Por Joaquim Manuel de Macedo (1869)
BRAZ – São invioláveis e sagradas; para mim elas fulguram pela irresponsabilidade. Não tenho notícia de costumes censuráveis, de educação falsa, e de erros de senhoras, que não provenham da influência masculina; na vida social os homens fazem-se, as senhoras são feitas; por conseqüência, pecado de senhora, penitência ao homem. Mas... não atassalhemos a sociedade: eu gosto de dar à língua; porém, a justiça deve começar por casa: a madrinha quer cortar na pele dos seus parentes?
VIOLANTE – É o teu ofício: mãos a obra!
BRAZ – Que tem que dizer de Casimiro? estaria rico, se não fosse esbanjador; mas que quer? há duas paixões em moda: é pecar no sexto e ainda em outro dos mandamentos da lei de Deus, e é regra de bom gosto que, quanto mais velho, mais pecador. Como Casimiro há tantos!...
VIOLANTE – É desmoralização! aqueles que deviam ensinar com o seu exemplo...
BRAZ – E ensinam, a pecar pelo menos. Mário não cuida em outra coisa:
namora, joga, extravagância, e disse: não; faz mais: passeia em cavalo de raça que é a ocupação das suas horas vagas.
VIOLANTE – E Clemência?
BRAZ – Inviolável e sagrada; para que lhe deram o nome de Clemência? não tem culpa de ser muito clemente; asseguram-lhe todos que é formosa; ora, o trabalho e a fadiga são nocivos à formosura, e, portanto, ela passa os dias a limpar e a delgaçar as unhas que usa crescidas, como a imperatriz da China; o pai se ufana de vê-la realçar-se nas sociedades; é lógico pois que ela despenda com vestidos e enfeites muito mais do que o vaidoso está no caso de gastar com a filha. Eu não vejo que censurar em Clemência.
VIOLANTE – Hás de repetir tudo isso diante deles.
BRAZ – Seria a milésima edição de uma obra, de que não se tivesse vendido um só exemplar das novecentas e noventa e nove; mas vire agora a folha e leia no verso: Casimiro é um negociante modesto, porém honradíssimo; Mário é generoso e sensível; Clemência é honesta, paciente e de ótimo caráter na vida doméstica; são três anjos pelos corações que parecem três diabos pela falta de juízo.
VIOLANTE – Por isso ralharei até rebentar ou corrigi-los.
BRAZ – Tratarei de preparar o meu luto; porque a madrinha rebenta.
VIOLANTE – Braz, é deles que hoje me preocupo; há na vida três idades: a idade em que se vive pelos outros, a idade em que se vive com os outros, a idade em que se vive para os outros; estou nesta última: aos sessenta e dois anos chegaram-me as nozes, quando já não tenho dentes; a minha riqueza é apenas um depósito, pertencerá a vocês mais tarde.
BRAZ – Que tentação! madrinha, não repita isso, que faz calafrios... as cócegas da herança são capazes de fazer-me ir conversar com algum químico sem consciência.
VIOLANTE – Ainda não fiz testamento.
BRAZ – É o que lhe vale: declaro-me inofensivo provisoriamente.
VIOLANTE – O gracejo é de mau gosto.
BRAZ – Gracejo! o caso é muito sério e os dois animais mais sérios deste mundo são o burro e o dinheiro; creio que foi por isso que se chamou burra a arca pecuniária.
VIOLANTE (Vendo Clemência.) – Até que enfim.
CENA III
VIOLANTE, BRAZ e CLEMÊNCIA, vestida com exageração da moda
BRAZ – Amanheceu.
CLEMÊNCIA – Engana-se; a hora é quase do crepúsculo da tarde. (Chega ao portão.)
BRAZ – Segue-se que me enganei na hora; mas não me enganei com o Sol: sinto que o crepúsculo preceda apenas ao ocaso.
CLEMÊNCIA – Não se aflija; há sóis que brilham também de noite. (Senta-se.)
VIOLANTE – Modéstia até aí! Clemência, o Braz está se divertindo contigo: tu mesma, se te julgasses formosa, como o Sol, não levarias tanto tempo a enfeitar-te diante do espelho.
CLEMÊNCIA – Que erro! só as feias fogem do espelho. O toucador tem encantos!... é claro que não falo de mim; quando, porém, uma moça bela e gentil, em pé, defronte do espelho, se embevece, contemplando a sua imagem, ao mesmo tempo que com suave e preguiçoso pente alisa as ondas de seus formosos cabelos, e admira o contraste da negrura deles com o marfim de seus ombros magníficos, e sorri de indizível satisfação que ainda se exalta com o reflexo da graça do seu riso, do mimo da sua boca, da brancura e pureza de seus dentes, da flama celeste, irresistível do seu olhar... é claro que não falo de mim... criatura feliz, privilegiada, rainha de corações... oh! o tempo corre e ela o não sente... as horas passam no gozo do êxtase... da bem aventurança da consciência...oh! o espelho é tão doce!... tão embriagador!... tão feiticeiro!... titia, às vezes eu fico aí presa manhãs... tardes inteiras...
BRAZ – É claro que ela não fala de si.
CLEMÊNCIA – Só conheço um enlevo igual a esse.
VIOLANTE – Juro que não será ocupação séria.
CLEMÊNCIA – É o baile, titia.
BRAZ – Ao menos é expansiva e franca: então o baile...
(continua...)
Romance de uma Velha. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2160 . Acesso em: 6 jan. 2026.