Por Machado de Assis (1879)
Foi Henriqueta que o recebeu, e, para ser sincero, devo dizer que o recebeu de má cara. Notem que não me refiro ao bacharel, mas ao cartão; o bacharel é provável que tivesse agasalho mais benigno. Talvez a razão da diferença esteja na circunstância de que um cartão, por melhor que o litógrafo o atavie, não possui um par de olhos negros como os que alumiavam o rosto de Pimentel, uns olhos que na noite do teatro pareceram a Henriqueta singularmente graciosos e dignos de estima. Também se pode dizer que um cartão de visita, se é um sinal de atenção, não tem em si essa qualidade, ao passo que o dr. Pimentel possuía aquele gênero de atenção delicada, que melhor fala ao espírito das mulheres. Enfim, o cartão queria dizer despedida, separação, ausência; e Henriqueta confessava de si para si que a convivência do Pimentel devia ser muito agradável ao... Julião. Dizia isto, e não me é dado atribuir-lhe outra coisa — ao menos por agora, que os olhos do Pimentel tiveram o mesmo destino de, todos os olhos que passam depressa: a lembrança deles foi amortecendo devagar, até que de todo se apagou. No fim de três semanas estava tudo acabado; foi justamente a ocasião em que o Pimentel desembarcou de Santos.
IV
— Sabes quem chegou hoje? perguntou Julião a Henriqueta, um dia ao jantar.
— Quem?
— O Dr. Pimentel.
Henriqueta teve uma impressão leve, e não duradoura; o ex-promotor estava esquecido. Contudo, não pôde reprimir o sentimento da curiosidade Julião, que nada percebera até ali, continuou a falar do bacharel, com um entusiasmo, facilmente comunicativo. Henriqueta ouvia-o com interesse; perguntou-lhe se não viera também o ex-inspetor da Alfândega, e, dizendo-lhe ele que não, hesitou se devia indagar da demora do Pimentel; mas cedeu, e perguntou:
— O Pimentel demora-se ou volta já para o Norte?
— Não sei; é provável que volte.
— Estiveste com ele?
— Não, mas hei de ir lá amanhã.
Tinham acabado de jantar; Henriqueta sentiu que estava muito calor, mas em vez de ir para o portão da chácara, como lhe propusera Julião, foi tocar piano; tocou meia valsa, depois meia sinfonia, enfim, meio romance; não acabou nada.
— Que tens tu hoje? disse-lhe a tia.
— Nada; aborrece-me o piano.
— Queres ir ao teatro? perguntou Julião.
Henriqueta ia a dizer sim, mas recuou.
— É tarde; iremos n'outro dia.
— Um passeio?
— Estou cansada.
— Não é porque tocasses com os pés, disse rindo o irmão.
Ouvindo esta palavra, Henriqueta ficou amuada, como se a frase em si, e, quando não a frase, como se a intenção pudesse ser-lhe ofensiva. Ficou amuada, sem que lho percebesse a família; e porque a família não lho percebeu, recolheu-se à alcova dentro de poucos minutos. Quando Julião não a viu, e soube que se recolhera, não pôde dissimular o espanto.
— Que tem Henriqueta? disse à tia.
— Não sei; depois do jantar ficou assim. Talvez esteja doente; vou ver o que é.
D. Lúcia (era este o seu nome), foi achar a sobrinha, enterrada numa poltrona, com um livro nas mãos, a ler, ou fingir que lia; foi o que a tia pensou; mas a verdade é que Henriqueta iludia-se a si mesma, supondo que lia alguma coisa; tinha os olhos na página, e até corriam de palavra em palavra, e de linha em linha. Corriam somente; não apreendiam o sentido do escrito, que lá ficava, mudo, e quedo, e impenetrado.
Não tinha D. Lúcia a sagacidade que fareja as comoções morais; para ela tudo era dores, ânsias, calafrios, ou quaisquer outros fenômenos de comoção física. Conseguintemente, não mentiu, não dissimulou nada quando perguntou à sobrinha se lhe doía a cabeça.
— Bastante, disse esta.
— Mas então por que lês?
— Para distrair-me.
— Que idéia! Isso é pior; dá cá o livro.
Tirou-lhe o livro das mãos; depois propôs-lhe fazer alguma mesinha, ao que Henriqueta se recusou, dizendo que era melhor não fazer nada; havia de passar por si.
—Tens febre?
— Ora, febre! disse Henriqueta rindo.
E rindo estendeu o pulso à tia, que lho tomou com o ar mais doutoral que pôde ter uma senhora; e foi rindo também que a tia lhe declarou:
— Tens febre para amanhã. Anda cá fora; aqui está muito abafado. O ar livre há de fazer-te bem.
Não resistiu a moça; nem sequer cedeu de má vontade. Ao contrário, era aquilo mesmo o que queria, porque, tendo obedecido a um impulso de mal cabido ressentimento, doía-lhe agora o que fizera, e ardia, por ler nos olhos do irmão, — ou a ignorância ou desculpa do que se passara. Julião, que não percebera nada, acolheu a irmã com a maior naturalidade do mundo, — um pouco ansioso, é certo, por saber se estava doente, mas quando ela lhe disse que era uma simples dor de cabeça, já agora quase extinta, abraçou-a radiante, e a noite acabou numa palestra de família.
(continua...)
ASSIS, Machado de. Um para o outro. A Estação, Rio de Janeiro, 30 jul. 1879 a 15 out. 1879.