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#Poemas em verso#Literatura Brasileira

Prosopopéia

Por Bento Teixeira (1601)

Porque, dado que a forma se me muda,

Em falar a verdade serei raso,

Que assim convém fazê-lo quem escreve,

Se à justiça quer dar o que se deve.



XXV

A fama dos antigos coa moderna

Fica perdendo o preço sublimado:

A façanha cruel, que a turva Lerna

Espanta com estrondo d’arco armado:

O cão de três gargantas, que na eterna

Confusão infernal está fechado,

Não louve o braço de Hércules Tebano.

Pois procede Albuquerque soberano.



XXVI

Vejo (diz o bom velho) que, na mente,

O tempo de Saturno renovado,

E a opulenta Olinda florescente

Chegar ao cume do supremo estado.

Ser de fera e belicosa gente

O seu largo distrito povoado;

Por nome ter Nova Lusitânia,

Das Leis isenta da fatal insânia.



XXVII

As rédeas ter desta Lusitânia

O grão Duarte, valoroso e claro,

Coelho por cognome, que a insânia

Reprimir dos seus, com saber raro.

Outro Troiano Pio, que em Dardânia

Os Penates livrou e o padre caro;

Um Públio Cipião, na continência;

Outro Nestor e Fábio, na prudência.



XXVIII

O braço invicto vejo com que amansa

A dura cerviz bárbara insolente,

Instruindo na Fé, dando esperança

Do bem que sempre dura e ‚ presente;

Eu vejo co rigor da tesa lança

Acossar o Francês, impaciente

De lhe ver alcançar uma vitória

Tão capaz e tão digna de memória.



XXIX

Ter o varão Ilustre da consorte,

Dona Beatriz, preclara e excelente

, Dous filhos, de valor e d’alta sorte.

Cada qual a seu Tronco respondente.

Estes se isentarão da cruel sorte,

Eclipsando o nome … Romana gente,

De modo que esquecida a fama velha

Façam arcar ao mundo a sobrancelha.



XXX

O Princípio de sua Primavera

Gastarão seu distrito dilatando,

Os bárbaros cruéis e gente Austera,

Com meio singular, domesticando.

E primeiro que a espada lisa e fera

Arranquem, com mil meios d’amor brando,

Pretenderão tirá-la de seu erro,

E senão porão tudo a fogo e ferro.



XXXI

Os braços vigorosos e constantes

Fenderão peitos, abrirão costados,

Deixando de mil membros palpitantes

Caminhos, arraiais, campos juncados;

Cercas soberbas, fortes repugnantes

Serão dos novos Martes arrasados,

Sem ficar deles todos mais memória

Que a qu’eu fazendo vou em esta História.



XXXII

Quais dous soberbos Rios espumosos,

Que, de montes altíssimos manando,

Em Tétis de meter-se desejosos,

Vem com fúria crescida murmurando,

E nas partes que passam furiosos

Vem árvores e troncos arrancando,

Tal Jorge d’Albuquerque e o grão Duarte

Farão destruição em toda a parte.



XXXIII

Aquele branco Cisne venerando,

Que nova fama quer o Céu que merque,

E me está com seus feitos provocando,

Que dele cante e sobre ele alterque;

Aquele que na Ida estou pintando,

Hierónimo sublime d’Albuquerque

Se diz, cuja invenção, cujo artifício

Aos bárbaros dar total exício.



XXXIV

Deste, como de Tronco florescente,

Nascerão muitos ramos, que esperança

Prometerão a todos geralmente

De nos berços do Sol pregar a lança.

Mas, quando virem que do Rei potente

O pai por seus serviços não alcança

O galardão devido e glória digna,

Ficarão nos alpendres da Piscina.



XXXV

Ó sorte tão cruel, como mudável,

Por que usurpas aos bons o seu direito?

Escolhes sempre o mais abominável,

Reprovas e abominas o perfeito,

O menos digno fazes agradável,

O agradável mais, menos aceito.

Ó frágil, inconstante, quebradiça,

Roubadora dos bens e da justiça!



XXXVI

Não tens poder algum, se houver prudência;

Não tens Império algum, nem Majestade;

Mas a mortal cegueira e a demência

Co título te honrou de Deidade.

O sábio tem domínio na influência

Celeste e na potência da vontade,

E se o fim não alcança desejado,

É por não ser o meio acomodado.



XXXVII

Este meio faltará ao velho invicto,

Mas não cometerá nenhum defeito,

Que o seu calificado e alto espírito

Lhe fará a quanto deve ter respeito.

Aqui Balisário, e Pacheco aflito,

Cerra com ele o número perfeito.

Sobre os três, ô a dúvida se excita:

Qual foi mais, se o esforço, se a desdita?



XXXVIII

(continua...)

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