Por Gregório de Matos (1696)
Por entre pedras a fonte
percipita o seu cristal,
que lhas tira como louco,
quem o vê precipitar.
Convidou-me, a que bebesse
a neve do manancial,
e se a neve assim me abrasa,
o incêndio que fará.
Bebi, e não matei sede,
porque no inferno de amar
fui Tântalo, cuja pena
o beber acende mais.
Queira Amor, Brites ingrata,
que essa fonte, esse cristal
não seja o vosso perigo,
em que Narciso morrais.
Que, quem me matou na fonte
por seu gosto a meu pesar,
será despique de um cego,
e vingança de um rapaz.
INSISTE O POETA (VENDO ESTES DESAPEGOS DE BRITES EM O NÃO QUERER ADMITIR) PARA SER CORRESPONDIDO EM SEU AMOR, ARGUMENTANDO-LHE RIJAMENTE CAUTELLOSOS SILLOGISMOS MAS TUDO DEBALDE.
Tenho-vos escrito assaz,
e torno nesta ocasião
a escrever-vos pertinaz,
para ver se o tempo faz,
o que não pode a razão.
Que talvez de importunada,
muito mais que de rendida
cede a vontade obstinada
mais que à razão de adorada,
à força de perseguida.
Vós não me correspondeis,
porque haveis medo de amar,
e esses riscos, que temeis,
são falsos, pois bem podeis
agradecer sem pagar.
Agradecei-me não mais
verdes-vos idolatrada,
porque com leves sinais
a mais amor me empenhais,
e ficais desobrigada.
Isto tem a gratidão,
que escusa grandes despesas,
com uma demonstração,
gastando pouca afeição
se ganham muitas finezas.
Fazei comigo um assento
de amor, e seu galardão,
ganhareis cento por cento,
se entrais co agradecimento,
entrando eu com afeição.
Não sei, que mal vos esteja,
Senhora, o meu bem-querer,
e porque a Lua se veja,
tudo, o que quer bem, deseja
muitos bens, a quem bem quer.
Isto é, o que significa
querer bem, isso contém,
que quem a Amor se dedica,
ao sujeito, a quem se aplica,
quer bem, e deseja bem.
Para os que mal vos quiserem,
que lhes guarda, ou lhes prepara
vossa condição tão rara?
se àqueles, que bem vos querem,
mostrais desabrida a cara.
Estou por me arrepender
de adorar, a quem me mata,
porque se a ambos maltrata,
mau fim tenha o bem-querer,
que vos faz a vós ingrata.
Mas eu tenho averiguado,
que isto consiste na estrela,
e o que perde o meu cuidado,
porque vós sois Moça bela,
e eu velho mal estreado.
Não o tenhais a escarcéu,
que se às estrelas mais belas
levais ganhado o troféu,
depois que eu trato esse céu,
entendo muito de estrelas.
E pois com vosso crisol
se ilumina a esfera bela,
em seu azul arrebol
bem podereis vós, meu sol,
dar-me outra melhor estrela.
Servi-vos de apiedar-vos
deste triste sem ventura,
porque é certa conjetura,
que, quem pertende adorar-vos,
nem faz mal, nem mal procura.
REFORÇA O POETA SEUS ENGANOS PROTESTANDO, QUE QUER SOMENTE AMAR POR AMAR, SEM OUTRO GENERO DE GALARDÃO, OU INTERESSE.
1
Menina: estou já em crer,
que não é vosso rigor
crueldade: mas temor,
que tendes de vos render
hei de dar-vos a entender
por mais vos desenganar,
que só pertendo adorar
isento, e independente,
que o querer do pertendente
é mui distinto do amar.
2
Bem posso sem ser amado,
amar-vos, minha Senhora,
porque amor sempre melhora
o fino em o desgraçado:
no impossível adorado
está o afeto maior,
que quem aspira ao favor
em sua dor importuna,
faz lisonjas à fortuna,
e não serviços a Amor.
3
Se do meu conhecimento
nasceu a minha vontade,
não pague uma divindade
ter eu este entendimento:
que mais agradecimento
quer uma amante paixão,
que amar, e amar com razão?
e se é preciso querer
ao belo, porque há de ser
mérito a obrigação?
4
O amar correspondido
não é o mais perfeito amar,
que não se hão de equivocar
amante, e agradecido:
sempre contingência há sido
o rigor, ou a clemência
e se da correspondência
nascera sempre a vontade,
não fora Amor divindade,
porque o fosse a contingência.
5
Todo amante, que procura
ser em seu amor ditoso,
tem ambição ao formoso,
não amor à formosura:
quem idolatra a luz pura
da beleza rigorosa,
com fineza generosa
ame sempre desprezado,
porque o ser eu desgraçado,
não vos tira o ser formosa.
6
Não ser de vós admitido
acredita o meu cuidado,
logo a ser tão desprezado
devo estar agradecido:
rigores peço sofrido,
não clemência, nem piedade,
porque inútil é a vontade,
que deixa em sua fineza
pelos logros da beleza
respeitos da divindade.
(continua...)
MATOS, Gregório de. Brites. In: Obra poética. 3. ed. Rio de Janeiro: Record, 1992.