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#Romances#Literatura Portuguesa

A Capital

Por Eça de Queirós (1925)

becaz. Era um homemzarrão, de carão audaz e vermelho, fortes bigodes de mosqueteiro, muito teso no seu casaco d'alamares debruado d'astrakan ; @om o seu chapéu ao lado, a ponta do lenço muito de fóra, o grande bengalão de canna da India, parecia a Arthur -— quando o via passar na praça, revirando para as creadas que iam á fonte os olhos avermelhados de genebra —um d'estes mestres d'armas, capitães a meio soldo, azedados e turbulentos, dos romances d'Eugbne Sue. Era empregado da administração e ninguem sabia como se achava alli havia dez annos. Porque era de Lisboa, amaldigoava Oliveira d'Azemeis ; mal sabia redigir um officio e trovejava livremente contra os governos. Era um bilharista famoso na Villa, grande homem do botequim da Corcovada, onde ficava, das quatro da tarde até á meia noite, carambolando, atirando para as fauces copinhos de genebra e fallando com auctoridade de politica e de mulheres. Foi alli que se encontraram, uma noite em que Arthur, ao passar, se refugiara d'uma pancada d'agua no bilhar quasi deserto. O Rabecaz, que batia melancolicamente carambolas solitarias, propoz a Arthur uma partida ás vinte e cinco.

— Que V. Ex. a , como frequentou Coimbra, deve ser da confraria do taco.

— Jogo mal.

Mas acceitou, com uma curiosidade d'aquella fi-

gura que tinha em Oliveira um relevo pittoresco. n, carambolando, conversaram.

O Rabecaz, immediatamente, injuriou o governo — e a sympathia nasceu de se reconhecerem ambos republicanos. No emtanto divergiam : Arthur queria os Estados-Unidos da Europa, governados pelos gandes genios : Victor Hugo devia presidir á Franga, Castellar, á Hespanha ; não haveria exercitos e os povos federados sentar-se-iam fraternalmente em banquetes symbolicos, cantando a Marsetheza. Rabecaz exigia um Robespierre, um Cromwell, para guilhotinar os fidalgos, confiscar os bens dos capitalistas e escavacar os padres !

— Nem barões, nem sotainas ! — berrou, brandindo o taco,

— Pelo que vejo — disse Arthur -— V. Ex.a é da escola de Proudhon.

— Eu não sou da escola de ninguem, meu caro senhor. Eu sou uma fera ! Quando penso no estado a que chegou este paiz, sou uma fera !

Trovejou então contra o clero • . — mas não con• cordavam tambem sobre questões religiosas. Arthur entendia que se devia adorar a Natureza, nos campos, deante do céu, templo eterno, e admirava Jesus, philosopho e democrata! Rabecaz não admittia Jesus, — porque, uma de duas, meu caro senhor, ou era um Dens e então tinha o poder de se não deixar matar, ou não era um Deus, e então

não podia ter resuscitado : porque deixar-se matar, para ter o prazer de se fazer resuscitar, parecia-lhe uma trica politica, impropria d'um ente divino !

E pousando o taco, convidou Arthur a cear. A Corcovada tinha ao fundo, para os intimos, entre a cozinha e a estrebaria, um cubiculo com uma mesa de pinho e mochos de palhinha. D'uma paredo pendia o retrato de Pio IX, de mão erguida n'uma benção ; defronte, n'uma lithographia colo• rida, uma odalisca semi-nua enfiava perolas. Ouviase ao lado rabujar os netos da Corcovada, estalar na lareira a lenha verde e as mulas dos almocreves, puxando a argola das mangedouras, baterem o chão lageado.

Rabecaz encommendou á Mariquitas, sobrinha da Corcovada, « a bella fritada d'ovos e chouriço e dous meios litros reaes

E indicando, @om um piscar d'olhos, a rapariga sardenta e roliça :

— Boa perna !

Escarrou para o lado, e, installando-se á mesa, quiz saber a opinião d'Arthur « sobre o gado D.

— Que gado

— O gado, o femeaço

A expressão brutal escandalisou as delicadezae d'Arthur e o seu desprezo por Rabecaz foi com• pleto quando o ouviu declarar, com o olho lubrico, que o que apreciava no gado eram «as boas car•

nes 9.

— O amigo nunca esteve em Lisboa — Não disse Arthur.

O Rabecaz deu uma palmada na :

— Então, meu caro senhor, não sabe o que é gado ! Não faz Idéa do que é um pé catita ! — E com uma punhada na mesa : — Então, não sabe o que é a pandega !

Fallou immediatamente de si. Tinha vivido em Lisboa, elle, com cavallos, com cadeira em S. Car10s, com carruagem ! Fôra um principe ! No tempo em que Madame Ortza era uma belleza e o Marrare um céu aberto ! Que batidas para as Portas d'Algés ! Que orgias com a Contadini !

Comi tudo, mas regalei-me ! — disse, dando um puxão ao bigode,

Arthur considerava-o agora com interesse, como uma ruina romanesca.

— O snr. Rabecaz então devia conhecer bem Lisboa.

— Lisboa

Bebeu um trago areal» e passando pelos beiços as costas da mio cabelluda :

— Meu caro senhor, conheço Lisboa desde o mais alto—e o seu gesto no ar parecia designar doceis de thronos — até ao mais baixo ! AO mais baixo ! — agitava a mão sob a mesa, como revolvendo lamaa.

Rabecaz adquiriu logo para Arthur uma auct:odade imprevieoa por aquella experiencia tão com-

plexa da grande cidade, das suas glorias, dos seus mysterios. Naturalmente tinha convivido com escriptores, com artistas . . .

— Grande rapaziada ! — exclamou Rabecaz — Conheço-os a todos, de tu ! Bellos pandegos !

Citou nomes. O José Estevão ! O Garrett ! A Sociedade do Delirio ! Uma troça real !

Mas voltou com fogo ás mulheres :



(continua...)

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