Por Eça de Queirós (1912)
O bom lenhador passou esta sebe, e meteu pelas azinhagas, a caminho da sua cabana, aninhada entre os pinheiros e as faias à orla da floresta, que, desde os soutos onde todo o dia trabalhava, vinha pelo interior das terras vestindo vale e monte. Por entre os troncos dos pinheiros mansos, o largo rio alvejava embaixo à claridade das estrelas. Os pirilampos faiscavam na ponta das sebes. Um aroma de madressilva adoçava o ar.
O bom lenhador atravessou, sobre uma ponte feita de troncos, um riacho que saltava entre rochas, onde os pajens da castelania vinham pescar trutas. Um rouxinol cantava embaixo entre a ramaria dos choupos. Adiante havia uma cruz de pedra coberta de heras, que tinha um braço partido. Piedosamente o bom lenhador tirou o seu barrete de pele de coelho. O seu coração simples, nessa noite, sentia como um contentamento desacostumado. Ouvindo o sino do mosteiro, que nas colinas além do rio tocava as vésperas, murmurou uma salve-rainha, com uma devoção maior, certo de que a Virgem o escutava, debruçada do Céu, toucada de todas aquelas estrelas que rebrilhavam mais que o ouro. Já, a distância, sob o céu pálido, se arredondavam os cimos dos arvoredos, onde se escondia a sua cabana. A mulher, a boa companheira, esperava por ele fiando à lareira. Estugou o passo e, subitamente, da sombra de um chorão debruçado à beira do caminho, surgiu um moço de olhos brilhantes como lumes, coberto com uma túnica branca, encostado a uma vara branca, que parou diante dele, e disse sorrindo:
— Entra contente na tua morada, que teu filho há de ser um grande santo!
E subitamente desapareceu. Um aroma vivo, como de incenso misturado a cravos, passou de leve no ar. E as relvas altas do prado, ondeavam, dobradas, como se as roçasse um manto de seda fina.
O bom lenhador ficara imóvel, tremendo, na sombra que se adensou, mais cerrada, sob as ramagens das faias. E mal compreendia a quem tão docemente falara aqueles moço de olhos mais claros que lumes de altar. A sua boa companheira não lhe dera ainda um filho naqueles longos anos, tão serenamente passados, desde a manhã de Natal em que por sobre a neve dura brilhando ao sol, ao fino som da rabeca que o menestrel tangia, coroada de rosas, ele a trouxera à cabana construída por suas mãos, com as madeira por suas mãos rachada. Como poderia pois, no seu lar que nenhum riso de criança alegrava, crescer, para sua glória, um grande santo?... Arrepiado, penetrou por sob a ramaria, espreitando, escutando, na esperança e no terror de surpreender ainda uma claridade, um rumor daquele mensageiro estranho, que vestia de branco como os anjos. Todo o bosque estava mudo e ermo. Então entrou na sua alma simples um grande medo a todos os seres invisíveis que, vindos de Céu, ou vindos do Inferno, de repente surgem nos caminhos escuros. Começou a correr por uma estreita azinhaga até aos castanheiros que abrigavam a sua cabana. Uma fenda de luz saía da porta, entreaberta à frescura doce da noite. O rafeiro que o aguardava, com sua coleira eriçada de pregos, latiu alegremente. Entrou, limpando na face o suor que o alagava.
Sentada à lareira numa tripeça, a sua boa companheira esperava fiando. A panela de ferro fervia, suspensa por uma corrente sobre o lume. A um canto da arca, as malgas vidradas, as canecas de estanho reluziam bem limpas; sobre a palhoça do catre, o lençol de estopa era branco e fresco. Todo o dia a boa companheira lidara para o asseio do seu lar. O lenhador pendurou junto à chaminé o seu machado, e, nem à ceia, nem deitado junto dela no catre, revelou à mulher o encontro com aquele moço de olhos resplandecentes. Receava que ela, tão séria e justa, repreendesse o seu orgulho. Porque mandaria Deus um anjo, com tão maravilhoso recado, a um rude servo, de saião de estamenha? Decerto não fora a ele que o moço, brilhante de claridade, anunciava a santidade de um filho.... Se Deus os tivesse escolhido para tão grande ventura, não seria por ele, rude como os troncos da sua mata, mas pela sua boa companheira, tão séria, diligente no trabalho, clara de alma, compassiva aos mais pobres, sempre alegre e tão leal! Nela e não nele, estavam decerto os méritos divinos.
E enquanto ela, direita, robusta, e corada como uma maçã, enchia as malgas da ceia, o lenhador sentia abrir-se no seu coração, como uma flor que sob o orvalho reflorescesse, uma ternura doce e melhor por aquela que, em tantos anos tornara a sua pobre cabana lugar mais apetecível que a casa rica de um senescal ou o castelo do seu Senhor.
II
Era o tempo das vindimas nas vinhas da castelania. Uma manhã, cedo, ao cantar das calhandras, quando o bom lenhador prendia ao cinto seu machado, partindo para o castelo onde ia rachar a lenha miúda, a sua companheira, que se sentara na arca com os braços cruzados, disse de repente, toda séria e vermelha:
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. São Cristóvão. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16237 . Acesso em: 29 jun. 2026.