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#Romances#Literatura Brasileira

A Conquista

Por Coelho Neto (1890)

— Levanta-te! São horas! Olha que perdes o trem! Procurou pela sala, que estava numa desordem lamentável. No canapé dormia o Neiva com a cabeça sobre dois grossos relatórios. Crebillon roncava espichado na cadeira de balanço e o Toledo, com a cabeça repousada nos braços, sobre a mesa, parecia de pedra. E o Martins? Havia desaparecido. Teria ele passado a noite em claro para não perder o trem, escapando-se sub-repticiamente à hora? O Duarte alarmou a casa e todos despertaram amarrotados, com escancarados bocejos.

Sendo a descida ao Cranium mais arriscada para as damas do que foi, para os argonautas, o desembarque em Colchos, considerados, com o devido respeito, o pulso masculino da viúva e a fúria que nela tomou a feição ameaçadora de loucura, constituiu-se um corpo de proteção que, em caso de necessidade, reagisse energicamente defendendo as costelas delicadas de Amélia e os delgados braços da "sabina". Por decência, porém, não querendo que se reproduzisse a cena indecorosa do areópago, sem os nobres intuitos que levaram Hipérides a desnudar Frinéia, a falange, que tinha no Lins o seu Tirtéu, ficou à distância enquanto o fragilíssimo sexo desbesuntava as carnes pecadoras.

Depois de Eva foi içado o Lins porque, com a perna mais rija do que o braço da figura principal de A Barricada, não podia galgar as bordas da cuba. E seguidamente, um a um, com trabalho, aspergiram-se todos com as gotas avaras do reservatório. Refrescados, esperavam pacientemente que Leonor, como de costume, subisse para estender a toalha, mas as horas iam passando lentas sem que a negrinha aparecesse. O Lins foi examinar a chaminé — fumegava, mas era tão tênue o fio de fumo que o poeta, em grande desânimo, atirando-se a uma cadeira, balbuciou:

— Não é possível que tenhamos bife. Pela fumaça calculo o almoço que lá estão cozinhando em dois pratos minguados. E Ruy Vaz suspirou:

— Dona Ana cumpre a palavra: estamos sitiados pela fome. Que havemos de fazer?

— A guarda rende-se, mas não morre à míngua! — exclamou o Neiva.

Vamos depor as armas. Quem há de ser o parlamentar?

— Eu vou! — disse Anselmo.

— Não! — bradaram todos, aclamando Ruy Vaz, por ser o mais prudente e o mais conceituado. Ruy Vaz resignou-se e desceu. Em cima os rapazes ficaram catando migalhas da ceia e, quando o romancista apareceu, avançaram todos perguntando com ansiedade:

— Então?!

— Nada, meus amigos! Inflexível como a espada de Rolando.

— Mulher sem entranhas! — rugiu o Neiva. Nem parece mãe! E agora? Que se há de fazer?

— Vamos a um hotel, propôs Crebillon. — Quotizemo-nos e a caminho para a primeira baiúca que tenha um fogão. O Neiva opôs-se, espichando-se no canapé: "Não saía, estava sem forças. Mandassem vir o almoço, concorria com alguma coisa. Sair, nunca! Preferia acabar como Ugolino roendo o crânio do esqueleto." Correu a espórtula e Crebillon teve de entrar com a maior parte, sendo ainda, por um capricho da sorte, obrigado a ir ao primeiro hotel da vizinhança encomendar o repasto.

Amélia e a "sabina" encarregaram-se de arranjar a mesa e, à falta de toalha, estenderam um lençol de linho que o Toledo desencafuou das profundezas da canastra.

Quando o almoço apareceu, numa lata, à cabeça de um negro, romperam as exclamações e Crebillon eleito, por unanimidade, presidente da mesa, ocupou a cabeceira. Foi durante o almoço que ele, indignado com o procedimento da viúva, mulher de maus bofes, propôs organizar uma "república" modelo, em prédio de aparência, em bairro nobre, com todo o conforto e uma adega. Adiantaria o dinheiro para a instalação e tomaria a seu cargo a administração. Como o negro portador do almoço tinha uma fisionomia simpática e sisuda, Ruy Vaz lembrou baixinho ao futuro presidente da república ideal:

— Quem sabe se não temos neste africano grave um excelente cozinheiro...? Crebillon lançou um olhar perscrutador ao negro, que, de pé, os braços caídos ao longo do corpo, acompanhava o almoço prestando-se gentilmente a ir rapar os pratos no mirante para que servissem a outras iguarias:

— Sabes cozinhar, rapaz? O negro, timidamente, sussurrou: Que arranjava, menos mal, um bife e ovos e fazia canjas. A sua especialidade, porém, era o vatapá.

— Muito bem. Queres ser o nosso cozinheiro? O africano sorriu, torcendo as franjas do pano que lhe servia de rodilha. Quanto queres ganhar? Crebillon falava num tom cheio de tanta soberania que o negro não se achou com coragem de impor preço: deu de ombros, confiado na generosidade do seu futuro patrão.

— Bem, ficas desde já ao nosso serviço. Como te chamas?

— João de Deus.

— João de Deus! O nome é místico, disse Anselmo; talvez nos ponha em boas relações com a Providência. E, de pé, com solenidade:

— João de Deus, toma: bebe à tua fortuna! E passou-lhe um copo de vinho que o negro engoliu avidamente. Terminado o almoço os ossos foram todos atirados à área, o que provocou um rugido de Dona Ana. À tarde saíram, ficando de guarda à casa o fidelíssimo africano.

(continua...)

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