Por Padre Antônio Vieira (1673)
Três coisas (dividamos o discurso para que declareinos e apartemos bem este ponto) três coisas fazem duvidosa, perigosa, e terrível a morte: ser uma, ser incerta, e ser momentânea. Estas são as três cabeças horrendas deste Cérbero, estas são as três gargantas por onde o inferno engole o um ndo. E de todas estas dificuldades e perigos se livra seguramente só quem? Quem não guarda a morte para a morte, quem acaba a vida antes de morrer; quem se resolve a ser pó antes de ser pó: Pulvis es.
§III
Primeira terrível condição da morte: ser uma. Razão da morte de Lázaro. Deus deixou o nascer à natureza e o morrer à eleição. O inferno, morte segunda para aqueles que só morrem uma só vez. A dupla morte das árvores.
Primeiramente é terrível e terrivelíssima condição da morte, ser uma: Statutum est hominibus semel mori.4 Hei de morrer, e uma só vez. A lei geral de Adão diz: Morte morieris: Morrerás (Gên. 2, 17). A glosa de S. Paulo acrescenta: Semel: Uma vez. E sendo a lei tão temerosa, muito mais terrível é a glosa que a mesma lei. Os males desta vida, quanto mais se multiplicam, tanto são maiores: Multiplicabo aerumnas tuas,5disse Deus a Eva. O maior mal da morte é não se poder multiplicar. Se a unidade da morte se multiplicara, e se pudera morrer mais de uma vez, apelara-se de uma para a outra. Quando Davi saiu a desafio com o gigante, meteu cinco pedras no surrão, porque se errasse a primeira pedrada, pudesse apelar para as outras pedras (1 Rs. 17,40). Todos havemos de sair a desafio com este grão-gigante, com este Golias da morte, mas o vencer ou não vencer, está em um só tiro. Quem disse: Non licet in bello bis errare, errou.6. Oque se erra em uma batalha, podese emendar na outra, e o que se perdeu em uma rota, pode-se recuperar em uma vitória: só a morte é aquela em que não é lícito errar duas vezes. Ergo erravimus (Sab. 5,6): Enfim erramos, – diziam depois de mortos aqueles que tinham dito pouco antes: Coronemus nos rosis, antequam marcescant (Sab. 2,8): Coroemonos de rosas, antes que se murchem. – Pois se errastes, por que não emendais o erro? Porque já não é tempo; somos mortos. Muito mais temerosa é nesta parte a morte do corpo que a morte da alma. Para a morte da vida espiritual há contrição, há penitência; para a morte da vida corporal não instituiu Deus sacramento, nem há remédio. Quem a errou uma vez, errou-a para sempre. A transmigração deste mundo para o outro não é como a transmigração de Pitágoras. Se a alma, depois de viver em um corpo, pudera animar outro, depois de o homem morrer a primeira vez em um ladrão, pudera morrer a segunda em um anacoreta. Mas quem uma vez morreu Judas, não lhe resta outra morte para morrer Paulo. Uma só morte, ou boa para sempre, ou má para sempre: Semel.
Não há dúvida que é terrível condição esta da morte. Mas para quem terrível? Para quem morre quando morre. Porém quem morre antes de morrer; zomba desta condição e ri-se desta terribilidade: Ridebit in die novissimo.7 Que se me dá a mim que a morte seja uma, se eu posso fazer que sejam duas? A morte não tem remédio depois, mas tem remédio antes. Constituisti terminos ejus, qui praeteriri non poterunt.8 Notai a palavra praeteriri. A morte é um termo que se não pode passar da parte dalém, mas pode-se antecipar da parte daquém. Não tem remédio depois, poque depois de uma morte não há outra morte; mas tem remédio antes, porque antes de uma morte pode haver outra. Por lei e por estatuto hei de morrer uma vez, mas na minha mão e na minha eleição está morrer duas, e este é o remédio. Morreu Lázaro, enterraram-no as irmãs, chegou Cristo ao sepulcro, e chorou. À vista destas lágrimas e da sepultura de Lázaro, admirados os circunstantes diziam: Non poterat hic, qui aperuit oculos coeci nati, facere ut hic non moreretur? (Jo. 11,37): Este que chora, não é o mesmo que deu a vista ao cego de seu nascimento? Sim. Pois como não impediu que morresse Lázaro? – Se chora, é seu amigo; se deu vista ao cego, é poderoso: é amigo e poderoso, e não faz por seu amigo o que pode? Se o podia sarar, por que o deixou morrer, e não fez o que podia? Não fez Cristo neste caso o que podia, porque nos quis ensinar com este caso a fazer o que podemos. Quis-nos ensinar Cristo a morrer duas vezes. Altamente Santo Agostinho: Ut unus homo semel nasci, et bis mori disceret. Deixou Cristo morrer a Lázaro, e não o quis sarar enfermo, senão ressuscitar morto, para que à vista deste exemplar (morrendo Lázaro agora, e tornando a morrer depois) – aprendessem e soubessem os homens, que nascendo uma só vez, podem morrer duas: Semel nasci et bis mori. Oh! divino documento do divino Mestre: Nascer uma vez, e morrer duas vezes!
(continua...)
Fonte: VIEIRA, Padre Antônio. Sermão da Sexagésima. Disponível em: http://www.ep.com.br/livros_vest/sermoes.pdf . Acesso em: 30 ago. 2026.