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#Romances#Literatura Portuguesa

Amor de Salvação

Por Camilo Castelo Branco (1864)

" Quem te disse que eu deixo minha mãe e parentes?", redargui. "Dizes-mo tu, se eu to perguntar com as mãos postas", respondeu ela, pondo as mãos em súplica. "Tartamudeei confusamente. As minhas palavras vinham falsificadas do espirito. Aqueceram-se-me as faces, porque eu não estava afeito a mentir. O coração teve quinhão deste pejo: a meiga criatura, que me interrogava, tinha uns ares de divinização, que me incutiam uma espécie de escrúpulo religioso.

"Vejo que te aflijo, meu primo", interrompeu Mafalda. "Es ainda bom, que não podes mentir à tua amiga. Queres ir ao teu destino... Vai, mas... escuta-me... "Seguiu-se um longo silêncio, que ela mesma interrompeu, exclamando em pranto desfeito: "Não posso!... A Virgem do Céu não ouviu os meus rogos!..."

"Acariciei-a com o melindre de irmão, instando-a a que falasse. Articulou ainda algumas palavras desatadas, fáceis, porém, de se ligarem em meu espírito prevenido.

Atalhei-a muito comovido, nestes termos: "Deves ter directo instinto do Céu, minha prima, porque a tua alma virginal é pura de toda a falsidade e não pode ser enganada.

Sabes que eu vou fugir, sem ter anunciado a nossa mãe este novo golpe. Fujo, minha irmã, porque entre a tua celestial dedicação e as minhas desvairadas paixões está o infinito. Tu és a criatura que ainda não sonhou o mal, sedenta de uma alma cheia das crenças da juventude. Vês a minha vida, posta em assédio pelas tentativas da mulher única do meu amor, da mulher perdida para mim e para si própria... observas isto com teus olhos inexperientes, e pasmas do poder infernal desta mulher. Oh! que Deus te livre de ainda veres o mundo despido das vestes que a tua candura lhe empresta! Deus te poupe a debruçares-te sobre o abismo de onde se tira a luz, ao clarão da qual se observam as chagas da sociedade. Esconde-te de mim e de todo o homem que viu o mundo; esconde-te, anjo do paraíso, para que nenhum homem te diga o que viu. Eu não sei como ousaria contar-te as minhas desventuras, Mafalda. A tua linguagem perdi-a, quando saí destas florestas, onde nós nos entendíamos como as avezinhas do céu se entendem. Que hei-de eu dizer-te hoje? Com que termos te mostrarei a minha indignidade?"

"Mafalda pôs-me com muita suavidade a mão na boca e disse: "Não digas mais nada, meu irmão, que já disseste tudo... A mulher única do teu amor... a mulher única do teu amor é... ela!..." Os soluços embargaram-lhe a voz. Faleceram-me a mim espíritos com que tentasse consolá-la. Todas as palavras, sem veemência de dentro, seriam pálidas e vãs. Mentir, bem que eu pudesse, de que serviria?... O meu silêncio era angustioso. Recriminava-me por me ter exposto àquele diálogo...

"Com satisfação a vi erguer-se e dizer-me: "Voltemos, primo?... Vamos para casa. Não percas instantes da companhia de tua mãe. Vamos...

"Neste momento, à raiz da serra, onde ia a estrada de Landim, passava uma mulher cavalgando a galope. Ia sozinha. Eu não a tinha visto ainda, quando Mafalda, apontandoa com o braço trémulo, disse: "A mulher única do teu amor..."

"Neste instante, esqueci o anjo, que me estava ali chorando, não sei mesmo se desejei que Deus o chamasse para a sua pátria; e adorei o Demónio, que passava lá em baixo, com o véu esvoaçante, por entre nuvens de pó, sacudidas das patas do arremessado cavalo."

XII

Cerravam-se cada dia mais espessas as trevas em volta do perplexo ânimo de Afonso de Teive. A obsessão de Teodora não lhe dava tréguas. Nas circunvizinhanças de Ruivães já se fazia reparada a amazona, umas vezes sozinha, outras seguida do lacaio, e algumas vezes ao lado do marido, a quem ela não prestava mais atenção que ao lacaio. Afonso, enquanto a mim, resistindo à tentação, iniciava-se para consorciar-se no reino celestial com os santos da sua família, monos sob o estandarte da cruz; mas, a juizo de muita gente, muito menos beneméritos da auréola da santidade. Morrer com o céu a abrirse além no horizonte, ouvindo já os hinos dos anjos, é glorioso e exultante; porém, morrer gotejando em lágrimas o sangue do coração, sem visões bemaventuradas, sem estímulo de predestinado, morrer do amor de uma mulher que se arrasta submissa aos pés do triunfador que a despreza e adora... sublime extravagância, se querem que lhe eu não chame santíssimo martírio!

A mãe do lastimável moço, antes de avisada da intentada partida dele, resolveu impor-lhe o seu arbítrio de mãe com severidade. Informada por Fernão de Teive, sabia que Teodora fazia miúdas investidas às redondezas de Ruivães e que Afonso não era estranho, bem que a não houvesse encontrado, aos planos da impudente mulher.

(continua...)

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