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Memórias da Rua do Ouvidor

Por Joaquim Manuel de Macedo (1878)

Em vez de verdadeiros balcões tinham os sobrados engradamentos de madeira de maior ou menor altura, e com gelosias abrindo para a rua; nos mais severos, porém, ou de mais pureza de costumes, as grades de madeira eram completas, estendendo-se além da frente pelos dois extremos laterais e pela parte superior, onde atingiam a altura dos próprios sobrados, que assim tomavam feição de cadeias. Também nessas grandes rótulas ou engradamentos se observavam as gelosias, e rentes com o assoalho pequenos postigos, pelos quais as senhoras e escravas, debruçando-se, podiam ver, sem que fossem facilmente vistas, o que se passava nas ruas.

As rótulas e gelosias não eram cadeias confessas, positivas, mas eram pelo aspecto e pelo seu destino grandes gaiolas, onde os pais e maridos zelavam sonegadas à sociedade as filhas e as esposas.

A higiene, a arquitetura, o embelezamento da cidade exigiam a destruição das malignas e feias gaiolas.

E a Rua do Ouvidor devia ser pronta, como foi, em dar cumprimento ao edital de Paulo Fernandes, porque rótulas e gelosias destinadas a esconder à força o belo sexo deviam ser imediatamente banidas da rua que não tarde tinha de tornar-se por excelência de exposição diária de elegantes e honestíssimas senhoras, e infelizmente também de andorinhas que por ali fazem verão.

Em 1808 a Rua do Ouvidor já tinha entrada na ordem das comerciais; mas o comércio apenas a conquistara até pouco além da Rua da Quitanda, e daí para o Largo de S. Francisco de Paula, à exceção das tavernas em algumas das quinas da rua, e de uma ou outra modestíssima oficina, todas as casas eram de morada de famílias alheias ao mister mercantil e industrial.

A Carta Régia de 28 de janeiro de 1808 lavrada em cidade de S. Salvador da Bahia, onde arribara entre outros navios, a capitania, na qual vinha o Príncipe Regente D. João, franqueou os portos do Brasil ao comércio da Inglaterra, e das potências em paz com a coroa de Portugal, sob a imposição única de vinte e quatro por cento de direito de importação.

Essa grandiosa providência que pós termo à condição colonial do Brasil foi enérgica e impiedosamente combatida no Rio de Janeiro, pelo explicável egoísmo de alguns ricos comerciantes portugueses, e por fidalgos influentes na corte, que os apoiaram; fulminou-os, porém, na imprensa régia em magistral opúsculo o sábio economista brasileiro José da Silva Lisboa (ulteriormente Visconde de Cairu) e ainda mais nos conselhos do príncipe regente, o célebre ministro e estadista Conde de Linhares.

A Carta Régia de 28 de janeiro de 1806 vingou, e necessariamente havia de vingar, e quem logo e logo se aproveitou da abertura dos portos do Brasil ex-colônia foi, nem era preciso dizêlo, foi a Inglaterra.

E imediatamente... que dúvida!... abriu-se a porta, ela entrou célere; porque, depois da entrada, não havia mais despedida possível.

No mesmo ano de 1808 negociantes da Inglaterra organizaram companhia, interessando-se na exportação de mercadorias para a cidade do Rio de Janeiro, e outras principais do Brasil, e além de seus sócios, alguns outros ingleses, independentes da companhia, vieram desde o mesmo ano de 1808 estabelecer casas de comércio nessas cidades.

No Rio de Janeiro, a Rua do Ouvidor foi uma das primeiras a ter casas ou estabelecimentos de negociantes ingleses, lojas de louça, de fazendas ou panos tecidos, e enfim de comércio de importação e de exportação de gêneros recebidos da Inglaterra e mandados do Brasil, e portanto antes de ouvir dizer monsieur e sacre nom de Dieu ouviu repetir mister e goodemi e comeu batatas inglesas antes de comer petit-pois.

Ainda era cedo para a vinda de franceses então internacionalmente excomungados por terem invadido o reino de Portugal.

Os franceses eram odiados como demônios, e a despeito do espaço imenso do Atlântico se impunha tão aterrador lá de longe na Europa o vulto homérico de Napoleão, que (conforme o diz em suas Memórias o Padre Luís Gonçalves dos Santos) um dos motivos da criação do lugar de Intendente Geral da Polícia foi a necessidade de elevado e ativo chefe policial que obstasse e punisse (no Brasil!!!) a ação perigosa de espiões e de agentes franceses.

Era medo pueril!... mas ninguém ignora que o famoso Bonaparte chegou a passar por feiticeiro, e por ter pacto com o diabo na opinião da gente rude, que o teve por inimigo em guerras horríveis.

Certo é que no Brasil houve recomendações insensatas contra a sonhada espionagem francesa, e a melhor prova disso está no seguinte fato passado com o célebre irmão Joaquim, o S. Francisco de Assis brasileiro.

O irmão Joaquim, que a pedir esmolas já tinha fundado importante hospital em Santa Catarina, e grande seminário dos órfãos pobres na Bahia, andava esmolando pelas capitanias do Rio de Janeiro e de S. Paulo para fundar instituições semelhantes à que deixara na Bahia para socorro dos órfãos e meninos desvalidos.

(continua...)

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