Por Machado de Assis (1876)
Não tenho tintas na minha paleta para pintar a cena da investigação da fita, que durou cerca de duas horas e dava para dois capítulos ou três. Uma só gaveta não ficou em casa por examinar, uma só caixa de chapéu, um só escaninho de secretária. Veio tudo abaixo. A fita obstinava-se em não aparecer. Gustavo imaginou que ela estaria na saladeira; a saladeira estava vazia, e era o pior que lhe podia acontecer, porque o furioso mancebo atirou-a contra um portal e reduziu-a a cacos.
Os dois criados andavam atônitos; não compreendiam aquilo; muito menos compreendiam o motivo por que o amo os descompunha, quando eles não tinham notícia nenhuma da fita azul.
Era já madrugada; a fita não dera sinal de si; toda a esperança se dissipara como fumo. Gustavo tomou a resolução de se deitar, que os seus criados acharam excelente, mas que para ele foi perfeitamente inútil. Gustavo não pregou olho; levantou-se às oito horas do dia 11 fatigado, aborrecido, receoso de um imenso desastre.
Durante o dia fez algumas investigações relativas à famosa fita; todas elas tiveram o resultado das da véspera.
Numa das ocasiões em que estava mais aflito, apareceu-lhe em casa um dos freqüentadores da casa de D. Leonarda, o mesmo com quem tivera o diálogo acima transcrito. Gustavo confiou-lhe tudo.
O Sr. Barbosa riu-se.
Barbosa era o nome do freqüentador da casa de D. Leonarda.
Riu-se e chamou-lhe criança; afirmou-lhe que Marianinha era caprichosa, mas que uma fita era uma coisa de pouco mais que nada.
— Que lhe pode resultar daqui? disse o Sr. Barbosa com um gesto grave. Zangar se a moça durante algumas horas? Isso que vale se ela lhe há de dever a felicidade mais tarde? Meu amigo, eu não conheço a história de todos os casamentos que se têm feito debaixo do sol, mas creio poder afirmar que nenhuma noiva deixou de casar por causa de um pedaço de fita.
Gustavo ficou mais consolado com estas e outras expressões do Sr. Barbosa, que se despediu daí a pouco. O namorado, apenas chegou a noite vestiu-se com o maior apuro, perfumou-se, acendeu um charuto, procurou sair de casa com o pé direito, e enfiou para a casa da Sr.ª D. Leonarda.
O coração batia-lhe mais fortemente quando subiu a escada. Vieram abrir-lhe a cancela; Gustavo entrou e achou na sala a avó e a neta, a avó risonha, a neta séria e grave.
Ao contrário do que fazia em outras ocasiões, Gustavo não buscou desta vez achar-se a sós com a moça. Foi esta quem procurou essa ocasião, no que a avó a ajudou mui simplesmente, indo ao interior da casa saber a causa de um rumor de pratos que ouvira.
— A fita? disse ela.
— A fita...
— Perdeu-a?
— Não se pode dizer que esteja perdida, balbuciou Gustavo; não a pude achar por mais que a procurasse; e a razão...
— A razão?
— A razão é que eu... sim... naturalmente está muito guardada... mas creio que... Marianinha levantou-se.
— Minha última palavra é esta... Quero a fita dentro de três dias; se não ma der, tudo está acabado; não serei sua!
Gustavo estremeceu.
— Marianinha!
A moça deu um passo para dentro.
— Marianinha! repetiu o pobre namorado.
— Nem mais uma palavra!
— Mas...
— A fita, dentro de três dias!
CAPÍTULO IV
Imagina-se, não se descreve a situação em que ficou a alma do pobre Gustavo, que deveras amava a moça e que por tão pequena coisa via perdido o seu futuro. Saiu dali (desculpem a expressão que não é muito nobre), saiu dali vendendo azeite às canadas.
— Leve o diabo o dia em que vi aquela mulher! exclamava ele caminhando para casa.
Mas logo:
— Não! ela não tem culpa: o culpado único sou eu! Quem me mandou ser tão pouco zeloso de um mimo dado de tão boa feição? Verdade seja que eu ainda nesse tempo não tinha no coração o que agora sinto...
Aqui parava o moço para examinar o estado do seu coração, que reconhecia ser gravíssimo, a ponto de lhe parecer que, se não casasse com ela, impreterivelmente iria ter à cova.
Há paixões assim, como devem saber o leitor e a leitora, e se a dele não fosse assim, é muito provável que eu não tivesse de contar esta mui verídica história.
Ao chegar à casa procedeu Gustavo a uma nova investigação, que deu o mesmo resultado negativo. Passou uma noite como se pode imaginar, e levantou-se de madrugada, aborrecido e furioso consigo mesmo.
Às 8 horas levou-lhe o criado o café do costume, e na ocasião em que lhe acendia um fósforo para o amo acender charuto, aventurou esta conjetura:
— Meu amo chegaria a tirar a fita da algibeira do paletó?
— Naturalmente tirei a fita, respondeu com rispidez o moço; não me lembra se tirei, mas é provável que sim.
— É que...
— É quê?
— Meu amo deu-me há pouco tempo um paletó, e pode ser que...
Isto foi um raio de esperança no ânimo do pobre namorado. Deu um pulo da cadeira em que se achava, quase entornou a xícara no chão, e sem mais preâmbulo perguntou ao criado:
— João! tu vieste salvar-me!
— Eu?
— Sim, tu. Onde está o paletó?
— O paletó?
— Sim, o paletó...
João cravou os olhos no chão e não respondeu.
— Dize! fala! exclamou Gustavo.
(continua...)
ASSIS, Machado de. História de uma fita azul. Jornal das Famílias, Rio de Janeiro, dez. 1875 a fev. 1876.