Por Machado de Assis (1870)
Deu-te amiga Fortuna um grande cabedal: Viver, sem ilusões, no bem como no mal; Não conhecer o amor que morde, que se nutre Do nosso sangue, o amor funesto, o amor abutre; Não beber gota a gota este brando veneno Que requeima e destrói; não ver em mar sereno Subitamente erguer-se a voz dos aquilões. Afortunado és tu.
LÍSIAS
Lei de compensações!
Sou filósofo mau, ridículo pedante,
Mas inveja-me a sorte; oh! lógica de amante.
CLÉON
É a do coração.
LÍSIAS
Terrível mestre!
CLÉON
Ensina
Dos seres imortais a transfusão divina!
LÍSIAS
A lição é profunda e escapa ao meu saber;
Outra escola professo, a escola do prazer!
CLÉON
Tu não tens coração.
LÍSIAS
Tenho, mas não me iludo.
É Circe que perdeu o encanto e a juventude.
CLÉON
Velho Sátiro!
LÍSIAS
Justo: um semideus silvestre.
Nestas coisas do amor nunca tive outro mestre. Tu gostas de chorar; eu cá prefiro rir.
Três artigos da lei: gozar, beber, dormir.
CLÉON
Compras com isso a paz; a mim coube-me o tédio, A solidão e a dor.
LÍSIAS
Queres um bom remédio,
Um filtro da Tessália, um bálsamo infalível? Esquece empresas vãs, não tentes o impossível. Prende o teu coração nos laços de Himeneu; Casa-te; encontrarás o amor no gineceu. Mas cortesãs! jamais! São Górgones! Medusas!
CLÉON
Essas que conheceste e tão severo acusas - Pobres moças! - não são o universal modelo: De outras sei a quem coube um coração singelo, Que preferem a tudo a glória singular
De conhecer somente a ciência de amar; Capazes de sentir o ardor da intensa chama Que eleva, que resgata a vida que as infama.
LÍSIAS
Se achares tal milagre, eu mesmo irei pedir-to.
CLÉON
Basta um passo, achá-lo-ei.
LÍSIAS
Bravo! chama-se?
CLÉON
Mirto.
Que pode conquistar até o amor de um deus!
LÍSIAS
Crês nisso?
CLÉON
Por que não?
LÍSIAS
Tu és um néscio; adeus!
Cena IV
CLÉON
Vai, cético! tu tens o vício da riqueza:
Farto, não crês na fome... A minha singeleza Faz-te rir: tu não vês o amor que absorve e mata; Mirto, vinga-me tu da calúnia insensata;
Amemo-nos. É ela!
Cena V
CLÉON, MIRTO
MIRTO
Estás triste!
CLÉON
Oh! que não.
Mas deslumbrado, sim, como se uma visão...
MIRTO
A visão vai partir.
CLÉON
Mas muito tarde...
MIRTO
Breve.
CLÉON
Quem te chama?
MIRTO
O destino. E sabes quem me escreve?
CLÉON
Tua mãe.
MIRTO
Já morreu.
CLÉON
Algum antigo amante?
MIRTO
Lísicles.
CLÉON
Vive?
MIRTO
Sim. Depois de andar errante
Numa tábua, à mercê das ondas, quis o céu Que viesse encontrá-lo um barco do Pireu. Pobre Lísicles! teve em tão cruenta lida A dor da minha morte e a dor da própria vida. Em vão interrogava o mar cioso e mudo. Perdera, de uma vez, numa só noite, tudo, A ventura, a esperança, o amor, e perdeu mais: Naufragaram com ele os poucos cabedais. Entrou em Samos pobre, inquieto, semimorto, Um barqueiro, que a tempo atravessava o porto, Disse-lhe que eu vivia, e contou-lhe a aventura Da malfadada Mirto.
CLÉON
É isso, a sorte escura
Voltou-se contra mim; não consente, não quer Que eu me farte de amor no amor de uma mulher. Vejo em cada paixão o fado que me oprime; O amar é já sofrer a pena do meu crime. Íxion foi mais audaz amando a deusa augusta; Transpôs o obscuro lago e sofre a pena justa, Mas eu não. Antes de ir às regiões infernais São as graças comigo Eumênides fatais!
MIRTO
Caprichos de poeta! Amor não falta às damas; Damas, tem-Ias aqui; inspira-lhe essas chamas.
CLÉON
Impõe-se leis ao mar? O coração é isto; Ama o que lhe convém; convém amar a Egisto Clitemnestra; convém a Cíntia Endimião; É caprichoso e livre o mar do coração;
De outras sei que eu houvera em meus versos [cantado;
Não lhes quero... não posso.
MIRTO
Ai, triste enamorado.
CLÉON
E tu zombas de mim!
MIRTO
Eu zombar? Não; lamento
A tua acerba dor, o teu fatal tormento.
Não conheço eu também esse cruel penar? Só dois remédios tens; esquecer, esperar. De quanto almeja e quer o amor nem tudo alcança;
Contenta-se ao nascer coas auras da esperança; Vive da própria mágoa; a própria dor o alenta.
CLÉON
Mas, se a vida é tão curta, a agonia é tão lenta!
MIRTO
Não sabes esperar? Então cumpre esquecer. Escolhe entre um e outro; é preciso escolher.
(continua...)
ASSIS, Machado de. Uma ode de Anacreonte. Jornal das Famílias, Rio de Janeiro, v. 8, n. 1, p. 12-25, jan. 1870.