Por Machado de Assis (1876)
— Jonas não alude às crianças, mas aos canhotos que são os homens que não podem discernir a direita da esquerda. Sendo assim, veja o senhor a importância da minha interpretação. Duas coisas se concluem dela: 1ª que os ninivitas eram geralmente canhotos; 2ª que o ser canhoto era no entender dos hebreus um grande mérito. Desta última conclusão nasceu uma terceira, a saber, que chamar canhoto ao diabo é estar fora do espírito bíblico. Isto é claro como água e evidente como a luz.
A profunda convicção com que ele disse tudo isto, e o ar de triunfo com que ficou a olhar para mim, confesso que me impressionaram singularmente. Não sabia que dizer; o melhor era concordar, declarando que a sua opinião era por força verdadeira.
— Não lhe parece? disse ele. Contudo, não sendo eu forte no hebraico, desejava consultar alguém que me dissesse se o texto original está bem traduzido na Vulgata, e se a expressão bíblica é essa ou outra diferente. Liquidado este ponto, escreverei um livro. Afiança-me que não sabe hebraico?
— Não sei sequer o alfabeto.
— Nesse caso há de perdoar.
Dizendo isto, ergueu-se, fez-me uma cortesia e deu um passo para a porta. Ali parou e voltou-se.
— Esquecia-me dizer-lhe o meu nome; devia de ser a primeira coisa. Chamo-me Damasceno Rodrigues, moro há três anos aqui em cima, onde estou às suas ordens. Viva!
Não esperou que lhe dissesse o meu nome; curvou-se e saiu. Imaginem facilmente como fiquei; a vontade de rir foi o primeiro efeito; o segundo foi uma mistura de pena, receio e curiosidade. No dia seguinte, disse ao pajem que tirasse informações acerca de Damasceno Rodrigues. Tirou-as, e o que liquidei delas foi que o meu vizinho morava aí havia três anos, como dissera; que era um velho médico, sem clínica; que vivia pacificamente, saindo apenas para ir comer a uma casa de pasto da vizinhança ou ler duas horas na biblioteca pública; enfim, que no bairro ninguém o tinha por doido, mas que algumas velhas o supunham ligado ao diabo. Esta crença, comparada com a idéia que o homem tinha a respeito do Canhoto, dava bem para uma anedota romântica, que eu podia escrever logo depois que voltasse a S. Paulo; tal foi o motivo que me levou a visitá-lo alguns dias depois.
O segundo andar era antes um sótão puxado à rua; compunha-se de uma sala, uma alcova e pouco mais. Subi. Achei-o na sala, estirado em uma rede, a olhar para o teto. Tudo ali era tão velho e alquebrado como ele; três cadeiras incompletas, uma cômoda, um aparador, uma mesa, alguns farrapos de um tapete, ligados por meia dúzia de fios, tais eram as alfaias da casa de Damasceno Rodrigues. As janelas, que eram duas, adornavam-se com umas cortinas de chita amarela, rotas a espaços. Sobre a cômoda e a mesa havia alguns objetos disparatados; por exemplo, um busto de Hipócrates ao pé de um bule de louça, três ou quatro bolos, meio pote de rapé, lenços e jornais. No chão também havia jornais e livros espalhados. Era ali o asilo do vizinho misterioso.
Achei-o, como lhes disse, estirado na rede, a olhar para o teto. Não me sentiu entrar; mas eu falei-lhe e ele ergueu um pouco a cabeça.
— Quem é? disse ele.
— Eu.
— O senhor?
— Seu vizinho de baixo.
— Ah! disse ele erguendo-se; pode entrar.
— Não se incomode; vinha apenas pagar-lhe a visita.
Damasceno tinha-se levantado; e das cadeiras ofereceu-me a melhor, isto é, a que não tinha costas, porque das outras duas, uma estava exausta de palhinha e a outra possuía três pés somente.
O riso de Damasceno era pior que a seriedade; sério, dava ares de caveira; rindo, havia nele um gesto diabólico; a tudo resiste porém ambição do escritor juvenil. Eu queria uma novela, e estava disposto a conversar com o diabo em pessoa. Para dizer alguma coisa, falei-lhe na passagem de Jonas.
— Descobriu alguma coisa? perguntei-lhe.
— Nada, tornou ele, mas cuida que pensei mais em semelhante assunto?
— Supunha.
— Qual! No dia seguinte deixei-o de lado.
— Entretanto, creio que era importante decidir se realmente o nome de Canhoto dado ao diabo…
Damasceno interrompeu-me com uma risadinha sardônica e gelada que me tapou a boca. Não tive ânimo de continuar e faltava-me assunto para entretê-lo. Ele, entretanto, meteu as mãos na algibeira das calças e começou a andar de um para outro lado, ora cabisbaixo e silencioso, ora olhando para o teto e murmurando alguma coisa que eu não podia perceber. Havia no rosto daquele homem, além da velhice precoce, uma expressão de tristeza e amargura que os olhos não podiam contemplar impunemente. Ao mesmo tempo era tão extraordinária a figura e tão singulares os costumes dele, que a gente tinha prazer em o conversar e atrair, quando menos por sair um pouco da vulgaridade dos outros homens.
Damasceno passeou cerca de oito minutos, sem me dizer palavra. Ao cabo deles, parou defronte de mim.
— Mancebo, disse ele, quais são as suas idéias a respeito da lua? — Poucas... algumas notícias apenas.
— Sei, disse ele desdenhosamente; o que anda nos compêndios. Pífia ciência é a dos compêndios! O que eu lhe pergunto…
— Adivinho.
— Diga.
(continua...)
ASSIS, Machado de. Sem olhos. Jornal das Famílias, Rio de Janeiro, 1876.