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#Poemas em verso#Literatura Brasileira

Inspirações da tarde

Por Bernardo Guimarães (1858)

Evoé! — Peian! — cantemos.

(C. Semedo)

Convivas do prazer, vinde comigo

Ao folgar dos festins; — encham-se as taças,

Afine-se o alaúde.

Salve, ruidosos hinos desenvoltos!

Salve, tinir dos copos!

Festas de amor, alegres algazarras

De ebritroante bródio!

Salve! co'a taça em punho eu vos saúdo!

Beber, cantar e amar eis, meus amigos,

Das breves horas o mais doce emprego;

O mais tudo é quimera... o ardente néctar

No brilhante cristal férvido espume,

E verta n'alma encantador delírio

Que a importuna tristeza longe espanca,

E alenta o coração para os prazeres.

Pra levar sem gemer à fatal meta

Da vida o peso, vinde em nosso auxílio,

Amor, poesia e vinho.

Ferva o delírio ao retinir dos copos,

E entre ondas de vinho e de perfumes,

Se evapore em festivos ditirambos.

É doce assim viver! — ir desfolhando,

Descuidado e a sorrir, a flor dos anos,

Sem lhe contar as pétalas, que fogem

Nas torrentes do tempo arrebatadas:

É doce assim viver-se a vida é sonho,

Seja um sonho de rosas.

Quero deixar de minha vida as sendas

Juncadas das relíquias do banquete;

Frascos vazios, machucadas flores,

Grinaldas pelo chão, cristais quebrados,

E entre murchos festões roto alaúde,

Que reboando balanceia ao vento,

Lembrando amores que cantei na vida,

Sejam de meu passar por sobre a terra

Os únicos vestígios.

Antes assim, do que passar os dias,

— Qual feroz caímã, guardando o ninho,

Inquieto a vigiar avaros cofres,

Onde a cobiça aferrolhou tesouros

Colhidos entre as lágrimas do órfão

E as ânsias do faminto.

Antes assim, do que sangrentos louros

Ir pleitear nos campos da carnagem,

E ao som de horríveis pragas e gemidos,

Passar deixando após um largo rio

De lágrimas e sangue.

Antes assim... mas quem aqui vos chama,

Importunas idéias? — por que vindes

Mesclar voz agoureira

Das meigas aves aos mimosos quebros?

Vinde vós, do prazer risonhas filhas,

De ebúrneo colo, torneados seios,

Flores viçosas dos jardins da vida,

Vinde, ó formosas, bafejai perfumes

Sobre estas frontes, que em delírios ardem,

Vozes casai da citara aos arpejos,

E ao som de meigos, deleixados cantos,

Ao quebrado languor dos olhos lindos,

Ao mole arfar dos mal ocultos seios,

Fazei brotar nos corações rendidos

Os férvidos anelos, que despontam

Nos vagos sonhos d'alma, bafejados

De fagueira esperança, e são tão doces!...

Talvez mais doces do que os gozos mesmos

Seja harmonia o ar, flores a terra,

Amor os corações, os lábios risos,

Para nós seja o mundo um céu de amores.

II

Je veux rêver, et non pleurer! (Lamartine)

Mas é já tempo de depor as taças:

Que este ardente delírio, que inda agora

Ao som de soltos hinos

Tripudiava n'alma, vai de manso

Para os lânguidos sonhos descambando,

Sonhos divinos, quais só tê-los sabe

Ditoso amante, quando a fronte inclina

No regaço da amada, e entre as delícias

De um beijo adormecera.

Basta pois, — que o prazer não só habita

Na mesa dos festins, entre o alvoroço

De jogos, danças, músicas festivas...

Vertei, ó meus amigos,

Vertei também no cíato da vida

Algumas gotas de melancolia;

Cumpre também banquetear o espírito,

Na paz e no silencio inebriá-lo

Cos místicos aromas que se exalam

Do coração, nas horas de remanso:

Na solidão, ao respirar das auras

Se acalme um pouco o férvido delírio

Dos atroados bródios.

E ao túmulo suceda a paz dos ermos

Bem como a noite ao dia!

Quanto é grato depois de ter sumido

Largas horas em risos e folguedos,

Deixando estanque a taça do banquete,

Ir respirar o hálito balsâmico

Que em torno exalam flóridas campinas,

E reclinado à' sombra da mangueira

Fruir em solidão esse perfume

De tristeza, de amor e de saudade,

Que em momentos de plácido remanso

Do mais íntimo d'alma se evapora!

Vertei, brisas, vertei na minha fronte

Com macio murmúrio alma frescura;

Fagueiras ilusões, vinde inspirar-me;

Aéreos cantos, quérulos rumores,

Doces gorjeios, sombras e perfumes,

Com risonhas visões vinde embalar-me,

E adormecei minh'alma entre sorrisos.

Longe, bem longe destes doces sítios

O torvo enxame de cruéis pesares...

(continua...)

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