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#Poemas em verso#Literatura Brasileira

Andanças de uma viola de cabaça

Por Gregório de Matos (1696)

6 Não remoqueia às escuras,
mas diz muito claramente,
que antes preso a uma corrente,
que sofrer estas solturas:
queixa-se em tais desventuras
ao Surgião, e ao Barbeiro,
dizendo por derradeiro
lastimoso, e lastimado,
que o chasco o tem tão picado,
que lhe criara um unheiro.

7 Queixa-se de que a Mãe velha
lhe nascesse nesta festa
um bom corno sobre a testa
como vaca, sendo ovelha:
a Mãe como velha relha
está sobre a testa inchada
de praguejar tão cansada,
que diz, que antes de morrer
sobre o Lobinho há de ver
a justiça, justiçada.
8 Curando-se o Filho estava,
a casa se confundia,
a crioula lhe carpia,
e a tal velha praguejava:
tudo em confusão andava,
o ferido a se curar,
a crioula a trabalhar,
o Surgião a ir, e vir,
toda a Justiça a se rir,
quando a Velha a praguejar.

PINTURA GRACIOSA DE HUMA DAMA CORCOVADA.

1 Laura minha, o vosso amante
não sabe, por mais que faz,
quando ides para trás,
nem quando para diante:
olha-vos para o semblante,
e vê no peito a cacunda,
é força, que se confunda,
pois olha para o espinhaço,
e vendo segundo inchaço,
o tem por cara segunda.

2 Com duas corcovas postas,
que amante não duvidara,
se tendes costas na cara,
se trazeis a cara às costas:
quem fizer sobre isso apostas,
não é de as ganhar capaz,
que a vista mais perspicaz
nunca entre as confusas ramas
vê, se as pás trazeis nas mamas,
se as mamas trazeis nas pás.

3 Entre os demais serafins,
que há ali de belezas raras,
só vós tendes duas caras,
e ambas elas mui ruins:
quem vos for buscar os rins,
que moram atrás do peito,
nunca os há de achar a jeito,
crendo, que adiante estão,
com que sois mulher, que não
tem avesso, nem direito.

4 Vindo para mim andando,
cuido (como é cousa nova
trazer no peito a corcova)
que vos ides ausentando:
cuido (estando-vos olhando
no peito o corcoz tremendo)
que às costas vos estou vendo:
e porque vos vejo assim
vir co'a giba para mim,
que as costas me dais, entendo.

5 A vossa corcova rara
deixe o peito livre, e cru,
ou crerei, que é vosso cu
parecido à vossa cara:
e se acaso vos enfara
dar-vos por tão verdadeira
esta semelhante asneira,
por mais que vos descontente,
hei de crer, que é vossa frente
irmã da vossa traseira.

6 Um bem tem vosso aleijão
mui útil, a quem vos ama,
e é, que haveis de dar na cama
mais voltas do que um pião:
se o pião de um só ferrão
voltando em giros continos
dá gostos tam peregrinos,
vós pião de dois ferrões
sereis sem comparações
desenfado dos meninos.

VEM, QUE ESTOU PARA TAS DAR.

MOTE

Dá-mas, Mana, que tas dou,
que tas estou esperando,
mete-me a língua na boca,
enquanto tas estou dando.

1 Vem, que estou para tas dar,
chega-te, vida, que morro,
necessito de socorro,
não me queiras acabar:
estou já para estalar,
não me ajudas, por quem sou?
que para tas dar estou:
pois que é isto? tanto tardas?
acaba, vida, que aguardas?
Dá-mas, Mana, que tas dou.

2 Meu coração, que me abraso,
morro com tão lindo gosto,
que em perigo me tem posto
gosto de tão lindo vaso:
vê, que se vem passo a passo
estas lágrimas chegando:
dize, meu bem, para quando,
hão de ser? olha, que vem:
acaba, dá-mas, meu bem,
Que tas estou esperando.

3 Acrescenta o excessivo,
para o gosto acrescentar,
não queiras, vida, matar,
a quem morre, estando vivo:
e se em modo tão esquivo
o gosto sempre se apouca,
por que seja igual a troca,
que fazemos neste caso,
pois tens o membro no vaso,
Mete-me a língua na boca.

4 Hás, pois, vida, de advertir
que em modo tão sublimado
se acha menos desmaiado,
quem mais se deixa dormir:
para mais tempo sentir,
o que estamos trabalhando,
quisera, vida, que quando
me canso para tas dar,
nunca quisera acabar,
Enquanto tas estou dando.

DESCREVE O QUE LHE ACONTECEO EM S. GONÇALLO DO RIO VERMELHO COM
AVISTA DE HUMA DAMA FORMOSA, E BEM ADORNADA.

(continua...)

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