Por Padre Antônio Vieira (1657)
Começando pelo primeiro titulo, de ser a luz mais privilegiada, digo que é mais privilegiada a luz que o sol, porque o dia, que é a vida e a formosura do mundo, não o faz o nascimento do sol, senão o nascimento da luz. É advertência de Santo Ambrósio, e advertência que quis o grande doutor que soubéssemos que era sua: Advertimus quod lucis ortus, antequam solis, diem videatur aperire: Tenho advertido, diz Santo Ambrósio, que o que primeiro abre e faz o dia, é o nascimento da luz, e não o do sol6. Está esta grande máquina e variedade do universo coberta de trevas, está o mundo todo fechado no cárcere da noite, e qual é a chave que abre as portas ao dia? O sol? Não, senão a luz, porque ao aparecer do sol, já o mundo está patente e descoberto: Diem sol clarificat, lux facit: O sol faz o dia mais claro, mas a luz é a que faz o dia. E se não, vede, diz o santo: Frequenter coelum nubibus texitur, ut sol tegatur, nec ullus radius ejus appareat; lux tamen diem demonstrat: Quantas vezes acontece forrar-se o céu de nuvens espessas, com que não aparece o sol, nem o menor de seus raios, e contudo, ainda que não vemos o sol, vemos o dia. Por quê? Porque no-lo mostra a luz. Bem se segue logo que o dia, tão necessário e tão proveitoso ao mundo, é filho da luz, e não filho do sol.
Parece que tem alguma coisa de sofístico este discurso de Santo Ambrósio, porque sendo a luz efeito do sol, quem faz a luz faz o dia. Assim parece, mas não é assim. E quero dar uma prova valente a uma razão que parece fraca. Noutras ocasiões declaramos a Escritura com o santo; agora declararemos o santo com a Escritura. Diz Santo Ambrósio que o dia é filho da luz, e não do sol. Provo e pergunto: O sol, em que dia o criou Deus? Diz a Sagrada Escritura que criou Deus o sol ao dia quarto: Luminare majus, ut praeesset diei; et factum est dies quartus (Gên. 1, 16,19). Deus criou o sol ao dia quarto? Logo, antes de haver sol já havia dias. Antes de haver sol já havia dias? Logo o dia não é filho do sol. Pois de quem é filho? É filho da luz. O mesmo texto sagrado: In principio creavit Deus caelum et terram (Gên. 1,1): No princípio, antes de haver dia nem noite, nem tempo, criou Deus o céú e a terra. Et tenebrae erant super faciem abyssi: E o mundo todo estava sepultado em um abismo de trevas. Dixitque Deus, fiat lux, et facta est lux: Disse Deus, faça-se a luz, e foi feita a luz. Appellavitque lucem diem, et tenebras noctem: et factus est dies unus: E chamau Deus à luz dia, e às trevas noite, deste modo se fez o primeiro dia que houve no mundo (Gên. 1,2,3,5). De maneira, como bem dizia Santo Ambrósio, que o dia é filho da luz e não do sol; ao nascimento da luz e não ao do sol deve o mundo o beneficio do dia. O tempo ditosíssimo da lei da graça em que estamos é o dia do mundo; o tempo da lei da natureza e da lei escrita, que já passou, foi a noite.
Assim o diz S. Paulo: Nox praecessit, dies outem appropinquavit7. E quem foi a aurora que amanheceu ao mundo este dia tão alegre, tão salutífero e tão vital, senão aquela luz divina? O sol fez o dia mais claro, mas a luz, a que rompeu as trevas, a luz foi a que venceu e despojou a noite, a luz foi a que fez o dia: Diem sol clarificat, lux facit. Grande privilégio da luz sobre o sol, que ela e não ele, ou ao menos, que ela primeiro que ele, seja a autora do dia.
Mas eu, sem me sair do mesmo passo, ainda hei de dizer outro privilégio maior da mesma luz. Criou Deus a luz três dias antes de criar o sol. Tanto que houve sol no mundo, logo houve também olhos que o vissem e que gozassem de seus resplendores, porque o sol foi criado ao quarto dia, e as aves e os peixes ao quinto; os animais da terra e os homens ao sexto. De sorte que, como notou S. Basilio, todos os três dias em que a luz esteve criada antes da criação do sol, não havia olhos no mundo8. Pois se não havia olhos no mundo, para que criou Deus a luz? Que crie Deus o sol ao quarto dia, bem está; porque no quinto e no sexto dia havia de criar os olhos de todos os viventes; mas se no segundo, no terceiro e no quarto dia não houve nem havia de haver olhos, por que cria Deus a luz no primeiro? Porque o sol criou-o Deus para os olhos dos homens e dos animais; a luz criou-a Deus para os seus olhos. E assim foi Fiat lux; et facta est lux, et vidit Deus lucem quod esset bona (Gên. 1,4): Disse Deus: Faça-se a luz, e fez-se a luz; e no mesmo ponto que nasceu e apareceu a luz, logo foi o emprego e suspensão dos olhos de Deus: Vidit Deus lucem. Digo emprego e suspensão porque quando Deus criou a luz, já estava criado o céu, a terra, os elementos, os anjos, e nada disto levou após si os olhos de Deus, senão a luz. Ela encheu os olhos de Deus de maneira que sendo os olhos de Deus imensos, parece que não deixou neles lugar para os pôr noutra coisa. Assim era a luz criada para os olhos de Deus, como o sol para os dos homens e dos animais.
(continua...)
Fonte: VIEIRA, Padre Antônio. Sermão da Sexagésima. Disponível em: http://www.ep.com.br/livros_vest/sermoes.pdf . Acesso em: 13 ago. 2026.