Por Coelho Neto (1890)
— O Acaso, que é o título com que a Providência passeia incógnita entre os mortais, fez com que nos reuníssemos hoje na Maison Moderne. A Fortuna dispensara-nos vários dons da sua cornucópia abundante e o bom-humor foi o arco de aliança que nos uniu. Tomamos conta da mesa maior, que foi franqueada a quantos apareciam famintos ou sedentos. A sala parecia, mal comparando, um quartel de eleitores em dia de eleição. A cozinha e a adega passaram por nós em procissão pantagruélica. Foi uma festa digna de Sardanapalo. À falta de assuntos para brindes, como fazia parte do grupo o nosso precioso Crebillon, glória do Norte, travamos uma luta como a de Watburgo, tomando por tema o cavanhaque flamejante do valente abolicionista e correram rios de Bourgogne, rolaram catadupas de Champanhe. À meia-noite surgiu o Martins que aí está de guarda-pó no braço e valise à mão, procurando a matalotagem que encomendara, porque vai hoje para o Friul Paulista. Tomamo-lo e a ceia foi por diante. Já empanzinados, lembramo-nos de vocês e houve um clamor geral, um clamor altruísta, digno de Comte: "Pobres homens! Enquanto aqui nos banqueteamos copiosamente, eles dormem sem ceia, num quarteirão obscuro da rua Formosa. Façamos uma carga e parta-mos para esse retiro... Eles terão um alegre sonho, o Martins, a dois passos da estação, poupará o dinheiro que reserva para o tílburi e nós outros veremos o rosto cor de rosa da aurora quando ela vier correr o reposteiro da noite diante do sol." Como não há prazer completo sem mulheres, arrancamos a Amélia às garras de um comendador lascivo lembrando-lhe os juramentos de fidelidade e mostrando-lhe o caminho do dever honesto e raptamos esta "sabina" pudica, que está em caminho do escritório do Silva Araújo. Viemos cantando e rindo e aqui estamos nesta bastilha feroz. Tenho dito.
Mal o Neiva terminou a sua oração, o Duarte pôs-se a desfazer os embrulhos e apareceram lascas de fiambre, fatias de mortadela, ostras e camarões recheados; pimentões rolaram sobre a mesa e um fornido roast-beef reluziu gorduroso, cercado de farofa, como uma pirâmide num areal revolto. Havia três copos, dois foram oferecidos às damas e o terceiro foi posto à sorte cabendo ao Lins. Mas onde estava ele? Roncos tremendos vinham da alcova da sala. O poeta, enrolado no robe de chambre, como uma múmia nas suas tiras, dormia com a bojuda garrafa aconchegada ao seio.
Puseram-se à mesa, mas com tão estrondosas gargalhadas que Dona Ana recomeçou os bramidos na escada protestando contra o escândalo, ameaçando com a polícia. Crebillon, torcendo o cavanhaque rutilante, propôs uma descida ao primeiro andar, comprometendo-se a trazer a senhoria e a filha. Era curado, as cobras não lhe faziam mal, podia, sem receio, lidar com a jararaca. Ruy Vaz, afagando as mãos grosseiras da jovem "sabina", prometia-lhe amor eterno e um chapéu. Anselmo fazia uma cena de ciúme com Amélia por causa do comendador, enquanto o Duarte, sempre dado às musas, completava um soneto entre as vitualhas, quando Neiva, Crebillon e Martins desceram solenemente para buscar Dona Ana e Vidinha. Mas a viúva correu a trancar-se na sala de jantar arrastando a mesa para junto da porta, a bradar: que iria para a janela pedir socorro se continuassem. Vidinha soltava agudíssimos gritos invocando santos e João explodia em obscenidades e ameaças. Os três desistiram da empresa e, quando subiram, o Duarte recitava ao Toledo o soneto que concluíra e mais ninguém havia na sala. Pasmaram e Crebillon, assomado, quis dar uma busca na casa quando um grito horrível repercutiu no corredor e a "sabina", lívida e trêmula, com os olhos enormes e as roupas em desordem, apareceu na sala, rolando, sem forças, sobre o canapé. Acudiram com vinho mas a pobre rapariga tremia com os olhos na porta que abria para o corredor, batendo os dentes, num pavor inenarrável.
— Esta mulher viu alguma coisa séria, disse Crebillon sisudamente e o Neiva, com o copo nos lábios da "sabina", enquanto ela bebia, tocando com os dentes um trêmulo no cristal, afirmou:
— Coisa muito séria! Para um susto como este! E indagou: Mas que foi?
Que viu você lá dentro? Não me consta que esta casa seja mal-assombrada. — É! — exclamou ela.
Mas Ruy Vaz entrou indignado:
— Ora, seu Toledo, por mais que eu diga que não deves andar com aquele estafermo de um lugar para outro, é escusado. Aí tens... Não é a primeira peça que me prega o tal arcabouço.
— Que estafermo? Que arcabouço?...
— O esqueleto. Imaginem vocês: um esqueleto, de paletó saco, sentando diante da mesa com ares de quem vai compor um poema macabro. Isto é até profanação...
— Eu não o sentei nem tampouco o vesti.
— Está sentado e de casaco, afirmou a "sabina". Está sentado, muito teso, com as pernas esticadas e os braços na mesa. Parece até que está escrevendo.
— É a mão do finado, disse o Neiva e a "sabina" continuou:
— Eu fui em cima dele no escuro e, tateando, senti a dureza dos ossos, depois uma coisa redonda, lisa, gelada que parecia uma melancia. Desconfiada, pedi ao senhor Ruy Vaz que riscasse um fósforo e, quando ele riscou... Nossa Senhora! Escondi o rosto nas mãos, aterrada. Por que não mandam enterrar aquilo?
É de seu pai?
— Não, senhora, aquilo é a base da ciência.
— Que ciência! Aquilo é osso de defunto. Ainda se fosse de algum parente seu, mas não sendo... Deus me livre de ter uma coisa daquelas no quarto, perto de minha cama. Até era capaz de vir uma noite dormir comigo! Cruzes!
— Isso não, cabocla, disse o Neiva: o esqueleto deu baixa. Àquele é que tu não apanhas. Contenta-te com a carne, filha, não queiras ainda roer os ossos. — Deus me livre de voltar aqui!...
Eram dez horas da manhã, o sol entrava em grandes jorros pela sala quando o Duarte, espreguiçando-se, bocejou alto; vendo, porém, a luz, ergueu-se de um salto do monte de jornais que lhe haviam servido de leito, bradando pelo Martins:
(continua...)
POMPÉIA, Raul. A conquista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16594 . Acesso em: 6 abr. 2026.