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#Crônicas#Literatura Brasileira

Vida Urbana

Por Lima Barreto (1921)

Ele trata com fervoroso carinho a nossa heróica metrópole, tanto assim que lhe impôs novos tributos; ele a estima tanto que quer provocar a sua decadência comercial e industrial; ele a ama tanto que só trata de despovoá-la com as suas posturas draconianas; ele adora tanto o povo da cidade que só se preocupa em encarecer-lhe a vida...

Todos vós que amastes esta cidade, Sá, Mem e Estácio, Vaía Monteiro – o Onça, Bobadela , Passos e outros – exultai porque afinal ela tem o que precisa: um Conselho Municipal que quer o seu total aniquilamento.

Para isso ser obtido, foi preciso que fossem procurar os seus vereadores em todo o Brasil, menos no Rio de Janeiro. A.B.C., Rio, 2-2-1918.

CADA RAÇA TEM UM CALINO

O doutor Amaro Cavalcanti que atualmente exerce as funções de prefeito desta cidade, foi, no governo do senhor Prudente de Morais, ministro da Justiça. Como quase todos os ministros do Interior, ele mereceu a honra de ser biografado pelo senhor Pelino Guedes.141 Por sua vez, a obra deste mereceu comentários de um sábio alemão e de que publicamos abaixo uma síntese.

*****

Convinha, disse ele, que precedendo estes meus comentários justificasse como eu, modesto privat docent de uma universidade alemã, atrevi-me a comentar obras de autor desse longínquo Brasil. Desde moço, pois tenho meus quarenta e cinco anos de idade, dediquei-me ao estudo do grotesco e do ridículo sobretudo, e essa face das coisas humanas levou-me a pesquisas dos seus tipos mais notáveis os quais com consciência observei e analisei.

Num ensaio que publiquei – Do Ridículo, aventei a teoria, que para cada povo e raça havia um Calino especial.

Assim foi que, após ter determinado os tipos de tolice para cada povo europeu, passei a determiná-los para os povos exóticos da América e Ásia.

Os motivos determinantes desse meu atual trabalho não são outros que os que possa ter um interessado nesses abstrusos estudos.

Aproveito o ensejo para acusar o recebimento de outro “trabalhinho” do doutor Pelino – a biografia do doutor Sabino Barroso , ex-ministro, e essa obra é sobremodo notável, pois encerra nesta modesta frase o maximum da inteligência do seu autor: – “A biografia é a história da vida de um homem”.

***** Comentemos a biografia do senhor Amaro.

A Biografia do senhor Amaro é um grosso volume de 56 páginas, destas, oito em branco ou simplesmente com o título da obra; duas ocupam-se com a dedicatória ao próprio biografado, seis são destinadas a dedicatória (quanta dedicatória!), à escola – e que escola! – à Escola Nacional do Caráter.... pro pudor!

Das 40 que ficam, temos que subtrair oito destinadas às notas finais (cópia de relatórios, de decretos, etc.); ficaram pois 32 que formam a biografia.

Estas 32 páginas têm 986 linhas, das quais 531 são ou parecem ser da lavra do autor, e as outras 495 são constituídas por citações do Smiles e de outros autores, apud Smiles.

Desse modo o que nos resta são algumas frases, que recomendam muito o talento do autor.

Vejamos:

“As dívidas oriundas da gratidão devem ser pagas à boca do cofre e eu não disponho de outros recursos para satisfazer a que contraí, senão pelo modo que o fiz.”

Singular teoria! De tal modo que se o senhor Pelino fizer justiça (ele diz que foi isso que o senhor Amaro lhe fez) a um negociante de arreios, esse pobre homem não dispondo de outros recursos para pagar aquela “dívida oriunda da gratidão” deverá pagar com arreios? Com freios? Não; porque sabemos que tais coisas de nada servem ao senhor Pelino, mas como o negociante não dispõe de outros recursos para pagar tal dívida... naturalmente abrirá falência.

Vejam só o que são teorias!

“A idéia de Deus não é incompatível com o amor da pátria.”

O autor desta sentença, além de só “pensar o pensado”, tem a singular mania de descobrir verdades profundas como aquela acima e esta:

“Há mais de um exemplo do soçobro dos direitos e prerrogativas do cidadão na vida dos povos.”

“É só do povo, diz ele, que depende a sorte dos seus governos.” Será verdade do doutor Pelino?

Adiante:

“Imaginai uma paisagem que, pouco a pouco, vai sendo iluminada pelo Sol. (Bonito) – Estende-se além a vastidão do deserto, (naturalmente atrás da paisagem... Como enxerga o cíclope do Largo do Rossio!) em cujo seio flutua a sombra de um vulto solitário! – É a sombra do meu herói!”...

Naturalmente este trecho poético mede forças com aquele verso “a Polinésia é um coreto onde o mar toca piston...” Ainda mais:

“Tendo-o diante dos olhos, eu procurarei em largos traços, porém distintos, desenhar-lhe a imagem, sem omitir uma só linha, nem uma sombra; de modo a poder com fidelidade, fotografar-lhe a personalidade não de perfil, mas de fronte voltada para o Céu.”

(continua...)

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