Por José de Anchieta (1563)
vasta ciência, com a experiência longa do mundo,
e a arte da palavra bela. Arraigado no seio
traz um amor de Deus, santo, filial, verdadeiro
e a fé de Cristo jamais desmentida. No peito,
incendiado pelo sopro divino, ferve-lhe o zelo
de arrancar as almas brasílicas às cadeias do inferno.
Ó que faustoso sai, Mem de Sá, aquele em que o Brasil
te contemplou! quanto bem trarás a seus povos
abandonados! com que terror fugirá a teus golpes
o inimigo fero, que tantos horrores e tantas ruínas
lançou nos cristãos, arrastado de furiosa loucura!
Mas muitas lágrimas doridas a primeira refrega
custar-te-á. Nela tombará um filho querido
varado de setas, e tingirá as praias de sangue
inda jovem, lançando às auras o tênue sopro da vida.
Tu porém leva sempre ante os olhos a glória
do Pai celeste: nem males nem a desgraça te dobrem!
Para sempre a morte ser-lhe-á mãe da vida
com a bela alma acesa no amor da fé verdadeira
arrostará a morte que o sublimará à mansão da beleza.
Ainda as brônzeas proas não tinham ferrado
o litoral. Depois dos trabalhos do mar, muitos e vários,
deixaram a costa africana, zona que o sol esbraseia.
Ainda para lá, o céu adverso e as correntes marítimas
os retornam com fúria aos fustigos do vento:
enquanto ferozes guerras e cruéis injustiças,
causa de tantas dores, esperam a energia do chefe.
Lá ao longe, cultivam terra feraz uns poucos colonos,
Cingidos em redor de altos montes e praias rochosas,
por onde o Sul chuvoso solta as rédeas em fúria,
ergue ondas revoltas, envolve em névoas, mares e céus
e varre com turbilhões de nuvens os campos.
Deu à terra seu próprio nome o Espírito Santo.
Habitam-na portugueses. Guerras horrendas
desfecha sobre ela o Tamoio feroz: é este o nome
que a fera tribo herdou dos avós. Inúmeros danos
causa por toda a parte, talando as culturas em fruto
e arrebatando os homens. Afastam-se altivos com a presa
e fartam-se de sangue humano os ávidos ventres.
eis que se ajuntam, vindos de várias paragens,
em magotes cerrados, para arruinar para sempre
as aldeias cristãs, ferve-lhes nas veias a raiva
a louca paixão da guerra e o apetite da carne
humana, batem os corações em fúrias amentes.
Se o braço de Deus não impede esses aprestos ferozes
com o socorro celeste, senão dispensa essas tribos altivas
que vibram ao incêndio da guerra e ao faro do sangue,
em breve a ímpia guerra tudo terá conspurcado
e encharcada se verá a terra no sangue dos justos.
Transposto finalmente o oceano, fundeiam no porto.
Sabe então o valente chefe que cruas guerras se aprestam
contra os cristãos, tribos ferozes se insurgem
de toda a parte, decididas de uma vez para sempre
a ferir, matar, devorar a todos os brancos.
O primeiro cuidado do chefe foi erguer logo a mente
ao Pai celeste e revolvendo em silêncio todos esses sucessos
implorar para os sitiados o auxílio que desce
copioso do alto: pois a clemência onipotente, vencida
pela prece dos filhos, sobre eles se inclina piedosa.
Escolhe depois duas caravelas da armada
e manda equipá-las. Envia Fernão à peleja,
seu filho querido, ainda na primavera da vida,
jovem de coração varonil, alma plasmada
nos moldes paternos, enche-lhe o coração de conselhos,
e diz-lhe: “aprende, filho, desde os anos mais tenros,
a buscar no trabalho as virtudes e a glória,
não honras humanas: pois que haverá sobre a terra
capaz de encher-te a alma?” No coração insculpido
leva o nome de Deus, e, na chama da fé abrasado,
onde quer que apertem os trabalhos da guerra,
arroja o dique do peito à maldade furiosa.
Vês como gentes cruéis em hordas imensas preparam
aos Cristãos batalhas ferozes. De morte humilhante
ameaçam agora as cabeças dos pobres colonos,
quais tigres cruéis em redor da preia lanhada
sorvendo com fauces sedentas o sangue inocente.
Que esperança ou que alívio resta ainda aos sitiados?
Donde tirar auxílio? com que forças enfrentar inimigo
tão sanguinário? com que esforço, tão poucos
poderão repelir das aldeias as ondas que avançam?
Se é força buscar na fuga a salvação (vergonhoso
embora o proceder), se é força deixar ao selvagem
lares e férteis campos? lembra-te que mares profundos
tolhem a retirada, nem têm naus que sulquem as ondas
do pego irado, e salvem a vida pobres que tudo perderam.
(continua...)
ANCHIETA, José de. De gestis Mendi de Saa.