Por Machado de Assis (1873)
O Abreu, que dera antes como causa a presidência lá da província, declarou agora ao desembargador que uma questão da guerra produzira o desacordo entre os ministros.
— Está certo disso? perguntou o desembargador.
— Certíssimo; soube-o hoje mesmo do cunhado do Ministro da Guerra.
Nunca vi maior facilidade em mudar de opinião, nem maior descaro em colher as afirmações alheias. Interroguei depois o C. que me respondeu:
— Não te espantes; em tempo de crise é sempre bom mostrar que se anda bem infocrmado.
Dos presentes eram quase todos oposicionistas, ou pelo menos faziam coro com o Abreu, que fazia diante do cadáver ministerial o papel de Bruto diante do cadáver de César. Alguns defendiam a vítima, mas como se defende uma vítima política, sem grande calor nem excessiva paixão.
Cada personagem novo trazia uma confirmação ao trato; já não era trato; evidentemente havia crise. Grupos de políticos e politicões estavam parados às portas das lojas, conversando animadamente. De quando em quando surgia ao longe um deputado. Era logo cercado e interrogado; e só se colhia a mesma coisa.
Vimos ao longe um homem de 35 anos, meão na altura, suíças, luneta pênsil, olhar profundo, acompanhando uma influência política.
— Graças a Deus! agora vamos ter notícias frescas, disse o C.
Ali vem o Mendonça; há de saber alguma coisa.
A influência política não pôde passar de outro grupo; o Mendonça veio ao nosso.
— Venha cá; você que lambe os vidros por dentro há de saber o que há?
— O que há?
— Sim.
— Há crise.
— Bem; mas os homens saem ou ficam?
Mendonça sorriu, depois ficou sério, corrigiu o laço da gravata, e murmurou um: não sei; assaz parecido com um: sei demais.
Olhei atentamente para aquele homem que parecia estar senhor dos segredos do Estado, e admirei a discrição com que os ocultava de nós.
— Diga o que sabe, Sr. Mendonça, disse o desembargador.
— Eu já disse a V. Excia. o que há, interrompeu o Abreu; pelo menos tenho razão para afirmá-lo. Não sei o que sabe lá o Sr. Mendonça, mas creio que não estará comigo...
Mendonça fez um gesto de quem ia falar. Foi cercado por todos. Ninguém ouviu com mais atenção o oráculo de Delfos.
— Sabem que há crise; a causa é muito secundária, mas a situação não podia prolongar-se.
— Qual é a causa?
— A nomeação de um juiz de direito.
— Só!
— Só.
— Já sei o que é, disse Abreu sorrindo. Era negócio pendente há muitas semanas.
— Foi isso. Os homens lá foram ao paço.
— Será aceita a demissão? perguntei eu.
Mendonça abaixou a voz.
— Creio que é.
Depois apertou a mão ao desembargador, ao C. e ao Abreu e retirou-se com a mesma satisfação de um homem que acaba de salvar o Estado.
— Pois, senhores, eu creio que esta versão é a verdadeira. O Mendonça anda informado.
Passa defronte um sujeito.
— Anda cá, Lima, gritou Abreu.
O Lima aproximou-se.
— Estás convidado para o ministério?
— Estou; você quer alguma pasta?
Não penses que este Lima era alguma coisa; o dito de Abreu era um gracejo que se renova em todas as crises.
A única preocupação do Lima eram umas senhoras que passavam. Ouvi dizer que eram as Valadares, — a família do indigitado presidente. Pararam à porta da loja, conversaram alguma coisa com o C. e o Lima, e seguiram viagem.
— São lindas estas moças, disse um dos circunstantes.
— Eu era capaz de as nomear para o ministério.
— Sendo eu presidente do conselho.
— Também eu.
— A mais gorda devia ser Ministro da Marinha.
— Por quê?
— Porque parece mesmo uma fragata.
Ligeiro sorriso acolheu este diálogo entre o desembargador e o Abreu. Viu-se ao longe um carro.
— Quem será? Algum ministro?
— Vejamos.
— Não; é a A...
— Como vai bonita!
— Pudera!
— Ela já tem carro?
— Há muito tempo.
— Olhem, ali vem o Mendonça.
— Vem com outro. Quem é?
— É um deputado.
Passaram os dois juntos de nós. O Mendonça não nos cumprimentou; ia conversando baixinho com o deputado.
Houve outra trégua na conversa política. E não te admires. Nada mais natural do que entremear aqui uma discussão sobre crise política com as sedas de uma dama do tom.
Finalmente surgiu de longe o já citado Ferreira.
— Que há? perguntamos quando ele chegou.
— Foi aceita a demissão.
— Quem é o chamado?
— Não se sabe.
— Por quê?
— Dizem que os homens ficam com as pastas até segunda-feira.
Dizendo estas palavras, o Ferreira entrou, e foi sentar-se. Outros o imitaram; alguns se foram embora.
— Mas donde sabe isso? disse o desembargador.
— Soube na Câmara.
— Não me parece natural.
(continua...)
ASSIS, Machado de. Tempo de crise. Jornal das Famílias, Rio de Janeiro, abr. 1873.