Por Eça de Queirós (1900)
Cunhais) erguia a sua fidalga fachada de doze varandas no largo de El-Rei, entre uma solitária viela que conduz ao Quartel e à rua das Tecedeiras, velha rua mal empedrada, ladeirenta, oprimida pelo comprido terraço do jardim, e pelo muro fronteiro da antiga cerca das Mônicas. E nessa manhã, justamente quando Gonçalo, na caleche da Torre puxada pela parelha do Torto, desembocava no largo de El-Rei, subia pela Tecedeiras, dobrando a esquina dos Cunhais, num cavalo negro de fartas clinas, que feria as lajes com soberba e garbo, o Governador Civil, o André Cavaleiro, de colete branco e chapéu de palha. Num relance, do fundo da caleche, o Fidalgo ainda o surpreendeu levantando os pestanudos olhos negros para as varandas de ferro do palacete. E pulou, com um murro no joelho, rugindo surdamente - "que biltre!" Ao apear no portão (um portão baixo, como esmagado pelo imenso escudo de armas dos Sás) tão sufocada indignação o impelia que não reparou nas efusões do porteiro, o velho Joaquim da Porta, e esqueceu dentro da caleche os presentes para Gracinha, a caixa com o guarda-solinho e um cesto de flores da Torre coberto de papel de seda. Depois em cima, na sala de espera, onde José Barrolo correra, ao sentir nas lajes do largo silencioso o estrépito do calhambeque, desabafou logo, arrebatadamente, atirando o guarda-pó para uma cadeira de couro:
- Oh senhores! Que eu não possa vir à cidade sem encontrar de cara este animal do Cavaleiro! E sempre no largo, defronte da casa! E sorte!... Esse bigodeira não achará outro lugar para onde vá caracolar com a pileca?
José Barrolo, um moço gordo, de cabelo ruivo e crespo, com um buço claro numa face mais redonda e corada que uma bela maçã, acudiu, ingenuamente:
- Pileca?!.. Oh, menino, tem agora um cavalo lindo! Um cavalo lindo, que comprou ao Marges!
- Pois bem! É um burro feio em cima dum cavalo bonito. Que fiquem ambos na cavalariça. Ouque vão ambos pastar para as Devesas!
O Barrolo escancarou a boca larga e fresca, de soberbos dentes, num lento pasmo. E de repente, com uma patada no soalho, vergado pela cinta, rompeu numa risada que o sufocava, lhe inchava as veias:
- Essa é de arromba! Não, essa é para contar no Club... Um burro feio em cima dum cavalo bonito! E ambos a pastarem!... Tu vens hoje rico, menino! Olha que essa! Ambos a pastarem, com os focinhos na erva, o Governador Civil e o cavalo... E de arromba!
Rebolava pela sala, com palmadas radiantes sobre a coxa obesa. E Gonçalo, adoçado por aquela ovação que celebrava a sua facécia:
- Bem. Dá cá esses ossos, ou antes esses untos. E como vai a família? A Gracinha?... Oh! vivaa linda flor!
Era ela, com a sua ligeireza airosa e menineira, os magníficos cabelos soltos sobre um penteador de rendas, correndo alvoroçada para o irmão, que a envolveu num abraço e em dois beijos sonoros. E imediatamente, recuando, a declarou mais bonita, mais gorda:
- Positivamente estás mais gorda, até mais alta... É sobrinho?... Não? nada, por ora?
Gracinha corou, com aquele seu lânguido sorriso que mais lhe umedecia e lhe enternecia a doçura dos olhos esverdeados.
- Se ela não quer, ela não quer! - gritava o José Barrolo, gingando, com as mãos enterradas nosbolsos do jaquetão que lhe desenhava as ancas roliças. - A culpa não é cá do patrão... Mas ela não se decide!
O Fidalgo da Torre repreendeu a irmã:
- Pois é necessário um menino. Eu por mim não caso, não tenho jeito; e lá se vão desta feitaBarrolos e Ramires! A extinção dos Barrolos é uma limpeza. Mas, acabados os Ramires, acaba Portugal. Portanto, Sra. D. Graça Ramires, depressa, em nome da nação, um morgado! Um morgado muito gordo, que eu pretendo que se chame Tructesindo!
Barrolo protestou, aterrado:
- O quê? Turtesinho? Não! para tal sorte não o fabrico eu!
Mas Gracinha deteve aqueles gracejos picantes, desejosa de saber da Torre, e do Bento, e da Rosa cozinheira, e da horta, e dos pavões... Conversando, penetraram na outra sala, guarnecida de contadores da índia, de pesados cadeirões dourados de damasco azul, com três varandas sobre o largo de El-Rei. Barrolo enrolou um cigarro, reclamou a história do Relho, da grande desordem. Também ele arranjara uma pega com o rendeiro da Ribeirinha, por causa dum corte de pinhal. Essa do Relho, porém, fora tremenda...
E Gonçalo, enterrado ao canto do fundo canapé azul, desabotoando preguiçosamente o jaquetão de chaviote claro:
- Não! foi muito simples. Já há meses esse Relho andava bêbado, sem despegar... Uma noiteberrou, ameaçou a Rosa, agarrou numa espingarda. Eu desci, e num instante a Torre ficou desembaraçada de Relhos e de barulhos.
- Mas veio o Regedor, com cabos! - acudiu o Barrolo.
Gonçalo sacudiu os ombros, impaciente:
- Veio o Regedor? Veio depois, para legalizar! Já o homem abalara, corrido. E como resultadoarrendei a Torre ao Pereira, ao Pereira da Riosa...
Contou esse negócio excelente, tratado na varanda, ao almoço, entre dois copos de vinho verde. Barrolo admirou a renda - gabou o rendeiro. Assim Gonçalo descortinasse outro Pereira para a quinta de Treixedo, terra tão generosa, tão mal amanhada!
À borda do canapé, coberta pelos belos cabelos que lavara nessa manhã e que cheiravam a alecrim, Gracinha contemplava o irmão com ternura:
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A ilustre casa de Ramires. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7529 . Acesso em: 28 jun. 2026.