Por Camilo Castelo Branco (1864)
Eu tinha visto Afonso de Teive, em Coimbra, naquela primeira época, matriculado no curso filosófico. Pertencia ao circulo de literatos, criadores da Revista Académica e Trovador; e também, nas horas furtadas às palestras literárias - quase sempre controvérsias acerca da primazia de Lamartine ou Vitor Hugo - pertencia à grande tribo dos trocistas. gente arruadora e desatinada para quem as saudosas tradições do famigerado José Lobo não tinham ainda esquecido. Esta dualidade em Afonso de Teive era uma distinção, que o tomava menos agradável aos literatos circunspectos, e menos estimável também aos camaradas das assuadas e motins nocturnos. Afonso era poeta num género galhofeiro, quando queria; e dedilhava o alaúde das elegias, se lhe dava para lastimar-se, ou carpir saudades imaginárias de mulheres, suas amadas, fugidas deste lamacento globo para os piamos balsâmicos do Céu. E o que me parecera a mim.
Tinha dias de escrever jaculatórias em verso que dariam fama a uma eremita da Tebaida noutros dias, satirizava a religião, os dogmas, e a própria divindade com os apodos e a dialéctica de um desbragado discípulo de Voltaire. E o mais para assombro é que ele parecia sentir no coração o ascetismo de hoje, e a impiedade de amanhã: agora, iria após o pálio da Extrema-Unção murmurando as preces do povo; que não se peja de orar em público e alta voz; e logo bem poderia suceder que, encontrando o mesmo préstito, não levasse a mão à fronte para tirar o gorro. A um homem assim dotado de tão contraditórios espíritos fácil seria agourar-lhe grandíssimos dissabores no trajecto da existência: para os semelhantes daquele funesto modelo, as estradas comuns da humanidade não conduzem a paragem nenhuma certa; nem o coração nem o espírito aceitam leis imutáveis; a moral é um facto, cujas condições deve e pode infringir aquele a quem elas não aproveitam; em suma, Afonso de Teive dava a prever um desgraçado, a menos que em sua índole não sobreviesse uma das raras revoluções que inopinadamente transfiguram o homem moral, se não é o abalo da mesma desgraça que opera esses prodigiosos reviramentos.
Tal conheci em 1845 em Coimbra o meu hospedeiro minhoto de 1863.
Encontrei-o, depois, no Porto em 1848.
Achei-lhe a mudança que influem os salões nos espíritos, para assim dizer, incultos da cortesania e graciosidade de que em geral carecem os mancebos saídos dos cursos escolares.
Afonso de Teive tinha fama de rico. Escutei o que diziam os almotacés dos haveres de cada sujeito admitido à sociedade portuense - pessoas que, à vista do zelo com que indagam os mínimos valores do sujeito, parecem habilitar-se para mordomizarem os bens de quem chega- e ouvi que Afonso era natural do Minho, filho único já órfão de pai e senhor da sua casa, estimada em cento e cinquenta mil cruzados.
Enquanto a costumes, dizia-se que o rapaz era dado ao namoro, borboleteava por diversos camarotes do Teatro de S. João, soprava zelos e raivas entre umas tantas senhoras nos bailes, e pouco mais digno de censura. De escândalos, não rosnava coisa importante a opinião pública. A mocidade do Porto, por despeito, ou por outro qualquer sentimento igualmente natural, que desculpável, é que, no intento de deprimir o Tenório do Minho, divulgava, como quem diz muito secretamente a coisa, que vários maridos.7 andavam enganados com Afonso de Teive; porém, como acontecia que os maridos indigitados se satirizavam uns aos outros, observando e censurando cada um a demasiada confiança do outro, é hoje coisa dificílima de tirar a limpo se algum dos maridos se enganava, ou se todos se enganavam, ou se não se enganava nenhum. Se o leitor considera que seria curioso esquadrinhar o caso, eu de mim entendo que a humanidade não ganha com isso nada, e portanto neste, e em muitos outros artigos advenientes de moral duvidosa, ponho, e porei ponto, quando não seja preciso à contextura deste romance desvelar factos censuráveis.
Afonso saiu do Porto naquele mesmo ano de 1848, com destino à França, segundo uns, e à Turquia, segundo outros. Os desta opinião diziam que ele, convencido de que tinha uma cara oriental, ia para terra onde pudesse vestir-se de modo que o rosto lhe saísse melhor do que entre uma gravata de laçarias portentosas e um canudo de felpo lustroso. E certo era que o tipo fisionómico do cavalheiro minhoto era sobremaneira árabe, por causa do nariz fino, dos olhos coruscantes, da tez azeitonada, do espesso bigode negro e do comprimento e magreza do rosto. Se juntarmos a este composto de venturosas e aventureiras feições o estar ele sempre fumegando por cachimbo turco, dirse-á que os Turcos é que propriamente, lá na sua terra, o andavam imitando a ele.
Se foi à Turquia, é de presumir que rivalidades com o sultão, ou - pior ainda - tentativas de invasão ao harém, o obrigaram a voltar a Portugal, onde os direitos de cada homem e de cada mulher estão muito mais razoavelmente definidos e garantidos. A verdade é que eu, no fim do ano seguinte, encontrei Afonso de Teive em Lisboa, cavalgando um donairoso alazão ao lado de uma amazona, cujo murzelo fazia admiráveis gentilezas de picaria. Deu-se este encontro no Campo Grande, numa tarde de corridas equestres. Alguém cuidaria que a soberba cavaleira, de uma formosura invejável tia Circássia, devia de ser a esposa raptada de algum grão-vizir; pessoas, porém, melhor informadas disseram-me que a esbelta dama era portuguesa do Minho, dos arrabaldes de Braga, onde os reais sensualistas do Islão mandariam subornar as suas sultanas se soubessem que nestas regiões as mulheres que, por acaso, saem feias das mãos da natureza aprendem a ser bonitas com as flores. Releve-se, este orientalismo a quem está tratando de coisas asiáticas como a cara de Afonso e o garbo peregrino de Palmira.
(continua...)
CASTELO BRANCO, Camilo. Amor de Salvação. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=88534 . Acesso em: 28 jun. 2026.