Por Machado de Assis (1876)
— O seu Pedro, interrompeu o padre Sá, tem coração assaz largo para amar a duas mães; a senhora e a Igreja. A Igreja não obriga ninguém, mas aceita, chama e recebe os homens de boa vontade. Ora, eu tenho visto que há em seu filho tal ou qual tendência para a vida eclesiástica; estuda latim comigo, dou-lhe lições de teologia, que ele ouve com grande aproveitamento; pode seguir curso regular e estou que há de dar um bom padre. Está nas mãos de Deus e nas dele chegar a bispo.
As palavras do padre Sá causaram alguma estranheza em D. Emiliana, e a boa senhora não respondeu imediatamente. A educação que dera ao filho fora toda religiosa e pia; contudo, estava longe de supor-lhe tão claros sinais de vocação sacerdotal — isto quanto às antecedências. Quanto às conseqüências, não as pôde calcular logo; mas, além de recear que o filho não desse um bom sacerdote, como ela desejava que fosse, acrescia que tinha assentadas algumas idéias totalmente outras. Um seu irmão, comerciante de grosso trato, prometera-lhe admiti-lo na casa e fazê-lo sócio dentro de alguns anos. D. Emiliana era filha de negociante e viúva de negociante; tinha ardente desejo de continuar a dinastia comercial.
Ao cabo de alguns minutos de reflexão, respondeu ao padre Sá que teria imenso gosto em que o filho fosse consagrado ao serviço da Igreja, mas que, entretanto, era obrigada a consultar seu irmão, com quem planeara coisa diferente daquela.
— Conheço seu irmão, disse o padre, vi-o algumas vezes; estou persuadido de que dará resposta razoável.
— Nem lhe quero negar, continuou D. Emiliana, que não imaginava da parte de Pedro esse desejo de fazer-se padre...
— Pergunte-lho.
Pedro não esperou a pergunta; confessou que o padre Sá lhe dava lições de teologia e que ele gostava muito de as ouvir.
— Mas não quereria dizer a sua missa? perguntou o padre sorrindo benevolamente. — Queria, articulou Pedro.
Aceitou-se que a resposta seria dada alguns dias depois; ficando igualmente aprovado um aditivo de Pedro para que, independente da resposta, continuassem as lições teológicas do padre Sá. D. Emiliana aceitou o aditivo com este popular axioma: — O saber não ocupa lugar.
O padre Sá extraiu da caixa uma nova pitada e deu as boas noites à família, e mais as bênçãos do costume, sendo acompanhado até à porta pelas senhoras, e até à Gamboa, onde morava, pelo filho de D. Emiliana.
— Não quero violência, dizia em caminho o padre; examine-se ainda uma vez e diga-me depois se é resolução sua tomar ordens. O que eu quero é que me saia padre moral, instruído e religioso, entendeu? Parece-me que a sua vocação é essa, e cada um de nós deve seguir a vocação que Deus lhe dá.
Pedro deixou o padre Sá à porta da casa e voltou-se para a Rua do Livramento. Da praia, via a lua bater no mar, e ergueu os olhos para o céu coalhado de estrelas. A fronte ficou pensativa; e o moço parou durante alguns instantes. O que ele pensou, naquela ocasião, estando à beira do seu destino, não sei. Se a lua soube, não o segredou a pessoa nenhuma.
III
O padre Sá subiu as escadas da casa em que morava, depois de fechar a porta da rua, recebeu uma vela das mãos de um preto, seu criado, e foi direito ao gabinete, onde tinha os livros, a escrivaninha, uma rede e alguns móveis mais. Não tirou a batina; era o seu trajo usual, dentro ou fora de casa; considerava-a parte integrante da pessoa eclesiástica. O padre Sá tinha cinqüenta anos; era de estatura mediana, calvo, com alguns cabelos raros e brancos na nuca em volta da cabeça. Os olhos eram azuis, de um azul desmaiado, e ainda com muita luz, mas uma luz suave e penetrante, que dominava e atraía como o sorriso que lhe pairava freqüente nos lábios. Das palavras que lhe ouvimos, no capítulo antecedente, não conclua o leitor que o padre Sá não tinha alguma hora de bom humor na vida. Sua índole era jovial; mas ele sabia conciliar a natureza com a austeridade do cargo. Ria, e amiúde, mas um riso honesto e paternal, que era um encanto mais no sacerdote.
Sentou-se o padre em uma vasta cadeira rasa, tirou de cima da mesa o breviário e leu durante alguns minutos. Deram as nove no relógio da casa; veio o criado saber se o padre queria tomar chá; e recebendo resposta afirmativa, voltou pouco depois, trazendo lho em uma larga bandeja. O chá era para duas pessoas. Onde está o companheiro do padre? perguntaria a leitora, se não visse apontar à porta da saleta a figura risonha e esbelta de uma moça.
— Sua bênção, titio, disse a moça caminhando apressadamente para ele; — demorou-se mais do que me disse. Com um ar tão úmido! Aposto que ainda não descalçou os sapatos?
— Não, Lulu, nem é preciso, respondeu o padre Sá, pegando-lhe na mão. Estou afeito a temporais e umidades. Anda fazer o chá, que é tempo. Nove horas, não? — Deram agora.
Lulu aproximou-se da mesa e preparou o chá para o velho padre que a contemplava satisfeito e feliz.
— Veja se está bom de açúcar, disse ela entregando-lhe a xícara.
(continua...)
ASSIS, Machado de. Encher tempo. 1876.