Por Machado de Assis (1866)
As lamentações do filho de Hus, não só as entendi como me serviram de exemplo. Vi-o maldizer a hora do nascimento e assisti à resignação com que se lhe iluminou a alma e com que ele aceitou experiências do céu. Como ele amaldiçoei, e como ele me resignei. Aquelas páginas respiram consolações, aspirei nelas a tranqüilidade presente......
II
A viagem ao Rio de Janeiro tinha para mim um encanto; é que, embora perdesse os carinhos maternais e os passeios ao longo dos rios da minha província, vinha para uma capital desconhecida, onde, no meio da multidão, podia isolar-me e viver comigo e de mim. Os negócios de que vinha tratar dependiam de poucas relações, que eu inteiramente não estreitaria mais do que o necessário.
Fui morar em uma casa da Rua Direita com o meu criado João, caboclo do Norte, que me conhecia o gênio e sabia sujeitar-se às minhas preocupações.
A casa não era grande nem pequena; tinha duas salas, uma alcova, e um gabinete. Não tinha jardim. Ao manifestar o meu despeito por isso, acudiu João:
— Há jardins e passeios nos arredores, meu amo. Meu amo pode, sempre que quiser, ir passear pelo interior. E Petrópolis? Isso é coisa rica!
Consolei-me com a expectativa dos passeios.
Passei os primeiros dias a ver a cidade.
Vi muita gente boquiaberta diante das vidraças da Rua do Ouvidor, manifestando no olhar o mesmo entusiasmo que eu quando contemplava os meus rios e as minhas palmeiras. Lembrei-me com saudade das minhas antigas diversões, mas tive o espírito de não condenar aquela gente. Nem todos podem compreender os encantos da natureza, e a maioria dos espíritos só se nutrem de quinquilharias francesas. Agradeci a Deus não me ter feito assim. Não me detenho nas impressões que me causou a capital. Satisfiz a curiosidade e voltei aos meus hábitos e isolamento.
Dois meses se passaram sem novidade alguma. Iam bem os negócios que me trouxeram ao Rio, e eu contava voltar à província dentro em poucos meses.
Durante este primeiro período fui à Tijuca duas vezes. Preparava-me para ir a Petrópolis quando fui atacado de uma febre intermitente.
João chamou um médico da vizinhança, que me veio ver e conseguiu pôr-me são. O Magalhães era um belo velho. Ao vê-lo parecia-me estar diante de Abraão, tal era a sua fisionomia, e tal a moldura venerável de seus cabelos e barbas brancas. Sua presença, tanto como os remédios que me deu, serviu de curativo à minha doença. Quando vinha visitar-me levava horas e horas em conversa, interrogando-me sobre as mil particularidades de minha vida, com um interesse tão sincero, que não me dava lugar a negativa alguma.
O doutor era um velho instruído e tinha viajado muito. Era um prazer conversar com ele. Não me contava cenas da vida de Paris, nem aventuras de Hamburgo ou Baden-Baden. Falava-me do mar e da terra, mas no que o mar tem de mais solene e no que a terra tem de mais sagrado. O doutor pisara o solo da Lacedemônia e o solo de Roma, beijara o pó de Jerusalém, bebera a água do Jordão e rezara ao pé do Santo Sepulcro. Na terra grega foi acompanhado de Xenofonte, na terra romana de Tito Lívio, na terra santa de São Mateus e São João.
Eu ouvia as suas narrativas com um respeito e um recolhimento de poeta e de cristão. O velho falava com ar grave, mas afetuoso e ameno; contava as suas viagens sem pretensão, nem pedantismo. Aquela simplicidade dava-se comigo. Tal foi o motivo por que, terminada a moléstia, era eu já amigo do Magalhães.
Entrando em convalescença, julguei que era tempo de satisfazer as visitas do médico. Escrevi-lhe uma carta, incluí a quantia que julgava devida, e mandei pelo João à casa do doutor.
João voltou dizendo que o doutor, depois de hesitar, não quisera receber a carta, mas que se preparava para ir à minha casa.
E, com efeito, daí a pouco entrava-me em casa o Magalhães.
— Então quer brigar comigo? perguntou-me ele parando à porta. Fazem-se estas coisas entre amigos?
Minha resposta foi atirar-me aos braços do velho.
— Então! disse ele; já vai recuperando as cores da saúde. Está são... — Qual! respondi eu; ainda me sinto um pouco fraco...
— De certo, de certo. É que a doença o prostrou deveras. Mas agora vai indo pouco a pouco. Olha, por que não toma ares fora da cidade?
— Eu preparava-me para ir a Petrópolis quando caí doente. Irei agora. — Ah! ingrato!
— Por quê?
— Mas tem razão. Eu ainda nada lhe disse de mim. Pois, meu amigo, se eu lhe oferecesse casa em Andaraí... deixaria de ir a Petrópolis?
— Oh! meu amigo!
— Isto não é responder.
— Sim, sim, aceito o seu favor...
No dia seguinte, um carro nos esperava à porta. Deixei a casa entregue ao meu caboclo, a quem dei ordem de ir à casa do doutor, em Andaraí, três vezes por semana. Eu e o doutor entramos no carro e partimos.
(continua...)
ASSIS, Machado de. Felicidade pelo casamento. Jornal das Famílias, Rio de Janeiro, 1866.