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#Sermões#Retórica

Sermão de Santo Inácio

Por Padre Antônio Vieira (1669)

Este é o modo universal com que Cristo faz a todos os santos. Mas a Santo Inácio, a quem quis fazer tão singular santo, fê-lo também por modo singular, podendo dizer dele em tão excelente sentido, como verdadeiro: In splendoribus sanctorum genui te. Cristo foi gerado nos resplendores de todos os santos, porque é o exemplar de todos os santos, e Inácio foi gerado nos resplendores de todos os santos, porque todos os santos foram o exemplar de Santo Inácio. Cristo não só santo, mas Santo dos santos, porque de sua imitação receberam todos os santos a santidade; e Inácio não só santo, mas santo dos santos, porque todos os santos concorreram a formar a santidade de Santo Inácio. Bem sei que é melhor exemplar Cristo só que todos os santos juntos, mas também sei que para ser santo, basta imitar um só santo que imitou a Cristo. Assim dizia S. Paulo a todos os que vieram depois dos apóstolos: Imitatores mei estote, sicut et ego Christi3. Mas Cristo, para formar a Santo Inácio, ajuntou as imitações de todos os santos, para que o imitasse ele só como todos.

Houve-se Deus na formação de Santo Inácio como zêuxis na pintura de Juno, deusa das deusas. Fez vir diante de si aquele famoso pintor todas as formosuras que então havia mais celebradas em Agrigentina, e imitando de cada uma a parte mais excelente de que as dotara a natureza, venceu a mesma natureza com a arte, porque ajuntando o melhor de cada uma, saiu com uma imagem mais perfeita que todas.4 Se assim sucedeu, foi caso e fortuna, mas não ciência, porque como a formosura consiste na proporção, ainda que cada uma das partes em si fosse de extremada beleza, todas juntas podiam compor um todo que não fosse formoso. Na formosura das virtudes é o contrário. Como todas as virtudes entre si são concordes e não podem deixar de fazer harmonia, de qualquer parte que sejam imitadas, sempre há de resultar delas um composto excelente e admirável, qual foi o que Deus quis formar em Santo Inácio. E aqui entra com toda a sua propriedade a versão do mesmo texto: In pulchritudinibus sanctorum genui te: Pôs Deus diante dos olhos a Inácio, estampados naquele livro, os mais famosos e os mais formosos originais da santidade, não de um reino ou de uma idade, senão de todas as idades e de toda a Igreja, e copiando Inácio em si mesmo, de um a humildade, de outro a penitência, de um a temperança, de outro a fortaleza; de um a paciência, de outro a caridade, e de todos e cada um aquela virtude e graça em que foram mais eminentes, saiu Inácio com quê? Com um Santo Inácio, com uma imagem da mais heróica virtude, com uma imagem da mais consumada perfeição, com uma imagem da mais prodigiosa santidade, enfim, com um santo, não semelhante e parecido a um só santo, senão semelhante e parecido a todos: Et vos similes hominibus.

Perguntou Cristo uma hora a seus discípulos: Quem dicunt homines esse Filium hominis (Mt. 26,13): Quem dizem os homens que sou eu? E responderam os discípulos: Alii Joannem Baptistam, alii vero Eliam, alii vem Jenemiam, aut unum ex prophetis: Senhor; uns dizem que sois o Batista, outros que sois Elias, outros que sois Jeremias, ou algum dos outros profetas e santos antigos. Notáveis pareceres dos homens, e mais notável o parecer de Cristo! Se Cristo se parecia com o Batista, como se parecia com Elias? Se se parecia com Elias, como se parecia com Jeremias? Se se parecia com Jeremias, como se parecia com o Batista? Nos outros santos e profetas antigos: Aut unum ex prophetis, ainda é maior a admiração, porque era maior o número e a diferença. Pois se Cristo era um só homem, como se parecia com tantos homens? Porque não só no natural, senão também no moral, como logo veremos, era feito à semelhança de muitos: In similitudinem hominum factus, et habitu inventus ut homo.5 Onde notas Bernardo, que disse o apóstolo: Hominum, non hominis. E se era feito à semelhança de muitos, que muito se parecesse com eles? Quem via a Cristo instituir o batismo, dizia: Este é o Batista: Alii Joannem Baptistam. Quem via a Cristo jejuar quarenta dias em um deserto, dizia: Este é Elias: Alii vero Eliam. Quem via a Cristo chorar sobre Jerusalém, dizia: Este é Jeremias: Alii vero Jeremiam. Do mesmo modo filosofavam os que diziam que era algum dos outros santos ou profetas antigos: Aut unum ex prophetis. Quem via a sabedoria admirável de Cristo, não estudada, senão intusa, dizia: Este é Salomão. Quem o via publicar lei nova em um monte, dizia: Este é Moisés. Quem o via converter os homens com parábolas, dizia: Este é Natã. Quem o via admitir os obséquios de uma mulher pecadora, dizia: Este é Oséias. Quem o via passar as noites em oração, dizia: Este é Davi. Quem o via aplaudido do povo e perseguido dos grandes, dizia: Este é Daniel. Quem o via sofrer as afrontas com tanta humildade, dizia: Este é Miquéias. Quem o via sarar os enfermos, e ressuscitar os mortos, dizia: Este é Eliseu. De maneira que a multidão e maravilha das obras, causava a diversidade das opiniões, e sendo Cristo na realidade um só homem, na opinião era muitos homens. Mas era muitos homens na opinião, sendo um só na realidade, porque verdadeiramente, ainda que era um, era feito à semelhança de muitos: In similitudinem hominum factus.

(continua...)

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