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#Romances#Literatura Brasileira

Luzia-Homem

Por Domingos Olímpio (1903)

Uma coisa é ver outra é dizer, como ele se levantou, já tendo os pés na cova.

— Bem, fecha a porta e vamos dormir que é quase de madrugada.

— É mesmo... E eu que estou moída... Parece que levei uma surra...

Fechada a porta com precaução para não despertar a doente, Teresinha despiu-se rapidamente; coçou o vinco do cordão das saias na cintura; enrolou, espreguiçando-se, em gestos felinos, os cabelos; persignou-se e derreou-se na esteira.

Lentas passaram as horas para Luzia, sentada na rede, estremecendo ao menor ruído do vento nas folhas da latada, e aguardando, ansiosa, o quebrar das barras, com os primeiros fulgores da aurora. Seu olhar compassivo flutuava entre a doente, a moça adormecida e a candeia a crepitar melancólica, no caritó enfumaçado.

Renascia-lhe, no coração, a esperança de melhoras da mãe adorada; e, ao mesmo tempo, suspeitava que aquele prolongado sono fosse efeito de dormideiras, que lhe houvesse dado o médico. Meditava na tranquilidade angélica de Teresinha, seminua, apenas coberta por uma leve camisa de esguião, preciosa relíquia de antiga abastança, e acreditava que lhe houvera Deus perdoado as culpas, porque era boa na essência, e as purgara neste mundo. Entretanto, ela, que nunca havia feito mal a ninguém, que não abandonara os pais, nem traíra, nem ocasionara a morte de homens que a amassem, ela que tudo sacrificara, aspirações de moça e prazeres, que resistira aos instintos de mulher, para manter, em meio do paul, a sua pureza imaculada, ali estava, acabrunhada de pensamentos tristes, cruciantes como remorsos, com a alma inquieta e o coração latejando de susto, à previsão de perigos tremendos.

Que havia feito para sofrer tanto? Que funesta influência exercia sobre as pessoas que lhe queriam? Fora, talvez, ela que trouxera desgraça a Alexandre. Bastou que ele lhe desse os cravos rubros, crestados ao calor de seu seio, para lhe imputarem um crime infamante e ser preso como um réprobo.

Teria má sina, mau olhado?... Seria dessas criaturas fatídicas, cujo contacto desorganiza e destrói? Conhecera uma formosa moça, em cujas mãos, ovos batidos para mal-assadas, não cresciam e desandavam em aguadilha choca; talhava o leite; definhava e morria a planta de que ela colhesse uma flor, ou matava com o olhar ninhadas de pintos espertos e lindos, como macias borlas de veludo? Havia, então, criaturas, predestinadas para o bem e para o mal?... Nasciam umas para o sofrimento, outras para o gozo, da mesma forma que as havia destinadas ao céu ou ao inferno?... E Deus, Deus, pai de misericórdia, permitia isso, essa iniquidade revoltante?!...

E o seu espírito, flutuando à mercê de noções incompletas do bem e do mal, das causas e efeitos reguladores da vida, se rebelava, em assomos impotentes, contra as injustiças do destino cego e louco.

CAPÍTULO XIV

Uma surpresa auspiciosa assinalara o amanhecer: a velha enferma erguerase, sozinha, da rede; e, escorada a um pequeno cacete de cocão, envernizado pelo uso, apareceu à porta do quarto.

— Deus seja louvado – exclamou Luzia, em gárrula expansão alvoroçada.

— Seja bem-vinda, tia Zefinha!... – disse Teresinha, com largos ademanes maneirosos - Abanque-se aqui, no alpendre, que está mais fresco. Ora, até que enfim... Não há mal que sempre dure...

— É a minha promessa a São Francisco das Chagas, de Canindê – observou a enferma – que me restituiu a saúde... Eu tinha uma fé...

E o seu rosto de pergaminho, retalhado de rugas e dobras, se dilatava em meigo sorriso.

— Olhem – continuou, caqueando no seio do cabeção, bordado de cacundês, onde imergiam confundidos, entrelaçados, os rosários, bentinhos e medidas de santos, que lhe pendiam do pescoço; e mostrando uma caçoila com a imagem do milagroso padroeiro em péssima gravura, cujos milagres admiráveis atraíam os fiéis, vindos de longínquas paragens, em contínua romaria à sua bela igreja cheia de exvoto, pernas, braços, mãos e cabeças, modelados em cera, ou toscamente esculpidos em madeira, viscosamente coloridos e marcados de chagas hediondas, muito sarapintados de sangue e arroxeados de equimoses e alguns verdadeiros aleijões, monstruosidades repugnantes; muletas e ligaduras de pano velho, duras de sânie embebida; todas essas relíquias de piedade, penduradas, em simetria, às paredes da nave, rememorando curas, obtidas pela intercessão do santo, a quem Jesus Cristo concedera a graça de marcar com o estigma das cinco chagas.

(continua...)

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