Por Martins Pena (1844)
Maricota — Oh, essa é grande! Nisto justamente é que eu acho vantagem. Ora dize-me, quem compra muitos bilhetes de loteria não tem mais probabilidade de tirar a sorte grande do que aquele que só compra um? Não pode do mesmo modo, nessa loteria do casamento, quem tem muitas amantes ter mais probabilidade de tirar um para marido?
Chiquinha — Não, não! A namoradeira é em breve tempo conhecida e ninguém a deseja por mulher. Julgas que os homens iludem-se com ela e que não sabem que valor devem dar aos seus protestos? Que mulher pode haver tão fina, que namore a muitos e que faça crer a cada um em particular que é o único amado?Aqui em nossa terra, grande parte dos moços são presunçosos, linguarudos e indiscretos; quando têm o mais insignificante namorico, não há amigos e conhecidos que não sejam confidentes. Que cautelas podem resistir a essas indiscrições? E conhecida uma moça por namoradeira, quem se animará a pedi-la por esposa? Quem se quererá arriscar a casar-se com uma mulher que continue depois de casada as cenas de sua vida de solteira? Os homens têm mais juízo do que pensas; com as namoradeiras divertem-se eles, mas não se casam.
Maricota — Eu ta mostrarei.
Chiquinha — Veremos. Dá graças a Deus se por fim encontrares um velho para marido.
Maricota — Um velho! Antes quero morrer, ser freira... Não me fales nisso, que me arrepiam os cabelos! Mas para que me aflija?É-me mais fácil... Aí vem meu pai.(Corre e assenta-se à costura, junto à mesa)
CENA II
José Pimenta e Maricota. Entra José Pimenta com a farda de cabo-de-esquadra da Guarda Nacional, calças de pano azul e barretão — tudo muito usado.
Pimenta (entrando) — Chiquinha, vai ver minha roupa, já que estás vadia.
(Chiquinha sai) Está bem bom! Está bem bom! (Esfrega as mãos de contente)
Maricota (cosendo) — Meu pai sai?
Pimenta — Tenho que dar algumas voltas, a ver se cobro o dinheiro das guardas de ontem. Abençoada a hora em que eu deixei o oficio de sapateiro para ser cabo-deesquadra da Guarda Nacional! O que ganhava eu pela ofício? Uma tuta-emeia.Desde pela manhã até alta noite sentada à tripeça, metendo sovela daqui, sovela dacolá, cerol pra uma banda, cerol pra outra; puxando couro com as dentes, batendo de martela, estirando o tirapé - e na fim das cantas chegava apenas o jornal para se comer, e mal. Torno a dizer, feliz a hora em que deixei o ofício para ser cabo-de-esquadra da Guarda Nacional! Das guardas, das rondas e das ordens de prisão faço a meu patrimônio. Cá as arranjo de modo que rendem, e não rendem pouco... Assim é que é o viver; e no mais, saúde, e viva a Guarda Nacional e o dinheirinho das guardas que vou cobrar, e que muito sinto ter de repartir com ganhadores. Se vier alguém procurar-me, dize que espere, que eu já volto. (Sai)
CENA III
Maricota (só) — Tem razão; são milagres! Quando meu pai trabalhava pelo oficio e tinha um jornal certo, não podia viver; agora que não tem oficio nem jornal, vive sem necessidades. Bem diz o Capitão Ambrósio que os ofícios sem nome são os mais lucrativos. Basta de coser.(Levanta-se) Não hei-de namorar a agulheiro, nem casarme com a almofada. (Vai para a janela). Faustino aparece na porta ao fundo, donde espreita para a sala)
CENA IV
Faustino e Maricota.
Faustino — Posso entrar?
Maricota (voltando-se) — Quem é? Ah, pode entrar.
Faustino, entrando — Estava ali defronte na loja da barbeiro, esperando que teu pai saísse para poder ver-te, falar-te. amar-te, adorar-te, e...
Maricota — Deveras!
Faustino — Ainda duvidas? Para quem vivo eu, senão para ti? Quem está sempre presente na minha imaginação? Par quem faço eu todos as sacrifícios?
Maricota — Fale mais baixo, que a mana pode ouvir.
Faustino — A mana! Oh, quem me dera ser a mana, para estar sempre contigo! Na mesma sala, na mesma mesa, na mesma...
Maricota, rindo-se — Já você começa.
Faustino — E como hei-de acabar sem começar? (Pegando-lhe na mão:)
Decididamente, meu amor, não posso viver sem ti... E sem o meu ordenado.
Maricota — Não lhe creio: muitas vezes está sem me aparecer dous dias, sinal que pode viver sem mim; e julgo que pode também viver sem o seu ordenado, porque...
Faustino — Impossível!
Maricota — Parque o tenho visto passar muitas vezes por aqui de manhã às onze horas e ao meio-dia, o que prova que gazela sofrivelmente, que leva ponto e lhe descontam o ordenado.
Faustino — Gazear a repartição o modelo dos empregados? Enganaram-te.
Quando lá não vou, é ou por doente, ou por ter mandado
parte de doente...
(continua...)
PENA, Martins. O Judas em Sábado de Aleluia. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17002 . Acesso em: 28 jan. 2026.