Por Machado de Assis (1876)
D. CARLOTA — Mamãe ia-me falando da Grécia, do céu da Grécia, dos monumentos da Grécia, do rei da Grécia; toda ela é Grécia, fala como se tivesse estado na Grécia.
D. ADELAIDE — Você quer ir conosco para lá?
D. CARLOTA — Mamãe não há de querer.
D. ADELAIDE — Talvez queira. (Mostrando-lhe as gravuras do livro) Olhe que bonitas vistas! Isto são ruínas. Aqui está uma cena de costumes. Olhe esta rapariga com um pote...
MAGALHÃES, à janela — Cavalcante aí vem.
D. CARLOTA — Não quero vê-lo.
D. ADELAIDE — Por que?
D.CARLOTA — Agora que passou o medo, posso rir-me lembrando a figura que ele fazia.
D. ADELAIDE — Eu também vou.
(Saem as duas; Cavalcante aparece à porta, Magalhães deixa a janela). Cena IV
Cavalcante e Magalhães
MAGALHÃES — Entra. Como passaste a noite?
CAVALCANTE — Bem. Dei um belo passeio; fui até o Vaticano e vi o papa. (Magalhães olha espantado). Não te assustes, não estou doido. Eis o que foi: o meu cavalo ia para um lado e o meu espírito para o outro. Eu pensava em fazer-me frade; então todas as minhas idéias vestiram-se de burel2, e entrei a ver sobrepelizes3 e tochas; enfim, cheguei a Roma, apresentei-me à porta do Vaticano e pedi para ver o papa. No momento em que Sua Santidade apareceu, prosternei-me, depois estremeci, despertei e vi que o meu corpo seguira atrás do sonho, e que eu ia quase caindo.
MAGALHÃES — Foi então que a nossa prima Carlota deu contigo ao longe.
CAVALCANTE — Também eu a vi, e, de vexado, piquei o cavalo.
MAGALHÃES — Mas então, ainda não perdeste esta idéia de ser frade?
CAVALCANTE — Não.
MAGALHÃES — Que paixão romanesca!
CAVALCANTE — Não, Magalhães; reconheço agora o que vale o mundo com suas perfídias e tempestades. Quero achar um abrigo contra elas; esse abrigo é o claustro. Não sairei nunca da minha cela, e buscarei esquecer diante do altar...
MAGALHÃES — Olha que vais cair do cavalo!
CAVALCANTE — Não te rias, meu amigo!
MAGALHÃES — Não; quero só acordar-te. Realmente, estás ficando maluco. Não penses mais em semelhante moça. Há no mundo milhares e milhares de moças iguais à bela Dolores.
CAVALCANTE — Milhares e milhares? Mais uma razão para que eu me esconda em um convento. Mas é engano; há só uma, e basta.
MAGALHÃES — Bem; não há remédio senão entregar-te à minha tia.
CAVALCANTE — À tua tia?
MAGALHÃES — Minha tia crê que tu deves padecer de alguma doença moral, — e adivinhou, — e fala de curar-te. Não sei se sabes que ela vive na persuasão de que cura todas as enfermidades morais.
CAVALCANTE — Oh! eu sou incurável!
MAGALHÃES — Por isso mesmo deves sujeitar-te aos seus remédios. Se te não curar, dar-te-á alguma distração, e é o que eu quero. (Abre a charuteira, que está vazia) Olha, espera aqui, lê algum livro; eu vou buscar charutos.
(Sai; Cavalcante pega um livro e senta-se).
2 Hábito de frade, feito de pano grosseiro.
3 Veste branca, com ou sem rendas, que os padres usam sobre o hábito.
Cena V
Cavalcante, d. Carlota, aparecendo ao fundo
D. CARLOTA — Primo... (Vendo Cavalcante) Ah! perdão!
CAVALCANTE (erguendo-se) — Perdão de quê?
D. CARLOTA — Cuidei que meu primo estava aqui; vim buscar um livro de gravuras da prima Adelaide; está aqui...
CAVALCANTE — A senhora viu-me passar a cavalo, há uma hora, numa posição incômoda e inexplicável.
D. CARLOTA — Perdão, mas...
CAVALCANTE — Quero dizer-lhe que eu levava na cabeça uma idéia séria, um negócio grave.
D. CARLOTA — Creio.
CAVALCANTE — Deus queira que nunca possa entender o que era! Basta crer. Foi a distração que me deu aquela postura inexplicável. Na minha família quase todos são distraídos. Um dos meus tios morreu na Guerra do Paraguai, por coisa de uma distração; era capitão de engenharia...
D. CARLOTA — O! não me fale!
CAVALCANTE — Por quê não pode tê-lo conhecido.
D. CARLOTA — Não, senhor; desculpe-me, sou um pouco tonta. Vou levar o livro à minha prima.
CAVALCANTE — Peço-lhe perdão, mas...
D. CARLOTA — Passe bem. (Vai até a porta).
CAVALCANTE — Mas, eu desejava saber...
D. CARLOTA — Não, não, perdoe-me. (Sai).
Cena VI
Cavalcante, só
CAVALCANTE — Não compreendo; não sei se a ofendi. Falei no tio João Pedro, que morreu no Paraguai, antes dela nascer...
Cena VII
Cavalcante, d. Leocádia
D. LEOCÁDIA, ao fundo, à parte — Está pensando (Desce). Bom-dia, dr. Cavalcante.
CAVALCANTE — Como passou, minha senhora?
D. LEOCÁDIA — Bem, obrigada. Então meu sobrinho deixou-o aqui só?
CAVALCANTE — Foi buscar charutos, já volta.
D. LEOCÁDIA — Os senhores são muito amigos.
CAVALCANTE — Somos como dois irmãos.
(continua...)
ASSIS, Machado de. Não consultes médico. Jornal das Famílias. Rio de Janeiro, 1876.