Por Machado de Assis (1891)
Podemos crer que a velha nem Rubião entenderam o dito,- a velha, porque começava a cochilar, - Rubião porque afagava um cãozinho que tinham dado a Sofia, pequeno, delgado, leve, buliçoso olhos negros, com um guizo ao pescoço. Mas, insistindo a dona da casa, ele respondeu que sim, sem saber o que era. Maria Benedita deu um muxoxo. Em verdade, não era uma beleza; não lhe pedissem olhos que fascinam, nem dessas bocas que segredam alguma cousa, ainda caladas; era natural, sem acanho de roceira; e tinha um donaire particular, que corrigia as incoerências do vestido.
Nascera na roça e gostava da roça. A roça era perto, Iguaçu. De longe em longe vinha à cidade, passar alguns dias; mas, ao cabo dos dous primeiros, já estava ansiosa por tornar a casa. A educação foi sumárialer, escrever, doutrina e algumas obras de agulha. Nos últimos tempos (ia em dezenove anos), Sofia apertou com ela para aprender piano; a tia consentiu; Maria Benedita veio para a casa da prima, e ali esteve uns dezoito dias. Não pôde mais; doeram-lhe as saudades da mãe e voltou para a roça, deixando consternado o professor, que anunciou nela, desde os primeiros dias, um grande talento musical.
-Oh! sem dúvida, um grande talento!
Maria Benedita riu-se quando a prima lhe contou isto, e nunca mais pôde ver a sério o homem. Às vezes, no meio de uma lição, deitava a rirSofia contraía as sobrancelhas, a modo de ralho, e o pobre homem perguntava o que era, e de si mesmo explicava que havia de ser alguma lembrança de moça, e continuava a lição. Nem piano nem francês,-outra lacuna, que Sofia mal podia desculpar. D. Maria Augusta não compreendia a consternação da sobrinha. Para que francês! A sobrinha dizia-lhe que era indispensável para conversar, para ir às lojas, para ler um romance. . .
-Sempre fui feliz sem francês, respondia a velha; e os meia-línguas da roça são a mesma cousa; não vivem pior que os crioulos.
Um dia acrescentou
-Nem por isso lhe hão de faltar noivos. Pode casar, já lhe disse que pode casar quando quiser, que eu também casei; e at deixar-me na roça, sozinha, morrer como uma besta velha...
-Mamãe!
-Não tenha pena, é só aparecer o noivo. Em aparecendo vá com ele, e deixe-me ficar. Olha Maria José o que fez comigo? Vive lá pelo Ceará.
-Mas se o marido é juiz de direito, ponderava Sofia.
-Torto que seja! Para mim é a mesma cousa. Cá fica o frangalho da velha. Casa, Maria Benedita, casa depressa; eu morrerei com Deus. Não terei filhos, mas terei Nossa Senhora, que é mãe de todos. Casa, anda, casa!
Toda essa rabugem era cálculo; tinha em mira arredar a filha do matrimônio, excitando-lhe o terror e a piedade. Quando menos, retardar-lho. Não creio que revelasse esse pecado ao professor, nem que chegasse a entendê-loera obra de um egoísmo idoso e melindroso. D. Maria Augusta fora longamente querida; a. mãe era douda por ela, o marido amou-a até o último dia com a mesma intensidade. Mortos ambos, todas as suas saudades filiais e matrimoniais foram postas na cabeça das duas filhas.
Uma fugira-lhe, casando. Ameaçada da solidão, se a outra casasse também, D. Maria Augusta fazia tudo o que podia por evitar o desastre.
CAPÍTULO LXV
CURTA FOI A VISITA de Rubião. Às nove horas levantou-se ele discretamente, esperando qualquer palavra de Sofia, um pedido para que ficasse ainda algum tempo, que esperasse o marido que já vinha um espanto que fosseJá! mas nem isso. Sofia estendeu-lhe a mão, em que ele mal pôde tocar. Contudo, a moça, durante a visita, mostrou-se tão natural, tão sem azedume... Não teve seguramente os olhos longos e loquazes, como dantes; parecia até que não houvera nada nem bem nem mal, nem morangos, nem lua. Rubião tremia, não achava palavras, ela achava todas as que queria, e se era preciso olhar para ele, fazia-o direitamente, tranqüilamente.
-Lembranças ao nosso Palha, murmurou ele de chapéu e bengala na mão. -Obrigada! Foi fazer uma visita; parece que ouço passos; há de ser ele.
Não era ele, era Carlos Maria. Rubião ficou espantado de o ver ali, mas achou logo que a presença da fazendeira e da filha explicaria tudo; podia ser até que fossem aparentados.
-Ia saindo, quando o senhor entrou, disse-lhe Rubião depois de o ver sentado ao pé de D. Maria Augusta.
-Ah! respondeu o outro, olhando para o retrato de Sofia.
Sofia foi até à porta despedir-se do Rubião; disse-lhe que o marido ficaria com pena de não estar em casa; mas que a visita era imperiosa. Negócios... Iria pedir-lhe desculpa.
-Que desculpa? acudiu Rubião.
Parece que quis dizer ainda alguma cousa; mas o aperto de mão de Sofia e a reverência que esta lhe fez deram-lhe o sinal de despedida. Rubião inclinou-se, atravessou o jardim, ouvindo a voz de Carlos Maria, na sala
-Vou denunciar seu marido, minha senhora; é homem de muito mau gosto. Rubião parou.
-Por quê? disse Sofia.
-Tem este seu retrato na sala, continuou Carlos Maria; a senhora é muito mais bela, infinitamente mais bela que a pintura. Comparem, minhas senhoras.
CAPÍTULO LXVI
(continua...)
ASSIS, Machado de. Quincas Borba. Rio de Janeiro: Garnier, 1891.