Por Raul Pompéia (1880)
Inútil é dizer que Eustáquio esquecera a sua situação quase desesperada, o meio de salvação que ele resolvera tentar, tudo, só para entregar-se a sua dor. Quem o visse prostrado, com uma das mãos de Branca colada aos lábios, as feições alteradas pelo desespero, os olhos fechados, mas enxutos ainda, não reconheceria nele o enérgico homem que fora o subdelegado de S. João do Príncipe. Aos pés do leito soluçava Rosalina, orando de joelhos. Entretanto o padre Jorge examinara as feridas de Branca e as refrescava com água fria trazida pelo paraense, que nessa ocasião carregava algumas armas, olhando, ora tristemente para a jovem ferida, ora com ferocidade para o lado da cozinha, cuja porta via fender-se sob os golpes dos bandidos.
Branca deu um gemido quase imperceptível e abriu os olhos.
— Oh! gritou Eustáquio, levantando-se de um pulo e segurando o braço do padre Jorge. Está viva! Não morreu não! Deus não quis matá-la. Ah! se ela morresse eu seria um réprobo. Ela morreria por minha causa!... Padre Jorge, ela coitada queria fugir e eu... miserável!... me opus! Me opus!... ali está a minha obra!...
O pobre homem apontou para a esposa. Depois, inclinando-se para ela exclamou:
— Mas tu não morrerás, não, Branca! Deus não será tão cruel para mim!...
E dos seus olhos irromperam as lágrimas, que até então se tinham recusado a conceder-lhe alívio ao sofrimento.
Branca encarava-o com doçura, ao passo que trocava com Rosalina infinitos beijos. A menina já a considerava salva.
O padre Jorge, que conhecia o estado da ferida e se lembrava dos malfeitores, não teve forças para fingir que estava também satisfeito. Afastou-se do leito de Branca e o paraense pode perceber que ele se arredara para chorar.
Com os olhos cheios de lágrimas, que lhe foi impossível conter, o sacerdote entrou na alcova da sala e deu uma volta pelo aposento. De passagem viu no seu berço o filho de Eustáquio, dormindo tranqüilamente. As pancadas incessantes com que os bandidos abalavam a porta da cozinha não perturbavam o sono do inocente.
— Pobre anjinho! disse consigo mesmo.
Antes de deixar a alcova, deparou com uma cruz. Apoiou os cotovelos sobre o móvel em que ela se achava e estas palavras rebentaram-lhe do peito:
— Por que não os salvais, meu Deus?!
E depois:
— Otávio, então desapareceste?!
Ao aproximar-se de novo da mulher de Eustáquio, o padre Jorge teve uma visão desagradável.
Apenas as frestas das janelas davam a fraca claridade que havia no interior da casa. Uma destas frestas projetava no soalho uma zona branca de luz, que ia bater no semblante lívido do cadáver do bandido que o paraense trouxera do roseiral. Aquele rosto, com a boca arregaçada pela última contração da morte, parecia sorrir de escárnio ante as cenas que se passavam na sala!
Desviou os olhos daquilo e, vendo Branca mover apressadamente as pálpebras, o padre pensou que ela queria dizer alguma cousa e abaixou-se para ouvi-la.
— Meu padre, disse ela, eu vou morrer... quero me confessar.
Por mais baixa que fosse a voz de Branca ao dizer essas palavras não deixou de ser percebida por Eustáquio, nem pela sua protegida.
A declaração de Branca fez voltar-lhes o desespero do ânimo.
— Não chorem, pediu-lhes a moribunda, eu vou para Deus...
O padre foi à alcova buscar a cruz que lá vira. Quando ia voltar ouviu um estrondo assustador. A porta da cozinha desabara afinal. Os bandidos tinham aberto passagem. Os seus passos ressoaram no corredor central da casa.
— Oh! está tudo acabado, disse com tristeza o padre.
E, empunhando a cruz, precipitou-se na sala.
O paraense, com admirável presteza e grande risco, fechara a porta que havia na entrada do corredor, e, afrontando as balas dos malfeitores, levantara novo obstáculo diante deles.
Este obstáculo, porém, era insignificante. Em poucos momentos devia chegar o desenlace do drama.
Enquanto isto tinha lugar, junto do leito de Branca era doloroso o que se via.
A infeliz moça agonizava. Debruçados sobre ela, como se pretendessem abrigá-la dos golpes do anjo da morte, Eustáquio e Rosalina pediam a Branca que não morresse... Mas não era possível. A moribunda, por um esforço supremo, ergueu os braços, querendo enlaçar os que regavam de lágrimas ardentes as suas faces resfriadas... os braços caíram-lhe como se de um só golpe houvessem sido decepados...
Exalou um gemido prolongado, e, de envolta com o seu estertor extremo, balbuciou:
— Meu filho!
Nesse momento chegou o padre Jorge. Era já tarde. Eustáquio e Rosalina apenas abraçavam então um corpo que o frio da morte conquistava com rapidez.
O barulho da queda da porta arrombada pelos malfeitores acordara o filho de Eustáquio. Os vagidos da criança respondiam ao apelo derradeiro da sua mãe.
(continua...)
POMPÉIA, Raul. Uma tragédia no Amazonas. Rio de Janeiro: Typ. Cosmopolita, 1880. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17442 . Acesso em: 6 abr. 2026.