Por Padre Antônio Vieira (1670)
94. Contra o sofístico destas razões – que verdadeiramente tem muito da vaidade – parece que são mais sólidas as do ditame contrário. Tão vil é na mentira o sim, como honrado na verdade o não. A verdade – que por isso se pinta despida – não sabe encobrir, nem fingir, nem enfeitar, nem corar, e muito menos enganar; e a primeira virtude do trono, ou seja, da justiça ou da graça, é a verdade. Todo o artifício é coisa mecânica, e não nobre, quanto mais real. O sol abranda a cera e endurece o barro, porque obra conforme a disposição dos sujeitos; mas em todos, e com todos descobertamente: por isso o calor é inseparável da luz. Importa distinguir o bastão do cetro. Os estratagemas não são para o despacho: sejam embora para a campanha, mas não para a corte, para os inimigos, e não para os vassalos. Saibam os pretendentes se podem esperar ou não, para que no fim não desesperem. Quem diz que é arte de não desgostar, não diz nem cuida bem. Melhor é dar um desgosto que muitos. Queixem-se de que os não satisfizeram, mas não possam dizer justamente que os enganaram. Se é dura palavra um não, mais duras são as boas palavras que suspendem e encobrem o mesmo não, até que o descobre o efeito. Quem fez o não tão breve, não quis que se dilatasse.
95. Pediu Filipe, rei de Macedônia, à República de Atenas o deixasse passar com o exército pelas suas terras, o que o senado lhe não quis conceder. E porque o estilo dos atenienses – que ainda hoje se chama estilo lacônico – era resumir tudo o que se havia de dizer às palavras mais breves, tomaram um grande pergaminho – que era o papel daquele tempo – e escreveram nele um não com tamanhas letras, que o enchia todo, e cerrado, e selado, esta foi a resposta que deram aos embaixadores de Filipe. É mui célebre nas histórias gregas este breve e grandíssimo não, mas na nossa Atenas ainda os há maiores. Tantas petições, tantas remissões, tantas provisões, tantas patentes, tantas certidões, tantas justificações, tantas folhas corridas, tantas vistas, tantas informações, podidas muitas vezes à Ásia, e à América, tantas consultas, tantas interlocutórias, tantas réplicas e tantas outras cerimônias e mistérios por escrito, a que não se sabe o número nem o nome; e ao cabo de quatro, de seis e de dez anos, ou o despacho, ou o que significa o despacho em meia resma de papel, é um não. Não fora melhor este desengano ao princípio? E as despesas deste injusto entretenimento, que se devem restituir nesta vida, ou se hão de pagar na outra, por cuja conta correm? Já que não haveis de fazer ao pretendente a mercê que pede, por que não lha fareis, ao menos, do que há de gastar inutilmente na pretensão? Ao outro que presentava o seu memorial, disse el-rei D. João Segundo, na primeira audiência, que não tinha lugar no que pedia, e ele beijou-lhe a mão. Entendestes-me? – replicou el-rei. – Senhor, sim, – Por que me beijais, logo, a mão? – Porque me fez Vossa Alteza mercê do dinheiro que trazia para gastar na corte, e agora o torno a levar para minha casa. – Estas são as mercês do desengano, e os despachos do não dito a seu tempo. Não o dizer será maior política, maior autoridade e decência; mas dizê-lo, em muitos casos é obrigação e consciência.
§III
Como evitar as ocasiões de dizer não? Primeiro meio: não conceder aos validos as suas petições, como o fez Deus quando castigou o povo de Israel. O não do Senhor à pretensão dos apóstolos. A petição de S. Paulo. Os dois gêneros de negações: as puras negações, e as privações.
96. Disputada assim problematicamente a nossa questão, de umas e outras razões de duvidar, se conclui com certeza que o não, sem ser coisa alguma, é como as outras coisas deste mundo, que todas têm seus bens e seus males, suas utilidades e seus inconvenientes. Para não cair, ou tropeçar nestes, que a cada passo se oferecem ou atravessam em tanta multidão de requerimentos, o primeiro cuidado ou cautela do prudente príncipe deve ser evitar, quanto for possível, as ocasiões de dizer não. Mas como se podem evitar ou atalhar estas ocasiões, sendo os pretendentes e as pretensões, os requerentes e os requerimentos tantos? Digo que fazendo com destreza e constância que sejam menos, e muito menos, e usando para isso dos meios que agora apontarei, e nos ensina o nosso Evangelho.
(continua...)
Fonte: VIEIRA, Padre Antônio. Sermão da Sexagésima. Disponível em: http://www.ep.com.br/livros_vest/sermoes.pdf . Acesso em: 26 ago. 2026.