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#Romances#Literatura Brasileira

As Vítimas-Algozes

Por Joaquim Manuel de Macedo (1869)

A venda mostrava-se triste à beira da estrada, que em sua frente se alargava cerca de seis ou oito braças; tinha ao lado direito o brejal a estender-se para trás, e ao esquerdo e pegada à casa uma rude tranqueira de pau, dando entrada para um terreiro imundo, que se adiantava pouco além da cozinha. Não havia criação no terreiro; apenas a ele se recolhiam à noite um porco, que chafurdava na lama, e um casal de patos, que grasnavam no brejo. 

A venda se isolava na solidão, mas não longe de fazendas e sítios, que se anunciavam de madrugada pelo cantar dos galos, à tarde pelo mugir dos bois, à noite pelo latir dos cães. 

Os cavaleiros e viandantes que passavam às vezes durante o dia, não se lembravam nunca de chegar-se ou parar àquela venda desprezível, onde em compensação faziam sempre estação demorada os escravos carreiros ou tropeiros que iam ou voltavam, conduzindo gêneros. 

Entretanto, aquele teto miserável, albergue de vícios e torpezas, jamais se achava em abandono de fregueses. 

Há poucos anos, em um dia calmoso do mês de fevereiro, viam-se às três horas da tarde nessa venda certas figuras, formando um quadro quase constantemente ali observado com insignificantes modificações até a hora do negro concurso noturno. 

Para dentro do balcão estava um menino de doze anos, de pés no chão, vestido de calças e camisa que desde um mês não mudava, e cuja cor e qualidade do pano escapariam ao mais teimoso exame; era o caixeiro mandrião, e já perdido pela desmoralização, pela incontinência da palavra e pela convivência com os vadios e os escravos. À porta da venda via-se em pé a olhar a estrada um homem de meia-idade, cabeludo, amarelo, em mangas de camisa com o colarinho desabotoado, o peito à mostra, e calçando grandes tamancos: era o vendelhão. 

Em uma extremidade do balcão sentava-se um homem avelhantado, tendo as pernas pendidas, os pés descalços, os vestidos remendados, um velho chapéu de palha na cabeça, e ao peito uma viola, em que tocava de contínuo as músicas rudes dos fados. Na outra extremidade do balcão quatro sujeitos moços quase todos, um ainda imberbe, todos quatro mais ou menos miseravelmente vestidos, jogavam o pacau, rixando a todo momento, e não se poupando acusações de furtos e de fraude no jogo. 

Um último freguês enfim, figura sinistra, tendo olhos de tigre, boca, por assim dizer, sem lábios, e com imensa barba malcuidada, parecia dormir estendido em um banco de pau defronte do balcão. 

De espaço em espaço a aguardente inspirava o tocador de viola e animava os jogadores. 

Às quatro horas da tarde um cavalo, correndo à desfilada, veio estacar à porta da venda, pondo-se o cavaleiro de um salto no chão. 

O cavaleiro era um crioulo escravo ainda muito jovem. 

Oh!... O grande Simeão!... – exclamou o vendelhão, abraçando o escravo. 

Uma pinga que estou com muita pressa – disse este, e correu para dentro da venda. 

Simeão recebeu logo um copo cheio de aguardente, que bebeu de uma vez, atirando o resto à cara do menino, que o servira. 


 III 

Simeão devia ter vinte anos: era um crioulo de raça pura africana, mas cujos caracteres físicos aliás favoravelmente modificados pelo clima e pela influência natural do país onde nascera, não tinham sido ainda afeiados pelos serviços rigorosos da escravidão, embora ele fosse escravo. 

Havia em seus modos a expansão que só parece própria do homem livre: ele não tinha nem as mãos calejadas, nem os pés esparramados do negro trabalhador de enxada: era um escravo de cabelos penteados, vestido com asseio e certa faceirice, calçado, falando com os vícios de linguagem triviais no campo, mas sem a bruteza comum na gente da sua condição; até certo ponto, pois, aceito, apadrinhado, protegido e acariciado pela família livre, pelo amor dos senhores. 

A história de Simeão tem mil histórias irmãs até aos vinte anos, que ele conta; há de, portanto, trazer à memória mil histórias, como a sua, cheia de desgostos e de ressentimentos de ingratidão, que aliás, sem o pensar, os benfeitores cimentam. A história que vai seguir-se depois dos vinte anos talvez lembre alguma infelizmente mais ou menos semelhante, e cujo horror é somente um dos frutos e dos horrores da escravidão. 

Sementeira de venenosos espinhos, a escravidão não pode produzir flores inocentes. 

A história de Simeão ainda não criminoso é simples: muitos dos leitores deste romance a encontrarão realizada, viva, eloqüentemente exposta no seio de seu lar doméstico. 

(continua...)

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