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#Contos#Literatura Brasileira

Um quarto de século

Por Machado de Assis (1893)

Pouco mais de um ano bastou a cansar o marido. Os hábitos do comércio ou da província — os dele, ao menos — não se podiam casar com a vida agitada, que ele mesmo quisera e escolhera. Os bailes pareciam-lhes tristes, ao cabo de um ou duas horas. Quando havia jogo, Sales atirava-se às cartas, enquanto a mulher valsava ou polcava. Gostava mais do teatro, e particularmente do teatro lírico; mas, se a primeira e segunda estação o encantaram, a terceira entrou a aborrecê-lo. Em casa, recebia bem e estava mais a gosto; mas tudo somado, a realidade da vida elegante não correspondia à expectação. Além do mais, para um homem afeito às lidas do comércio, a vida ociosa era pesada e vazia. Não sabendo que fazer do tempo, Sales lembrou-se de exercer a medicina. Curava de graça; não lhe faltavam doentes, e atrás deles a reputação. Assim passou alguns anos, até que ele próprio adoeceu, e, mais infeliz que os seus enfermos, sucumbiu.

III

No sábado marcado, Tomás acudiu a Andaraí, onde já achou a viúva. Oliveira tinha anunciado a vinda do amigo, mas nem então, nem quando este chegou, houve da parte de Raquel a menor emoção. Ela falou ao namorado de outros dias, como se nada houvesse passado entre ambos, em bem ou em mal. Oliveira fê-lo sentar, à mesa, ao pé um do outro; mas a vizinhança não alterou a disposição da viúva.

Tomás achou-a ainda bela, e, a muitos respeitos, melhor. Trinta e sete ou trinta e oito anos, é o que devia ter. Era conversada, interessante, atenta, falando de tudo e bem, sem excesso, sem impertinência, calando a tempo, tudo isso com uma boca fresca e uns olhos capazes de paixão e de mando. Assim pareceram eles a Tomás, que estava comovido e ia-se sentindo acanhado. Para um homem vivido, o estado era inexplicável, se não fora a situação especialíssima. Ele supôs, e qualquer pessoa o suporia, que o longo celibato e a diferença dos tempos o teriam armado contra essa senhora, e foi contrário. Já não falo dos termos da separação de outrora, que eram um atrativo mais, não diminuído pela viuvez. A viuvez era antes um pico.

Raquel demorou-se pouco. A irmã, que estava presente, embora restabelecida, não podia

apanhar sereno e a noite esfriava. Foi a razão dada pela viúva Sales para sair e não cantar, como lhe pedia Oliveira.

— Uma só daquelas músicas espanholas, que a senhora canta com tanta graça.

— Deixei a graça em casa; fica para outra vez.

A mulher de Oliveira ofereceu-lhes pousada por uma noite. Era impossível que D. Rita saísse; podiam ficar; iria levá-las no dia seguinte. Raquel não aceitou nada e despediram se às nove horas. Tomás não ousou apertar fortemente a mão que ela lhe estendeu, à despedida, posto que esse fosse o seu desejo; tocou-lhe apenas nos dedos. Entretanto, esperava que ela lhe oferecesse a casa, e Raquel não lhe ofereceu coisa nenhuma.

Oliveira deu o braço a D. Rita, até o carro, deixando ao amigo a fineza de ir com a viúva. Tomás aproveitou o favor. Entre a casa, que ficava no centro de uma chácara, e a rua havia cerca de trinta passos; Tomás fê-los compridos como léguas, sem achar uma palavra que dizer. Sentia o braço dela no seu, francamente pousado, sem cerimônia nem medo, e a sensação que isto lhe dava ainda mais lhe atava a língua. Enfim, chegaram ao carro.

— Obrigada, disse-lhe Raquel estendendo a mão.

Quando o carro partiu:

— Que tal a achaste? perguntou Oliveira.

— Achei-a bem.

— Estavas pálido.

— Eu?

— Deixa ver a tua mão; está fria. Seriamente, tu sentiste alguma coisa.

— Coisa nenhuma; tive recordações, mas, aos quarenta e quatro anos, as recordações são como brinquedos velhos e quebrados. Achei-a elegante. Queres que te diga? Mais distinta que em solteira.

— Mais senhora, mais tranqüila. O que tu queres dizer é que, em solteira, dava-te as mãos para que as beijasses.

— Nunca lhe beijei as mãos.

— Nunca! Nem os olhos?

— Menos ainda os olhos. Era muito arisca.

Tinham subido a escada de pedra, e parado à porta da sala de visitas. Oliveira pegou da mão do amigo, e, depois de alguns segundos:

— Se resolveres casar com ela, fala-me, disse.

— Casar?

— Fala-me, repetiu Oliveira.

— Tu estás tonto...

— Não é conselho que te estou dando; digo-te só que, se resolveres, estou pronto a servir de terceiro. Faz-se isto aos amigos velhos. Tu estás velho.

— Um pedido; não digas nada à tua mulher.

— De quê?

— Do que houve entre mim e Raquel.

— Já sabe. Contei-lhe tudo hoje de manhã; mas descansa, é discreta. Anda tomar uma xícara de chá; tens as mãos frias...

(continua...)

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