Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF


Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

Helena

Por Machado de Assis (1876)

A carta era longa, escrita a golfadas, sem nexo nem ordem; continha muitas queixas e imprecações, ternura expansiva de mistura com um desespero profundo; falava daqueles que, tendo nascido sob a influência de má estrela, só têm felicidades intermitentes e mutáveis; dizia que para ela a própria felicidade era um gérmen de morte e dissolução, — idéia que repetia três vezes, como se tal observação fosse o transunto de suas experiências certas. A carta falava também de um homem, cujo egoísmo de pai não conhecia limites, e que a todo o transe queria que a filha desposasse uma grande riqueza e uma grande posição, “homem, dizia ela, que me viu a princípio com olhos avessos, pela diminuição que eu trazia à herança”. No fim dizia que havia naquelas linhas muito de obscuro e incompleto, que oportunamente contaria tudo, mas que desde já podia dar a triste notícia de que lhe era forçoso abster-se de sair.

Helena releu o escrito e meditou longo tempo sobre ele; acrescentou ainda algumas linhas; depois, rasgou o papel em dois pedaços, chegou-os à vela, e os destruiu. Como arrependida, voltou a escrever outra carta, mas não chegou a acabar seis linhas; rasgou-a como fizera à primeira, e só então recorreu ao remédio melhor de uma alma ulcerada e pia: rezou. A prece é a escada misteriosa de Jacó: por ela sobem os pensamentos ao céu; por ela descem as divinas consolações.

Entretanto, a noite começava a inclinar a urna das horas às mãos da madrugada. O sono fugira dos olhos de Helena; mas era forçoso repousar. Assim mesmo vestida, atirou-se sobre o leito. Não dormiu, não se pode dizer que dormisse; ficou ali num estado que não era vigília nem sono, até que a manhã rompeu inteiramente. Abrindo os olhos, pareceu acordar de um sonho; a imaginação recompôs as fases todas do acontecimento da véspera. Depois suspirou e ficou longo tempo a olhar para o chão, com a fixidez trágica e solene da morte.

“Era justo!” murmurava de quando em quando.

Levantou-se enfim; levantou-se abatida e cansada. Viu-se ao espelho; a descor da face e a linha roxa que lhe circulava as dificilmente podiam deixar de impressionar a família. Helena disfarçou como pôde esses vestígios da tempestade; explicou-os do modo mais verossímil: o cansaço da véspera e a insônia de toda uma noite. A explicação não achou obstáculo no ânimo da tia e do irmão. Somente o Padre Melchior, presente a ela, fitou na moça um olhar dubitativo, que a obrigou a baixar os cílios.

Se Helena padecia, o lugar de Estácio não era ao pé dela? Assim pensou o sobrinho de D. Úrsula, que em todo esse dia resolveu não sair de casa. Cercou-a de cuidados, buscou distraí-la, pediu-lhe que fosse repousar um instante. Para justificar a explicação que dera, Helena obedeceu às instruções do irmão. Este foi encerrar-se no gabinete, onde se ocupou em examinar e colecionar alguns papéis. Era o dia marcado para solicitar de Eugênia o consentimento matrimonial, e ele não cogitava em ir ao Rio Comprido. Na irmã, sim; na irmã pensava ele, ora relendo as páginas de sua predileção, ora mandando saber se dormia sosse- gada, ora contemplando o desenho com que ela o presenteara na véspera. Sentia-se tão feliz naquela aurora do ano!

Pouco antes do jantar, ouviu no corredor um rumor de saias, e não tardou que a irmã aparecesse à porta. Vinha como fora; mas a Estácio pareceu que efetivamente o descanso e o sono lhe haviam restaurado as forças. A razão era o sorriso estudado que lhe avivava o rosto. Helena parou e Estácio foi ter com ela, travou-lhe da mão, fê-la entrar.

Estás melhor? perguntou.

Estou boa.

Não dizia eu que era melhor desistir da idéia da reunião? Essas festas prolongam- se, e fatigam, sobretudo as pessoas franzinas...

Helena ergueu os ombros.

Anda sentar-te um pouco.

Primeiro há de responder-me a uma coisa.

Que é?

Que dia é hoje? perguntou ela.

Ano-Bom.

Lembra-se do que me prometeu?

Perfeitamente. Vês estes papéis? disse ele mostrando sobre a secretária uma porção de papéis classificados e postos por ordem. Ocupei-me até agora em liquidar o passado; faltam-se umas últimas contas, que o procurador há de trazer amanhã. Depois, irei...

Helena abanou a cabeça com ar de desaprovação.

Não, disse ela; não há de ir depois, há de ir hoje mesmo. Que têm as contas com a autorização que deve pedir a Eugênia? Vá logo de noite. Sou supersticiosa; creio que o pedido feito no dia de hoje é de excelente agouro. Dará um ano feliz.

Minha intenção era ir dentro de quatro ou cinco dias, respondeu Estácio, depois de um silêncio; mas não tenho dúvida em fazê-lo. Uma vez preenchida a formalidade...

Pedi-la-á imediatamente ao pai.

Não!

Por quê?

Porque precisarei meditar ainda vinte e quatro horas, pelo menos. Vinte e quatro horas não é muito para quem tem de amarrar-se eternamente. Quero sondar meu próprio espírito, e...

Mas tudo isso é uma extravagância! interrompeu Helena sentando-se na borda da rede em que Estácio costumava ler. Pretenderá você recuar depois de lhe falar, a ela?

Oh! não! Mas, uma vez que caminho para solução tão grave, não há inconveniente em ir pé ante pé. Admiras-te? perguntou ele, vendo que a irmã fazia um gesto de impaciência.

Zango-me.

Mas...

Você é insuportável. Falta ao que prometeu.

Já disse que hei de cumprir.

Não recuará?

Não.

Irá pedi-la hoje mesmo?

A ela.

A ela e ao pai.

Ao pai escreverei uma carta.

Pois seja uma carta! Contanto que acabe com isso. O casamento será...

Quando convier ao Dr. Camargo.

Antes do fim do mês.

Tão cedo!

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...2829303132...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →