Por Gregório de Matos (1696)
2
Cuida o mundo, que são tuas
as sátiras, que acomodas,
suponho que a essas todas
pode chamar obras suas:
os rapazes pelas ruas
o andam publicando já,
e o mundo vaia te dá,
quando vê tal desengano
não te envergonhas, magano?
3
O soneto, que mandaste
ao Arcebispo elegante
é do Gôngora ao Infante
Cardeal, e o furtaste:
logo mal te apelidaste
o Mestre da poesia
furtando mais em um dia,
que mil ladrões em um ano:
não te envergonhas, magano?
4
Cuidas, que os outros não sabem?
O que sabes, é mui pouco,
e assim te gabas de louco
temendo, que te não gabem:
só nos ignorantes cabem
as asneiras, que em ti vemos,
pelas quais te conhecemos
seres das honras tirano:
não te envergonhas, magano?
5
Não há no mundo soldado,
cavalheiro, homem ciente,
que tu logo maldizente
não deixes vituperado:
porém dizes mal do honrado
ou por ódio, ou por inveja,
ou porque o teu gênio seja
fazer aos honrados dano:
não te envergonhas, magano?
6
Dizes mal alguma vez,
dos que não procedem bem;
mas dirás, que não convém,
por serem, como tu és:
dize do Pai, que te fez,
que bem tens, que dizer dele
o mal, que há na tua pele,
já que ninguém te acha humano:
não te envergonhas, magano?
7
Se com sátiras tu só
a todos desacreditas,
trazendo sempre infinitas
no forge de teu Avô:
como não temes, que o pó
te sacuda algum bordão:
pois sabes, que a tua mão
não pega obras de Vulcano!
não te envergonhas, magano?
8
Sendo Neto de um Ferreiro
trazes espada de pau,
nisso fazes, berimbau,
o adágio verdadeiro:
porém se em nada és guerreiro,
para que te chamas guerra,
e a fazes a toda a terra
co'a língua, que é maior dano?
não te envergonhas, magano?
9
Tua Avó, de quem tomaste
de Guerra o falso apelido
a um, e a outro marido
lhe fez de cornos engaste:
se temes, que te não baste
por agora, o que ela fez,
na tua cabeça vês
milhares deles cada ano:
não te envergonhas, magano?
10
Sendo casado em Lisboa,
achava logo qualquer
remédio em tua mulher,
e se provou, era boa:
a fama desta outra soa
não menos que na Bahia;
sendo tua não podia
deixar de ter gênio humano:
não te envergonhas, magano?
11
Pois é cousa bem sabida,
que o teu casamento sujo
veio por um Araújo,
que a tinha bem sacudida:
casou contigo saída
da casa dele, onde esteve
por sua amiga, e não deve
dizer alguém, que te engano:
não te envergonhas, magano?
12
Fazes, o que fez teu Pai,
porque a mesma fama cobres,
que por fazer bem a pobres
amou muito à tua Mãe:
na tua progênie vai
herdado como de ofício,
pois toma por exercício
dar carne ao gênero humano:
não te envergonhas, magano?
13
Tuas Irmãs se casaram
publicamente furtadas,
e há, quem diga, que furadas
d'outros, que se não declaram:
oh se as paredes falaram!
inda hoje bem poderias
ouvir várias putarias
de tanto caminho lhano:
não te envergonhas, magano?
14
Teu Pai foi outro Gregório
no pouco asseio, e limpeza,
de cuja muita escareza,
se lembra este território:
que andou roto com notório
escândalo, até fazer
o luto, que quis trazer
por certo Rei em tal ano:
não te envergonhas, magano?
15
De teus Irmãos te asseguro,
que têm sido na Bahia
um labéu da companhia,
outro sequaz do Epicuro:
mas ambos juntos te juro,
que em nenhum vício te igualam;
oh que de causas se falam,
e todas tanto em teu dano!
não te envergonhas, magano?
16
Dizes, que dos Pregadores
o sol é teu Irmão, quando
Vieira está-se aclamando
pelo melhor dos melhores?
dizes, que aos esfregadores
pode dar ele lições;
não sabes quantos baldões
tem sofrido pelo cano?
não te envergonhas, magano?
17
Diga esse Frade maldito,
se injuriado ficou,
quando co'a negra se achou
na mesma cama do Brito:
sei, que se ria infinito,
quando o Pintor lhe quis dar
depois de o injuriar,
vendo-o com a amiga ufano:
não te envergonhas, magano?
18
O que se riu numa festa,
dando ele satisfação
d'alma daquele sermão
publicou, que era mai besta:
e se tudo isto não presta,
para maior glória sua,
veja-se amando a Perua
que diz, que Eusébio é seu mano:
não te envergonhas, magano?
19
Se teu Irmão este é,
como é sol dos Pregadores?
e se tens erros maiores,
que nome é bem, que te dê?
lembra-te o quanto na Sé
escandalizou a todos
o pícaro dos teus modos,
arnando sempre o profano:
não te envergonhas, magano?
(continua...)
MATOS, Gregório de. Briga, briga. In: Obra poética. 3. ed. Rio de Janeiro: Record, 1992.