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#Crônicas#Literatura Brasileira

Vida Urbana

Por Lima Barreto (1921)

Os seus companheiros que têm o sentimento da hierarquia, viram logo que um antigo deputado, um ex-ministro, um lente que não dá aulas, um agricultor incansável nos discursos, um felizardo que tem limousines, um senhor assim não podia ser uma simples praça. Fizeram-no coronel, isto é, presidente do tiro.

No Tiro 5, nós tínhamos João do Norte e Denis Júnior, ambos literatos ou escritores. O primeiro já publicou alguns livros e o segundo já arranjou um bom emprego e comprou roupas. Aí, neste tiro, havia dessa forma mais estas dificuldades no restabelecimento da hierarquia. Demais... Continuemos: Denis, lançado pelo Binóculo não podia comparecer em frente de nossas damas binoculares, fardado de simples soldado.

A Barroso (J. do Norte), deputado, não ficava bem a blusa de praça.

Daí a necessidade urgentíssima, muito democrática de ambos se fazerem

oficiais.

Barroso foi, Denis também; mas apareceu o ministro da Guerra e não quis mais esta guarda nacional. Acabou com os tais oficiais atiradores e tanto Barroso como o Denis voltaram para a fileira.

No domingo passado, eles, os do Tiro 5, iam fazer uma passeata pela cidade. O instrutor viria a cavalo, com um ajudante ao lado; Denis, que é solteiro e premedita, certamente, arranjar um bom casamento, para o que está inteiramente talhado, teceu as coisas de modo que foi escolhido para ajudante, e apareceria, na cidade, em cima de um bucéfalo137 policial, empunhando a espada nua e faiscante.

O sucesso de Denis seria incomparável. As damas vê-lo-iam logo de elmo e penacho, braçais, lanças, cota de malha e a divisa das armas esquarteladas no escudo: “Por ela e só!” Pleno torneio!

Esta “ela” podia ser uma qualquer, desde que satisfizesse certas condições monetárias suficientemente razoáveis.

Denis ficaria transfigurado e, com toda a razão cavaria o casamento rico. Ele tem obtido coisas mais difíceis, como ser inspector escolar, porque não conseguiria uma pequena com um bom dote? João do Norte não viu bem a coisa do cavalo. Bolas! Ele, deputado, autor de dois ou três livros, boa e bela figura, sabendo ler e escrever corretamente, tinha que ir a pé, enquanto o Denis iria a cavalo? Fez um estardalhaço e acabou-se a passeata do tiro.

Denis adiou o negócio do casamento; mas na próxima vez, ele não perderá a ocasião, pois as coisas se passarão de outra forma.

Tudo virá a cavalo e não haverá discórdia.

Lanterna, Rio, 29-1-1918.

ATÉ QUE AFINAL!...

Seria preciso consultar todos os curiosos sabedores das coisas desta cidade, para ao certo se avaliar desde quando esta vasta e heróica São Sebastião clama e chora por melhoramentos, higiene, água, calçamento, etc., etc. Porquanto, aferindo pelo que temos ouvido durante a nossa curta existência, esses queixumes e lamentos devem datar dos seus inícios, mesmo talvez desde quando ali, pelas bandas do Pão de Açúcar, ela surgiu incipiente e tosca.

Julgamos até, pois tão forte é essa nossa suposição que, ao transferir dali para o morro de São Januário, o núcleo da cidade real, Mem de Sá solene e honesto, houvesse mandado pôr nos finais das sesmarias que ia concedendo, algumas tocantes palavras de súplica à Nossa Senhora e ao Menino Jesus, implorando-lhes a graça e a ajuda para aqueles que viessem povoar os brejos que ele via se estender pela baixada afora e pra longe e muito longe.

De resto, ao depois dele, os outros que lhe sucederam – boa, leal e heróica gente portuguesa – andaram por estas terras a rezar a Deus-Todo-Poderoso para que ele desse aos homens bons da cidade, a doce esmola de alguns quartilhos d’água, a alentadora dádiva de duas ou três estradas razoáveis, por onde pudessem vir as abóboras da Fazenda dos Padres e os camarões de Iguaçu.

E assim foi por tão longo trato de tempo que faz crer que isso mais não fosse senão aquela lamurienta semente de Mem de Sá que germinou, cresceu e frutificou. Frutificando, frutificou bem, pois embora, por vezes, pela cidade e recôncavo além, lavrassem a bexiga, as sezões, a “carneirada” e o cólera, eles, os antigos, e nós, os modernos, continuamos em face de tais flagelos a rogar pacientemente a Deus, com alguma fé, e a pedir humildemente aos reis, com muito cepticismo, socorros e providências.

Mas, não é em vão que a água mole e plástica bate incessante no rochedo duro e forte: ela cai uma, duas, dez, mil vezes, amolga aqui, arranha ali, por fim.., fura. E, também, furou a indiferença dos deuses e dos reis, o nosso melífluo queixar de três séculos e meio. Deus e o Congresso Nacional nos deram o Conselho Municipal.

Ao dizermos que nos deram o Conselho Municipal – bem parece equivaler a afiançar que íamos receber água, calçamento, luz e o mais em abundância.

Se houver acaso quem tenha dúvidas, pese bem os relevantes serviços que esse conselho, cujo mandato começou já, vai prestando a esta cidade.

(continua...)

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