Por Machado de Assis (1864)
TOMÉ
Mais dois vestidos?
ELISA
Dois...
Comprei lá este leque e estes grampos. Depois,
Para não demorar. corri do mesmo lance,
A provar o vestido em casa da Clemence.
Ah! Se pudesse ver como me fica bem!
O corpo é uma luva. Imagina que tem...
TOMÉ
Imagino, imagino. Olha, tu pões-me tonto Só com a descrição; prefiro vê-lo pronto.
Esbelta, como és, hei de achá-lo melhor
No teu corpo.
ELISA
Verás, verás que é um primor.
Oh! a Clemence! aquilo é a primeira artista!
TOMÉ
Não passaste também por casa do dentista?
ELISA
Passei; vi lá a Amália, a Clotilde, o Rangel, A Marocas, que vai casar com o bacharel
Albernaz...
TOMÉ
Albernaz?
ELISA
Aquele que trabalha
Com o Gomes. Trazia um vestido de palha...
TOMÉ
De palha?
ELISA
Cor de palha, e um fichu de filó,
Luvas cor de pinhão, e a cauda atada a um nó
De cordão; o chapéu tinha uma flor cinzenta,
E tudo não custou mais de cento e cinqüenta,
Conversamos do baile; a Amália diz que o pai
Brigou com o Dr. Coutinho e lá não vai.
A Clotilde já tem a toilette acabada.
Oitocentos mil-réis.
O NARIZ (baixo a Tomé)
Senhor, uma pitada!
TOMÉ (com intenção, olhando para a caixa)
Mas ainda tens aí uns pacotes...
ELISA
Sabão;
Estes dois são de alface e estes de alcatrão.
Agora vou mostrar-te um lindo chapelinho
De sol; era o melhor da casa do Godinho.
TOMÉ (depois de examinar)
Bem.
ELISA
Senti, já no bonde, um incômodo atroz.
TOMÉ (aterrado)
Que foi?
ELISA
Tinha esquecido as botas no Queirós.
Desci; fui logo à pressa e trouxe estes dois pares;
São iguais aos que usa a Chica Valadares.
TOMÉ (recapitulando)
Flores, um peignoir, botinas, renda e véu.
Luvas e gorgorão, fichu, plissé, chapéu,
Dois vestidos de linho, os galões para a saia,
Chapelinho de sol, dois metros de cambraia
(Levando os dedos ao nariz)
Vamos agora ver a compra do Tomé.
ELISA (com um grito)
Ai Jesus! esqueceu-me o bote de rapé!
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. O bote de rapé. In: ______. Crisálidas. Rio de Janeiro: Paula Brito, 1864.