? perguntou ela.

— Não sei, respondeu ingenuamente Raquel nasceu-me o amor ,em que eu reparasse nele. Nem sei se nasceria; creio que foi apenas transformação, porque eu de pequena me acostumei a admirá-lo. Foi talvez a admiração que se fez amor quando eu cresci.

— Nunca lho deste a entender?

— Oh! nunca.

— E ele?

— Percebi que me queria. Brincava comigo, como quando eu era criança: nada mais.

— E resignavas-te à sorte?

— Que poderia fazer senão isso? Alguma esperança tive nestes últimos tempos; em que a fundava, não sei; talvez na circunstância de nos vermos mais a miúdo. Enganava-me; penso que não nasci para ser feliz.

— Quem sabe? disse a viúva. Nem sempre o nosso coração acerta; pode ser que mais tarde te apareça outro a quem ames do mesmo modo . . .

— Do mesmo modo? interrompeu Raquel com surpresa.

Lívia pegou-lhe nas mãos.

— Não te parece que assim seja? perguntou.

— Oh! não. Chame-me criança, se lhe parece; a senhora há de saber mais do que eu, naturalmente; mas o meu coração me diz que eu não poderia amar a ninguém mais.

— A ninguém mais! murmurou a viúva amargamente. Concentraste então toda a seiva do teu coração, neste amor silencioso e quimérico? Não digas isso; amarás mais tarde a outro que te amará também, e serás feliz, creio eu. Murchará esta primeira flor do teu coração, mas, há seiva nele para dar vida a outra flor, tão bela talvez, e com certeza mais afortunada. O contrário, Raquel, seria injustiça de Deus. O amor é a lei da vida, a razão única da existência. Encher de uma só vez a alma, sem que ninguém lhe beba o licor divino, e regressar ao Céu sem ter conhecido a felicidade na Terra? nem o quererá Deus, nem o temerás tu. Falas pela boca da tua amargura de hoje; espera a ação do tempo, que é bom amigo.

Raquel meditava. Era a primeira vez que ela ouvia falar daquele modo em cousas do coração. A linguagem da viúva servia-lhe a um tempo de consolação e de luz. Lívia falou ainda muito tempo, sem preconceito nem reserva; não falou como rival, senão como amiga e mãe. Não reparava sequer que lhe dava armas contra si. Falaria talvez de outro modo se se considerasse feliz; mas, como a situação de ambas era igual, ela entornou na alma de Raquel todo o sentimento de que a sua alma estava cheia, e foi eloqüente, porque foi sincera.

— Sim, disse Raquel, quando ela acabou; compreendo tudo isso que me está dizendo. A senhora sabe amar. . E ainda o ama, não?

Lívia calou-se.

— Que lhe custa dizer? insistiu a donzela.

— Custa-me lágrimas. Eu não te poderia explicar nunca este sentimento que me nasceu como erva ruim para me envenenar a existência, e que eu tanto tempo supus que seria a coroa de minha vida ... Não te quero enfadar, que são tristezas para isso.

— Mas então ele? aventurou Raquel.

— Não me perguntes mais; afirmo-te só que o amei, que talvez tornasse a amá-lo...

— E que ainda o ama, concluiu a rival.

Lívia esteve calada alguns, instantes, procurando ler-lhe no rosto, apesar das sombras da noite, as impressões que lhe iriam na alma.

— Não! já o não amo! disse a viúva com esforço.

Seguiu-se um longo silêncio.

— E se o amasse, disse enfim Lívia, que farias tu?

— Nada! respondeu resolutamente Raquel.

— Deveras, nada?

— Pediria a Deus que a fizesse feliz, e estou certa que Deus me ouviria.

— Era capaz disso? perguntou a viúva segurando-lhe nos pulsos e fitando lhe os olhos em cheio.

— Era, respondeu ingenuamente a donzela.

(continua...)

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