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#Romances#Literatura Portuguesa

Uma praga rogada nas escadarias da forca

Por Camilo Castelo Branco (1883)

Mas o pai apoquentava-a, sempre que podia, pintando-lhe a mesquinhez do seu futuro, e a pobreza de sua legítima, que orçaria talvez por três mil ducados. E era isto verdade.

- VI -

E o pior era que o tal João Leite, noivo repelido, ficou amando desesperadamente D. Eulália. Ferido no seu amor próprio, e envergonhado de tão má estréia, instava com Francisco de Lucena, lançando-lhe em rosto a imprudência com que viera roubá-lo à sua tranqülidade, não podendo contar com a obediência de sua filha. Esta maneira de acusar vexava Francisco de Lucena, porque era pôr em dúvida o seu poder paternal, e chamar-lhe fraco, imputação que êle odiava, ainda mesmo que se tratasse de vencer a repugnância de uma fraca menina.

Redobravam as mortificações, e Eulália, imóvel como o seu infeliz amor, oferecia-se de bom grado à vingança paternal, mas dizia, em linguagem trágica, que só reduzida a cadáver passaria para a posse do tal miserável, que não tinha vergonha de perseguir uma mulher que o desprezava. O pai realizou o dito popular: "casar, ou meter freira." Eulália optou pelo segundo, e os preparativos para entrar no convento principiaram.

O amor faz a mulher varonil. Temos visto almas de lama apresentarem uma energia corajosa, quando o tônico do amor lhes vibra as cordas embrionárias dum coração, que parece arfar de improviso ao repentino choque, ao rapto da paixão violenta.

Nas vésperas da sua entrada no mosteiro, Eulália escreveu três cartas. Uma a seu pai. Dizia-lhe que amara um só homem, e viveria dêsse amor desgraçado tôda a sua vida.

Outra ao escudeiro. Dizia-lhe que tivesse compaixão dela, e chorasse uma lágrima em troca das que ela

chorara, e choraria até a morte.

Outra ao seu implacável pretendente. Dizia-lhe que o amaldiçoava com todo o ódio do seu coração. Que lhe atirara a cara com um não, e nem assim o envergonhara de continuar a perseguir uma mulher.

Esta correspondência conservou-a Eulália até o momento em que transpôs o limiar do convento. O seu primeiro ato foi dar-lhe o destino competente. Depois, chorou, chorou, e atraiu em volta de si os carinhos da comunidade, que a mortificava com as suas frias consolações.

- VII -

Francisco de Lucena recebeu com espanto semelhante carta.

Bernardo da Silva embruteceu-se ao ler a sua.

João Leite deu quatro murros numa mesa, e sentiu-se suspenso no ar por uma legião de demônios raivosos.

Cada um fêz seu papel; mas todos três reunidos deviam formar um grupo digno da melhor caricatura inédita!

Francisco de Lucena correu ao locutório do mosteiro, e fêz ali aparecer imperiosamente a filha.

Quis forçá-la a declarar o nome do homem que a preocupara até a fazer má filha. Não lhe arrancou a menor revelação. Foi por outro caminho para chegar ao seu fim. Fêz-se sentimental; lamentou, como com pai, as paixões invencíveis duma filha que se preza com extremo carinho; contou histórias análogas, que acabavam tôdas por casamentos desiguais, mas nem por isso menos venturosos. Pediu a sua filha o nome dêsse homem que a impressionara, e fêz-lhe antegostar a possibilidade de casar-se, se não viesse dali uma absoluta desonra para a sua família.

O amor faz heróis, mas também faz patetas. Eulália desceu da sua altiva energia ao raso da toleima. De-

clarou o nome...o nome de quem? O nome, sem nome, do enjeitado, do aprendiz de alfaiate, do lacaio, do escudeiro!...

Que horror!

Nunca se viu um solavanco mais desamparado que o salto de tigre que Francisco de Lucena deu contra a grade que o separava da filha! Por Deus! Que a esgana se lhe chega! A pobre menina arrepiada como quem vê um lôbo com as faces vermelhas, e as unhas recurvas, foge pelo dormitório, e fecha-se no quarto.

- VIII -

Lucena correu a casa com os olhos injetados de fogo. Precisava duma vítima! Encontrou no caminho João Leite, mas êste não podia justificadamente ser sua vítima. João Leite mostra-lhe a carta que recebera de Eulália. Isto foi exacerbá-lo. "Não se lhe dê de ser repelido por essa infame - lhe disse êle. - Eu vou provar-lhe que sou pai!... Essa mulher amava um escudeiro... um lacaio... um enjeitado..."

Entrando em casa, procurou o "enjeitado". Encontrou-o ainda estùpidamente absorvido na meditação daquela carta. A entrada rápida que fêz no quarto não deu tempo a que Bernardo escondesse a carta que tinha aberta nas mãos trêmulas. Lucena arrancou-lha com uma convulsão de raiva superior à fúria dum demente. Passou-a pelos olhos, e, sem articular um som, lançou mão duma cadeira, e, à segunda pancada, Bernardo tinha a face coberta de sangue. Era um sangue inocente que reclamava justiça. Era um sangue inocente que pedia a intervenção de Deus. A justiça, filha legítima do céu, virá mais tarde salpicar daquele sangue a face de quem o derramava.

Bernardo, ferido, e pisado de sucessivas pancadas, não pronunciara uma só palavra durante êste infernal

(continua...)

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