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#Romances#Literatura Portuguesa

Coração, Cabeça e Estômago

Por Camilo Castelo Branco (1862)

- Agora... e só agora me atrevo a dizer-te que te amei... Deixo-te a eterna lembrança da desgraçada que só à hora da morte se julga digna de ti...

Morreu.

Não posso bem dizer o que senti nessa hora. Morrera uma grande parte do meu ser. Senti o vácuo; era no peito que o sentia. Devia ser o coração, o que vulgarmente se diz coração, que morrera.

É, pois, certo que eu amei aquela mulher?

Ó meu Deus e minha consciência! Vós bem vedes com que orgulho e saudade eu digo que sim, que amei!

Amei-a porque era mais pura, mais virgem e mais santa que a outra respeitada do mundo; e porque, em ódio à sociedade, que a desprezava, não posso vingá-la senão amando-a com eterna saudade.

SEGUNDA PARTE

CABEÇA

JORNALISTA

I

O homem não se deve somente à sua felicidade - primeira máxima.

O principal egoísta é aquele que se descia em explorar o coração alheio para opulentar o próprio com as deleitações do amor - segunda máxima.

Como a felicidade do egoísta é um paradoxo, a felicidade pelo amor é impossível - terceira máxima.

Quarta - o bem particular é resultado do bem geral.

Quem quiser ser feliz há-de convencer-se de que sacrificou ao bem geral uma parte dos seus prazeres individuais - quinta máxima.

O amor, considerado fonte de contentamentos ideais, é o sonho dum doido sublime - sexta.

Sétima - a mulher é uma contingência: quem quiser constituí-la essência de sua vida aleija-se na alma e cairá setenta vezes sete vezes das muletas a que se ampare do chão mal gradado e barrancoso do seu falso caminho.

Estas sete máximas fui eu que as compus, depois de ler a antiguidade e alguns almanaques que tratavam do amor.

Entrei a cogitar no modo de ser útil à humanidade com a minha experiência e inteligência do coração humano. Ofereceu-se-me logo azo de exercitar as minhas benévolas disposições. Escrevi para o Periódico dos Pobres, do Porto, uma correspondência contra o regedor da minha freguesia, acusando-o de me prender um criado para recruta. Nesta correspondência discorri largamente acerca dos direitos do homem. Examinei o que foi a liberdade em Grécia e Roma. Procurei-a no berço do cristianismo e vim com ela, através dos séculos, até a Revolução Francesa, que eu denominei o último verbo da sociabilidade humana: tudo isto por causa do recruta e contra o regedor da minha freguesia, que eu cobri de epítetos tais como ominoso e paxá de três caudas.

O regedor respondeu-me e eu repliquei. Seguiu-se uma série de correspondências, que podiam formar um livro importante para a história dos costumes dos regedores em Portugal no século XIX.

O prurido de escrever correspondências a respeito doutras muitas coisas, e mormente da dotação do clero - matéria que veio a ponto, quando eu tive uma questão com o meu pároco por causa da côngrua e pé-dealtar -, insinuou-me a persuasão de que havia em mim pronunciadas tendências para escritor político. Discutiase naquele tempo o Sr. Conde de Tomar, a quem uns chamavam Barba-Roxa e outros marquês de pombal. Decidi-me a favor dos segundos, que tinham incontestável razão. Escrevi uma série de artigos, como muito suco, em grande parte copiados do Dicionário Político de Garnier-Pagés; e, na parte de minha lavra, havia ali uma verdura de ideias que ninguém lhe metia dente. Por essa ocasião recebi de vários pontos do País diferentes cartas, umas insultadoras, capitulando-me de besta; outras, no mais moderado de seus encómios, profetizavam em mim o Girardin português. De Mirandela recebi a lisonjeira nova de se andarem quotizando alguns amigos da ordem para me oferecerem uma pena. Veio a pena, passado algum tempo; mas era uma pena de galinhola, uma zombaria que eu repeli com todas as potências do meu desprezo.

Como as minhas doutrinas andassem encontradas com as do regador e do pároco - afeiçoados à revolução militar de 1844 -, maquinaram eles contra mim ciladas, que me iam sendo fatais, sob pretexto de eu ser partidário do Sr. Costa Cabral. As sevícias do rancor chegaram ao extremo de me matarem uma cabra, que pastava no passal do vigário, e aleijaram-me uma égua, que num ímpeto de castidade, escoiceara um garrano do regedor. Estas prepotências eram indicadas dalgum grande atentado contra minha vida. Saí, portanto, da minha aldeia e fui para o Porto expor com desassombro ao sol da civilização os meus talentos em matéria de governação pública.

Fiquei grandemente surpreendido e embaçado quando cheguei ao Porto e dei fé que ninguém se ocupava a falar de mim! À mesa-redonda do hotel onde me hospedei tratou-se o assunto da política; e, como era essa a feliz conjunção de eu divulgar o meu nome, encaminhei habilmente a controvérsia, até me declarar Silvestre da Silva, autor dos artigos epigrafados “Os Portugueses na balança do mundo”.

(continua...)

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