Por Raul Pompéia (1880)
— E ele não recebeu o batismo! disse o padre Jorge lembrando-se de que o filhinho de Branca não fora ainda batizado.
Antes de correr à alcova para administrar ao menino o necessário sacramento, o sacerdote conheceu que se rachavam as tábuas da porta que o paraense opusera aos bandidos... Através de fendas, avistou o clarão de alguma vela que os malfeitores haviam achado e acendido. A porta ia desprender-se das dobradiças!
— Meu amigo, disse então a Eustáquio, encomenda a Deus a tua alma e... — Ah! ah! ah! ah!
Uma gargalhada horripilante de louco, que João Caetano não poderia repetir no palco, retroou na sala.
Através da escuridão que aí havia, o padre Jorge tentou distinguir quem a soltara. Acreditou que já estavam na sala os bandidos. Não era isto.
— Meu padre, continuava uma voz em que o padre Jorge reconheceu com indizível dor a do seu amigo, tu queres... que eu encomende?... E a tua?... A Deus? Ah! Ah! Ah! A Deus?... A minha... já está encomendada!... E Branca?!...
O acento selvagem destes vocábulos desconexos fez o sacerdote tremer.
— Meu Deus! Será castigo? exclamou ele, persignando-se com terror...
A porta do corredor desprendeu-se. O fim chegava.
A claridade de uma vela alumiou a sala. A essa luz, o padre Jorge conseguiu ver o seu malfadado amigo encolhido perto do sofá, como um animal espavorido; Rosalina desmaiada no chão; o paraense no meio de um bando de homens, combatendo como um leão furioso, e ainda a cara do cadáver, contemplando tudo com o escárnio que a morte estampara nela.
Imediatamente porém apagou-se a luz, e o padre pôde somente perceber depois que a sala era o teatro de um combate horrendo, de uma luta cega. Quis, rompendo as trevas, chegar ao berço do menino, cujo choro o rumor da luta abafara, mas não tinha avançado três passos, quando uma bala desviada do meio dos combatentes o fulminou...
Alguns minutos mais tarde, apenas dons homens andavam pela sala.
A vela que puderam reacender deixava ver que eram um negro e um dos bandidos espanhóis. O negro era o miserável José, que o leitor conhece, e o outro era o chefe da quadrilha dos inimigos de Eustáquio. Estes dous velhacos se tinham refugiado na cozinha durante o combate e apareciam depois de tudo acabado. Ao redor deles estavam estendidos numerosos cadáveres e Rosalina ainda desmaiada.
Entre os cadáveres via-se o do mísero inocente, filho de Branca, o de Eustáquio, que fora barbaramente morto sem tentar defender-se e o do paraense que caíra dilacerado por muitos golpes; mas depois de haver tirado a vida a cinco malvados.
Quando Rosalina voltou a si, achou-se ao ombro de um indivíduo, que a carregava brutalmente para as florestas. Fez um esforço enérgico para escapar das mãos que a prendiam. Foi debalde. Olhou em torno de si, procurando com os olhos o anjo de salvação que tantas vezes a socorrera.
Avistou então a alguma distância um outro indivíduo que a noute não deixava claramente perceber e diante dele uma sombra, que corria a agredi-lo.
Adivinhou logo quem era a sombra.
Quis gritar. A mão grosseira do seu carregador tapou-lhe a boca e ela sentiu que ele deitava a correr para a mata. Fez uma contorção desesperada, mas, exausta, deixou pender depois a cabeça para as costas do infame que a arrebatava...
A sombra que Rosalina avistara era Otávio Dugarbon; porém o bravo menino não chegava a tempo...
Passara grande parte do dia escondido nas ribas do Iapurá, a pouca distância da habitação de Eustáquio.
A demora dos malfeitores fê-lo crer que eles não apareceriam naquele dia. Deixando o seu posto, ele seguiu para S. João do Príncipe, onde demorou-se até cair a noute.
Voltou então para o lugar que ocupara de dia, indo pelo rio, embarcado em uma pequena canoa, para não ser apercebido.
Estava a meio caminho, quando alguns tiros longínquos chegaram-lhe aos ouvidos. Sem demora encostou à margem a sua embarcação, saltou em terra e, tirando da cintura uma faca, única arma que nessa ocasião levava, lançou-se de carreira para a habitação de Eustáquio. Quando lá chegou, apenas viu dous indivíduos, que, sem pressa, saíam de dentro do cercado daquela habitação. O fardo era Rosalina, desmaiada. Um outro homem corria na frente.
O bandido ouviu os passos... olhou para trás, e, com pavor, viu aquela sombrinha que o ia acometer. Como os gladiadores da antiga Roma, saltou para o lado, fez fincar-pé e ergueu acima da cabeça um punhal, que tirara do seio, para baixá-lo sobre o seu agressor.
Otávio, com felina agilidade, furta-se ao golpe da arma, que desce rasgando somente o ar Agacha-se. Ergue-se, cosendo-se ao corpo do malfeitor e, sem que este o espere, mergulha-lhe no peito toda a lâmina da sua faca.
O bandido não deu um só gemido... Caiu sobre a menina, que foi atirada ao chão pelo peso do corpo do seu adversário.
(continua...)
POMPÉIA, Raul. Uma tragédia no Amazonas. Rio de Janeiro: Typ. Cosmopolita, 1880. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17442 . Acesso em: 6 abr. 2026.