Por Machado de Assis (1873)
Ao mesmo tempo tratou de se descartar de certos conhecimentos do tempo em que tinha o almoço casual e a ceia incerta. Clemente Soares professava o princípio de que a um pobre não se tira chapéu em nenhuma hipótese, salvo se se encontram num beco deserto, e ainda assim sem grandes mostras de intimidade, a fim de não dar confiança.
Desejoso de subir, não faltou Clemente Soares ao primeiro convite que lhe fez Medeiros para um jantar que dava em casa a um diplomata estrangeiro. O diplomata simpatizou com o guarda-livros, que daí a oito dias lhe fez uma visita.
Com estas e outras traças foi o nosso Clemente penetrando na sociedade que convinha ao seu gosto, e não tardou que lhe chovessem em casa os convites de bailes e jantares. Cumpre dizer que já nesse tempo o guarda-livros tinha um interesse na casa de Medeiros, que o apresentava orgulhosamente como seu sócio.
Nesta situação só lhe faltava uma noiva elegante e rica.
Não lhe faltava onde escolher; mas não era isso tão fácil como o resto. As noivas ou eram ricas demais ou pobres demais para ele. Mas Clemente confiava na sua estrela, e esperava.
Saber esperar é tudo.
Uma tarde, passando pela Rua da Quitanda, viu apear-se de um carro um velho e pouco depois uma linda rapariga, que ele conheceu imediatamente.
Era Carlotinha.
A moça trajava como quem possuía, e o velho tinha um ar que cheirava a riqueza a cem léguas de distância.
Era marido? padrinho? tio? protetor?
Clemente Soares não pôde resolver este ponto. O que lhe pareceu foi que o velho era homem de serra-acima.
Tudo isto pensou ele enquanto tinha os olhos cravados em Carlotinha, que estava esplêndida de beleza.
Entrou o par numa loja conhecida de Clemente, que também lá entrou para ver se a moça o reconhceia.
Carlota reconheceu o antigo namorado, mas nenhuma fibra do rosto se lhe contraiu; comprou o que ia buscar, e entrou com o velho no carro.
Clemente ainda teve idéia de chamar um tílburi, mas desistiu da idéia, e seguiu direção oposta.
Durante toda a noite pensou na gentil menina que ele havia deixado em outro tempo. Entrou a perguntar a si mesmo se aquele velho seria marido dela, e se ela havia enriquecido com o casamento. Ou seria um padrinho rico, que resolvera deixá-la por herdeira de tudo? Todas estas idéias galoparam na cabeça de Clemente Soares, até que o sono se apoderou dele.
De manhã tudo estava esquecido.
IV
Dois dias depois, quem lhe havia de aparecer no escritório?
O velho.
Clemente Soares apressou-se a servi-lo com toda a solicitude e zelo. Era um fazendeiro, freguês da casa de Medeiros e morador de serra-acima. Chamava-se o comendador Brito. Tinha sessenta anos e uma dor reumática na perna esquerda. Possuía grandes cabedais e excelente reputação.
Clemente Soares captou as boas graças do comendador Brito nas poucas vezes que ele lá foi. Fez-lhe mil obséquios de pequena monta, cercou-o de todas as atenções, fascinou o com discursos, a ponto que o comendador mais de uma vez lhe teceu grandes elogios em conversa com Medeiros.
— É um excelente moço, respondia Medeiros, muito discreto, inteligente, serviçal; é uma pérola...
— Tenho notado isso mesmo, dizia o comendador. Nas condições dele ainda não achei pessoa que mereça tanto.
Aconteceu um dia deixar o comendador em cima da escrivaninha de Clemente Soares a boceta do rapé, que era de ouro.
Clemente viu a boceta apenas o comendador voltou as costas, mas não quis incomodá-lo, e deixou-o ir adiante. Na véspera acontecera o mesmo com o lenço, e Clemente teve o cuidado de lho ir levar à escada. O comendador Brito era tido e havido por um dos homens mais esquecidos do seu tempo. Ele mesmo dizia que não esquecia o nariz na cama por tê-lo pregado na cara.
À hora do jantar, disse Clemente Soares ao patrão:
— O comendador esqueceu cá a boceta.
— Sim? É preciso mandá-la. Ó José!...
— Mandar uma boceta de ouro por um preto, não me parece seguro, objetou Clemente Soares.
— Mas o José é fidelíssimo...
— Quem sabe? a ocasião faz o ladrão.
— Não creia nisso, respondeu Medeiros sorrindo; vou mandá-la já.
— Além disso, o comendador é um homem respeitável; não será bonito mandar assim a boceta por um preto...
— Vai um caixeiro.
— Não, senhor, vou eu mesmo...
— Pois quer?...
— Que tem isso? retorquiu Clemente Soares rindo; não é coisa do outro mundo...
— Pois faça o que lhe parecer. Nesse caso leve-lhe também aqueles papéis. Clemente Soares informado da casa do comendador, meteu-se num tílburi e mandou tocar para lá.
O comendador Brito vinha passar alguns meses na corte; tinha alugado uma bela casa, e deu à mulher (porque Carlotinha era sua mulher) a direção no arranjo e escolha dos móveis, no que ela se houve com extrema perícia.
(continua...)
ASSIS, Machado de. Um homem superior. Jornal das Famílias. Rio de Janeiro: B. L. Garnier, 1873.