Por Machado de Assis (1872)
— Creio que o amei, respondeu Lívia baixando tristemente a cabeça. Se o espírito de Raquel não fosse ainda o regaço da castidade, aquela confissão mentirosa da` viúva, porque ela ainda amava, podia fazer-lhe nascer alguma desairosa
suspeita. Mas Raquel não viu naquelas palavras mais do que um amor medroso e não compreendido. Sua eloqüente resposta foi apertá-la nos braços.
Lívia apertou-a com força. Era a primeira vez que o acaso lhe deparava uma confidente. Alterava-se-lhe o seio, túmido de suspiros duas lágrimas lhe romperam dos olhos e foram morrer na espádua de Raquel. O menino interrompeu essa doce efusão. Lívia respirou largamente, e beijando com ternura a moça, disse:
— Vamos.
Mas Raquel não se movia. Tinha os olhos postos nela, os lábios apertados, os braços pendentes. Lívia sacudiu-lhe brandamente os ombros.
— Que tens? disse.
— Nada, suspirou Raquel.
Lívia estremeceu. Súbito relâmpago lhe atravessou as sombras do espírito. Interrogou-a de novo, mas foi em vão. Então sentiu em si todas as energias do seu temperamento, e com um grito, que a cólera abafava, exclamou:
— Ah! tu o amas também!
Raquel não lhe respondeu. Se a viúva lhe houvera falado com brandura é provável que lhe fizesse plena confissão de seus sentimentos. Mas, às palavras coléricas de Lívia, a pobre moça começou a tremer.
— Tu o amas também! respondeu Lívia com voz surda e concentrada. Raquel curvou o corpo, pôs as mãos em atitude de súplica, e murmurou com voz trêmula:
— Perdão!
Pairou nos lábios da viúva um sorriso sarcástico. Raquel repetiu ainda muitas vezes a palavra perdão; mas a única resposta da sua rival foi pegar-lhe do braço e indicar-lhe a porta.
— Vai ter com ele! exclamou.
Depois saiu arrebatada da sala. Raquel, magoada pela violência do gesto da viúva, acompanhou-a com o olhar até à porta. Os olhos da corça ofendida não chamejavam ódio contra a leoa irritada.
CAPÍTULO XVI / RAQUEL
QUANDO RAQUEL ficou só atirou-se ao sofá, trêmula, fria, com os olhos secos, sem compreender bem aquele drama íntimo, mas sentindo-lhe já algum terrível desenlace. O que ela via claro é que a outra amava o mesmo homem, e com tal força que cedera a um impulso de cólera, tão contrário aos seus hábitos de brandura.
As reflexões de Raquel não passaram daí. Nem todas as almas podem encarar as grandes crises. Quer-se um espírito robusto para estas situações complexas. Raquel ficou simplesmente atônita e abatida.
Na chácara foi notada a ausência das duas. Viana deixou os hóspedes e foi à sala.
— Que faz aqui? perguntou ele à filha do coronel.
Raquel ficara perturbada com a presença de Viana, e ainda mais com a pergunta. Enfim, balbuciou uma resposta infantil.
— Estava pensando numa cousa, disse ela.
— Onde está Lívia? perguntou Viana sem atender à resposta da moça nem ao sorriso forçado que lhe entreabria os lábios.
— Creio que está incomodada; foi para dentro. Cousa de cuidado?
— Parece que não.
Viana deu duas voltas na sala e saiu para a chácara, pedindo à moça que lá se fosse reunir aos outros.
Félix, entretanto, viera até o jardim, que ficava em frente da casa. Mal havia dado alguns passos quando viu encostada à porta da sala a filha do coronel, com os olhos postos no céu, acaso pedindo a Deus que lhe estendesse a mão para subir até lá. Era sol posto, hora de melancolia; tudo ali em volta assumia a cor pardacenta e luminosa dos últimos instantes da tarde.
Félix caminhou cautelosamente para a casa, subiu por um dos lanços da escada, e surpreendeu a moça, dizendo-lhe:
— Está linda assim mas nós precisamos vê-la cá fora.
Raquel retraiu o corpo sem ousar dizer uma só palavra. Félix estendeu-lhe a mão convidando-a a descer. A moça entrou para dentro; o médico deu ainda um passo, mas ela, fazendo um gesto suplicante, disse com voz aflita:
— Pelo amor de Deus, saia!
Félix não resistiu; desceu ao jardim e caminhou para a chácara a reunir-se às outras pessoas. Em vão buscava conjeturar a causa daquela súplica. Era impossível conciliar o procedimento de Raquel com a familiaridade e a confiança que entre ambos havia. A razão da diferença devia ser grave. Mas qual seria ela?
Os convidados retiraram-se cedo. Meneses e Félix foram os últimos que saíram, ao lado um do outro, ambos entregues a reflexões diversas, porque Félix pensava nas palavras de Raquel, Meneses na pergunta do menino.
A filha do coronel desceu ao jardim. Era noite fechada. Sentou-se num banquinho, e ali ficou em triste meditação. A pobre moça tremia de susto, de incerteza, de apreensão. Não ousava encontrar os olhos de Lívia; tinha-lhe medo, medo pueril, escusado, sem razão, mas enfim medo, e nada havia que tranqüilizasse a sua alma franzina e pusilânime.
(continua...)
ASSIS, Machado de. Ressurreição. Rio de Janeiro: B. L. Garnier, 1872.