Por Eça de Queirós (1940)
Este rapaz, porque tem apenas vinte e quatro anos, que se chama Forbes e que já era ilustre por correspondências admiráveis (telegrafadas), sobretudo a que descrevia a passagem do Danúbio e a que contava a batalha de Plevna, logo que soube que havia combate em Chipka e antevendo a importância da luta, partiu do quartel-general russo onde se achava e chegou, a marchas forçadas, a Chipka, no segundo dia de batalha: ali esteve três dias tomando notas e estudando a situação, ora a cavalo, ora nas trincheiras, sempre no meio do fogo, até que adquiriu a noção exacta da contenda; voltou sem descansar, rebentando cavalos, para o quartel-general russo; aí o czar interrogou-o, e foi ele o primeiro a dar detalhes da batalha ao Estado-Maior; e, imediatamente, por meios que ele não revela, mas que constituem toda uma campanha, conseguiu mandar ao Daily News um telegrama de seis colunas e meia (como esta página de Actualidade em letra miúda) descrevendo o combate, e os seus episódios, com um vigor, um colorido, um realismo, que fazem deste telegrama uma maravilha de informação e um primor de literatura. Que diferença dos magros e melancólicos telegramas que a Agência Havas fornece, por grosso, aos jornais de aí. Mas também nós não tiramos, como o Daily News, duzentos mil exemplares por dia!
O processo feito a Gambetta é aqui motivo de um espanto extremo. Há, todavia, na crítica dos jornais ingleses, conservadores e radicais, mais desdém que indignação; o facto é classificado com uma profusão de epítetos infamantes, que se podem resumir neste: disparate idiota.
Como! O Governo processa um homem político por um discurso da mais moderada oposição parlamentar, pronunciado numa reunião particular? Como! Tendo os jornais de França publicado por inteiro ou por extractos esse documento o Governo só processa a Repúblique Française? Como! Na véspera das eleições, quando a sua prudência devia procurar chamar todos os sufrágios, irrita e desespera o país por um acto tão inconstitucional, alienando de si as simpatias mais conservadoras? Como! Querendo aniquilar o radicalismo, dá-lhe as honras de uma perseguição injusta, o que é o mesmo que criar-lhe uma propaganda gratuita? Como! Sendo-lhe indispensável pôr na sombra a influência de Gambetta, procura dar-lhe a maior glória e torná-lo, pelo martírio, quase augusto? Como! Desejando abafar-lhe a voz, dá-lhe ocasião de fazer uma defesa que ecoará em toda a França e em toda a Europa? Mas estão idiotas! O doutrinarismo de M. de Broglie emparveceu-o e o bonapartismo de M. de Fourton ensandeceu-o. Aí está como falam os jornais ingleses.
Não creio porém que estejam na verdade. M. de Broglie e M. de Fourton são tudo menos tolos. Os tolos não são usualmente primeiros-ministros de França. M. de Broglie e M. de Fourton são simplesmente lógicos. Realmente o que pretendem eles? Impor à França um governo militar, ditatorial, despótico, reaccionário e clerical, de que Mac Mahon seja o Deus e eles seus profetas.
Mas enquanto houver em França uma coisa que se chama a constituição é forçoso, por mais M. de Broglie que se seja, governar dentro da constituição; pode-se torná-la elástica, interpretá-la com todas as subtilezas maquiavélicas e todas as tortuosidades jesuíticas, alargar-lhe as costuras, torcê-la até quase a quebrar, fazer-lhe espremer as decisões mais absurdas, violá-la mesmo um pouco aqui e acolá, mas há uma coisa que se não pode fazer: é atirá-la para debaixo da mesa, para os papéis sujos!
E enquanto a constituição for a lei da França o Governo não pode ser uma ditadura. Mas como se há-de então suprimir esta constituição atravancadora e impertinente? Por um golpe de estado. E o motivo para um golpe de estado? Há muitos, mas o melhor – é a insurreição. E onde está a insurreição? Provoca-se. E por este declive lógico que o Governo decidiu processar Gambetta. O que se pretende é irritar os republicanos, até lhes fazer perder a cabeça e os levar às barricadas. Para isso, um processo como este de Gambetta, algumas violências mais, uma perseguição sistemática à imprensa, meia dúzia de actos bem inconstitucionais e, pensam os homens ilustres da direita, é impossível que Paris, Lião ou Marselha não saiam para a rua. E então, dada a insurreição, espantada a França, o Governo atira a constituição pelos ares, assume a ditadura para salvar a ordem e fez-se a escamoteação. É este, parece-me, o fim do Governo. Somente, para lograr um francês, não há como outro francês. E o francês tem sobretudo a paixão de lograr o Governo. Os republicanos sentem perfeitamente a que terreno o ministério os quer chamar, e com uma virtude maliciosa conservam-se teimosamente na ordem, embrulham-se na legalidade, abraçam-se sofregamente na constituição. E dá-se o espectáculo curioso de velhos conspiradores, insurrectos de profissão, defendendo com grande pompa e com ardor a ordem, e o ministério, composto de conservadores, fermentando tortuosamente a insurreição.
E se este sistema continuar, o ministério será logrado: pode perseguir, irritar e vexar; os republicanos sorrirão, cumprimentarão e volverão olhos devotos. resignados, para a estátua da lei; e quando chegarem as eleições mandarão, com bonomia, quatro-centos deputados republicanos! E o ministério, não tendo podido vencer pela insurreição e não podendo viver pela legalidade, tem de se dobrar ou de se safar! E aqui está o que é uma alta comédia política.
Esta estação é para tudo, em Inglaterra, um tempo de férias. A gente rica, que é a que faz tudo em Inglaterra, não faz nada neste mês senão caçar, viajar no continente, banhar-se no mar salgado, ou bordejar nos iates.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. Crónicas de Londres. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=14018 . Acesso em: 29 jun. 2026.