Por Camilo Castelo Branco (1889)
— « pois não há nada mais artificial, meu caro senhor. Eu lhe conto o resto, que é o mais interessante para o mancebo que faz do nariz de uma mulher o termômetro de avaliar-lhe a temperatura do coração. Imagina, meu jovem Carlos, que saíste do teatro depois, e entraste na Águia de Ouro a comer ostras, segundo o costume dos elegantes do Porto. E quando pensavas, ainda aterrado, na aventura do nariz, te aparecia o fatídico dominó, e se assentava ao teu lado, silencioso e imóvel, como a larva das tuas asneiras, cuja memória procuravas delir na imaginação com os vapores do vinho… Perturba-se-te a digestão, e sentes contrações no estômago, que te ameaçam com o vomito. A massa enorme daquele nariz figura-se-te no prato em que tens a ostra, e já não podes levar à boca um bocado do teu apetitoso manjar sem um fragmento daquele fatal nariz à mistura. Queres transigir com o silêncio do dominó ; mas não podes. A inexorável mulher aproxima-se de ti, e tu, com um sorriso cruelmente sarcástico, pedes-lhe que te não entorne com o nariz o copo de vinho. Achas isto natural, Carlos ?”
— “Há aí crueldade de mais… O poeta devia ser mais generoso com a desgraça, porque a missão do poeta é a indulgência não só para as grandes afrontas, mas até para os grandes narizes.”
— “Será ; mais o poeta, que transgrediu a sublime missão de generosidade para com as mulheres feias, vai ser punido. Imagina que aquela mulher, pungida pelo sarcasmo, levanta a máscara. O poeta ergue-se, e vai fugir com grande escândalo do dono da casa, que naturalmente tem a sorte do boticário de Nicolau Tolentino. Mas… Vingança do céu !… aquela mulher ao levantar a máscara arranca do rosto um nariz postiço, e deixa ver a mais famosa cara que o céu alumia há seis mil anos ! O espanhol que ajoelhar àquela dulcíssima visão de um sonho, mas a nobre andaluza repele-o com um gesto, onde o desprezo está associado à dignidade mais senhoril.
CAPÍTULO II
Carlos cismava na aplicação da anedota, quando o dominó lhe disse, adivinhando-lhe o pensamento :
— “Não creias que eu seja mulher de nariz de cera, nem me suponhas capaz de assombrar-te com a minha fealdade. A minha modéstia não vai tão longe… Mas, meu pacientíssimo amigo, há em mim um defeito pior que um nariz enorme : não é físico nem moral ; é um defeito repulsivo e repelente : é uma coisa que eu não sei exprimir-te com a linguagem do inferno, que é a única e mais eloqüente que eu sei falar, quando me lembro que sou assim defeituosa !”
— “És uma enigma !…” - atalhou Carlos, embaraçado, e convencido de que encontrara um tipo maior que os moldes tacanhos da vida romanesca em Portugal.
— “Sou, sou !…” - acudiu ela com rapidez - “sou aos meus próprios olhos um dominó, um continuado carnaval de lágrimas… Está bom ! Não quero tristezas… Se me tocas na tecla do sentimentalismo, deixo-te. Eu não vim aqui fazer papel de dama dolorida. Soube que estavas aqui, procurei-te, espere-te mesmo com ansiedade, porque sei que és espirituoso, e podias, sem prejuízo da tua dignidade, ajudar-me a passar algumas horas de ilusão. Fora daqui, tu ficas sendo Carlos, e eu serei sempre uma incógnita muito grata ao seu companheiro. Agora acompanha-me:
vamos ao camarote 10 da segunda ordem. Conheces aquela família ?”
— “Não.”
— “É uma gente da província. Não digas tu nada ; deixa-me falar a mim, e verás que não passas mal… É muito orgulho, não achas ?”
— “Não acho, não, minha querida ; mas eu antes queria não desperdiçar estas horas porque fogem. Tu vais falar, mas não é comigo. Sabes que tenho ciúmes de ti?”
— “Sei que tens ciúmes de mim… Sabes tu que eu tenho um profundo conhecimento do coração humano ? Já vês que não sou a mulher que imaginas, ou quererias que eu fosse. Não comeces a desvanecer-te com uma conquista esperançosa. Faz calar o teu amor-próprio, e emprega a tua vaidade em bloquear com ternuras calculadas uma inocente a quem possas fazer feliz, enquanto a enganas…”
— “Julgas, portanto, que te minto !…”
— “Não julgo, não. Se mentes a alguém é a ti próprio : bem vês que não te creio.. Tempo perdido ! Anda, vem comigo, senão…”
— “Senão.. O quê ?”
— “Senão… Olha.”
E a melindrosa desconhecida largou-lhe o braço com delicadeza, e retirarase, apertando-lhe a mão.
Carlos, sinceramente comovido, apertou aquela mão, com o frenesi apaixonado de um homem que quer suster a fuga da mulher por quem se mataria.
— “Não,” — exclamou ele com entusiasmo — “não me fujas, porque me levas a esperança mais bela que o meu coração concebeu. Deixa-me adorar-te, sem te conhecer !… Não levantes nunca esse véu… Mais deixa-me ver a face da tua alma, que deve ser a realidade de um sonho de vinte e sete anos…”
— “Estás dramático, meu poeta ! Eu sinto realmente a minha pobreza de palavras garrafais… Queria ser uma vestal de estilo fervente para sustentar o fogo sagrado do diálogo… O monólogo dever cansar-te, e a tragédia desde Sófocles até nós não pode dispensar uma segunda pessoa…”
— “És um prodígio…”
— “De literatura grega, não é verdade ? Inda sei muitas outras coisas da Grécia. A Lais também era muito versada, e repetia as rapsódias gregas com um garbo sublime ; mas a Lais era… Sabes tu o que ela era ?… E serei eu o mesmo ?
Já vês que a literatura não é sintoma de virtudes dignas da tua afeição…”
Tinham chegado ao camarote na segunda ordem. O dominó-veludo bateu, e a porta foi, como devia ser, aberta.
(continua...)
CASTELO BRANCO, Camilo. Coisas que só eu sei. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16587 . Acesso em: 28 jun. 2026.