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#Contos#Literatura Brasileira

Nem uma nem outra

Por Machado de Assis (1862)

Dizendo isto, o capitão fitava os olhos do rapaz cuidando ver neles uma curiosidade misturada de alegria. Viu a curiosidade, mas não viu a alegria. Não se perturbou, e continuou:

— Teu pai, que era meu irmão, incumbiu-me de velar por ti, e fazer-te feliz. Até aqui tenho cumprido o que prometi, porque sendo mais feliz na corte, não te forcei a ir viver comigo na fazenda; e quando quiseste ter um emprego, esse que tens agora, hás de lembrar-te que alguém to ofereceu.

— É verdade.

— Pois bem, foi por iniciativa minha.

— Ah! foi meu tio?

— Pois então? disse o velho, batendo-lhe na perna a rir; cuidavas que eu ignorava o teu emprego? Se eu mesmo to dei; e mais, tenho indagado do teu comportamento na casa, e sei que é exemplar. Já por três vezes mandei dizer ao teu patrão que te desse licença por algum tempo, e ele mesmo, segundo me consta, falou-te nisso, mas tu recusaste.

— É verdade, meu tio, respondeu Vicente; e eu não sei como lhe agradeça...

— O haveres recusado visitar-me?

— Confesso que...

— Compreendo o motivo; os rapazes da corte — as delicias de Cápua, como diz o vigário Tosta — eis a causa.

Vicente caía das nuvens com todas estas notícias que lhe dava o capitão, ao passo que o capitão ia desenrolando-se sem intenção de afrontar nem censurar o rapaz... O capitão era um bom velho; compreendia a mocidade, e desculpava-lhe tudo. — Ora bem, continuou ele, quem fez tanto por ti, entende que é chegado o momento de fazer-te feliz de outra maneira.

— Qual maneira? perguntou Vicente curioso e ao mesmo tempo assustado com o gênero de felicidade que lhe anunciava o tio.

— De uma maneira tão velha como Adão e Eva, o casamento. Vicente empalideceu; esperava tudo, menos o casamento. E que casamento seria? O velho não disse mais nada; Vicente gastou alguns minutos em formular uma resposta, que seria ao mesmo tempo une fin de non recevoir.

— Que achas? respondeu finalmente o velho.

— Acho, respondeu resolutamente o rapaz, que meu tio é em extremo bondoso comigo em me propor o casamento para minha felicidade. Com efeito, parece que o casamento é o remate natural da vida, e por isso aceito com braços abertos a sua idéia. O velho sorria de contentamento, e ia já abraçá-lo quando o sobrinho acabou o discurso.

— Mas, acrescentou Vicente, a dificuldade está na esposa, e eu por enquanto não amo a ninguém.

— Não amas a ninguém? disse o velho deitando-se; mas então cuidas que eu vinha à corte só para te propor um casamento? Trago duas propostas — a do casamento e a da mulher. Não amas a mulher? Hás de vir a amá-la, porque ela já te ama. Vicente estremeceu; a questão agora tornava-se mais complicada. Ao mesmo tempo a idéia de ser amado sem que ele soubesse nem tivesse feito nenhum esforço, era uma coisa que lhe sorria à vaidade. Entre estes dois sentimentos contrários, o rapaz achou-se embaraçado para dar uma resposta qualquer.

— A mulher que te destino e que te ama, é minha filha Delfina.

— Ah! a prima? Mas ela é criança...

— Era há cinco anos; agora está com dezessete anos, e creio que a idade é própria para um consórcio. Aceitas, não?

— Meu tio, respondeu Vicente, eu aceitaria com muito prazer a sua idéia; mas, posto que eu reconheça toda a vantagem desta união, contudo, não quero fazer uma moça infeliz, e é o que pode acontecer se eu não amar minha mulher.

— Dar-lhe-ás pancadas?

— Oh! perdão! disse Vicente, não sem esconder um sentimento de indignação que lhe provocara a pergunta do velho. Mas não amando a uma pessoa que me ama, é fazê-la infeliz.

— Histórias da vida! disse o velho levantando-se e passeando pela sala; isto de amor em casamento é uma burla; basta que se estimem e se respeitem; é o que eu exijo e nada mais. Vê lá; em troca disso, dou-te a minha fortuna toda; bem sei que isto é o menos para ti; mas ter mulher bonita (porque Delfina é uma jóia), meiga, dócil, é uma fortuna que só um pateta pode recusar...

— Eu não digo que...

— Um pateta, ou um estouvado, como tu; um estouvado, que abandonou a casa de comércio, em que se achava, por um capricho, uma simples desinteligência com o dono da casa... Olhas espantado para mim? É verdade, meu rico; soube de tudo isso: e é essa a razão de não saberes tu quando aqui cheguei. Creio ao menos que estarás empregado?

— Estou, balbuciou o moço.

O capitão estava já zangado com as recusas do sobrinho, e não se pôde conter; disse-lhe o que sabia. Vicente, que o cuidava iludido acerca da saída da casa em que estivera, recebeu a notícia como uma bala de 150.

O velho continuou a passear silencioso. Vicente deixou-se estar assentado sem dizer palavra.

(continua...)

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